Pela primeira vez desde que o UBS começou a monitorar os chamados family offices, escritórios criados por famílias muito ricas para gerir seu próprio patrimônio, a maioria desses gestores decidiu ao mesmo tempo mudar a forma como aloca seu capital.
O levantamento, divulgado na última quinta-feira (28), ouviu 307 escritórios em mais de 30 países entre janeiro e março deste ano e registrou o maior nível de intenção de mudança desde o início da série histórica. O patrimônio médio das famílias participantes é de US$ 2,7 bilhões.
Confiança no dólar em xeque
No centro dessa virada está o dólar. Nada menos que 65% dos family offices esperam que a confiança na moeda americana como reserva global se enfraqueça nos próximos 12 meses, enquanto apenas 6% antecipam melhora. O movimento já aparece nas carteiras: 47% dizem estar sobreexpostos ao dólar e 29% afirmam que já reduziram ou estão considerando reduzir ativos denominados na moeda americana.
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O diagnóstico combina três fatores: preocupações com o nível da dívida dos EUA, incerteza geopolítica e o risco de concentração cambial. A resposta prática tem sido diversificar para outras moedas, com euro e franco suíço emergindo como as principais alternativas.
“Os family offices estão ajustando portfólios de forma gradual, diversificando entre ativos, moedas e regiões, ao mesmo tempo em que mantêm exposição a temas de longo prazo como inteligência artificial com maior seletividade”, afirmou Benjamin Cavalli, responsável pela área de clientes estratégicos do UBS Global Wealth Management. Ele ressaltou, no entanto, que os ativos norte-americanos ainda representam a maior fatia das alocações globais, com 52% do total previsto para 2026.
Para onde vai o capital
O quadro geral é de revisão, mas sem grandes rupturas. Os mercados desenvolvidos seguem como base dos portfólios, com inclinação crescente para ações de mercados emergentes e ativos como infraestrutura. A exposição a imóveis deve recuar de 11% para 8% das alocações, enquanto o ouro avança de 2% para 3% entre os que planejam ajustes. Em 2025, apenas 35% dos family offices planejavam mudanças na alocação; agora são 60%, percentual que nunca havia ultrapassado 37% em nenhuma edição anterior do relatório.
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No campo temático, a inteligência artificial segue na liderança: 65% dos family offices já têm alguma exposição ao setor de IA, em infraestrutura de data centers, plataformas de software e fabricantes de semicondutores. Apesar de preocupações com valuations elevados, a maioria planeja manter ou ampliar a posição.
Na América Latina, o entusiasmo é ainda maior: 77% dos family offices da região já estão alocados no tema, contra uma média global de 65%, o que coloca o continente acima da média, embora atrás do Sudeste Asiático (88%) e da Ásia do Norte (74%).
No horizonte de riscos, o conflito geopolítico lidera as preocupações tanto no curto quanto no longo prazo, citado por 64% dos respondentes para os próximos 12 meses. Crise de dívida soberana e recessão global crescem como ameaças no horizonte de cinco anos, com 56% e 50% de citações, respectivamente.
