“A Lista da Minha Vida”, dirigido por Adam Brooks, mostra quando Alex Rose recebe da mãe falecida uma missão difícil. Elizabeth, personagem de Connie Britton, grava uma série de vídeos antes de morrer e entrega ao advogado da família, Brad, interpretado por Kyle Allen, a responsabilidade de supervisionar cada etapa da lista de desejos que Alex escreveu ainda adolescente. A condição é simples e ao mesmo tempo cruel. Para receber a herança completa e acessar algumas informações guardadas pela mãe, Alex precisa cumprir todos os itens esquecidos naquele caderno antigo.
O filme mergulha logo na rotina bagunçada da protagonista. Alex vive num estado constante de paralisação emocional. Ela adia decisões profissionais, ignora ligações e mantém relações superficiais com quase todo mundo ao redor. A morte da mãe apenas piora um cenário que já parecia instável antes. Quando os DVDs começam a chegar, Alex percebe que Elizabeth conhecia bem os defeitos da filha e preparou cada mensagem para pressioná-la exatamente onde doía mais.
Existe algo curioso na maneira como Adam Brooks apresenta essa dinâmica. Elizabeth continua influenciando a vida da filha mesmo ausente fisicamente. Connie Britton aparece pouco em cena, mas domina boa parte da narrativa através dos vídeos. Em alguns momentos, as mensagens soam acolhedoras. Em outros, parecem broncas cuidadosamente planejadas por alguém que conhecia cada mecanismo de fuga da própria filha. Alex fica irritada várias vezes e com razão. Afinal, até o processo de luto dela passa a funcionar sob supervisão.
Família cheia de pendências
Conforme a lista avança, Alex precisa enfrentar situações que havia deixado enterradas havia anos. Algumas tarefas exigem reencontros constrangedores. Outras obrigam a personagem a admitir que grande parte da sua vida adulta foi construída em torno da aprovação da mãe. Isso afeta também a relação com os irmãos, interpretados por Dario Ladani Sanchez e Federico Rodriguez, que carregam ressentimentos antigos sobre favoritismos dentro da família.
O roteiro se desenvolve melhor quando se concentra nesses conflitos menores, mais humanos e menos idealizados. Há discussões atravessadas por ironias familiares, reuniões silenciosas que ninguém consegue sustentar por muito tempo e momentos em que Alex tenta parecer emocionalmente equilibrada enquanto claramente está prestes a perder a paciência. Sofia Carson segura bem esse equilíbrio entre fragilidade e irritação constante. Sua personagem frequentemente toma decisões ruins, fala o que não deveria e cria constrangimentos quase infantis em situações sociais simples.
A comédia aparece muito ligada a essas falhas. Alex transforma pequenos compromissos em desastres constrangedores porque raramente consegue esconder ansiedade. O filme sabe aproveitar isso sem transformar a protagonista numa caricatura atrapalhada. Existe dor genuína ali, mas também um certo egoísmo emocional que a própria personagem demora para perceber.
O advogado vira companhia
Kyle Allen acaba ganhando espaço importante na história porque Brad não funciona apenas como advogado responsável pelos vídeos. Aos poucos, ele passa a acompanhar Alex em várias etapas da lista e vira uma das poucas pessoas capazes de confrontá-la sem criar uma guerra familiar instantânea. O personagem possui uma calma quase absurda diante do caos emocional da protagonista. Em certos momentos, parece até cansado de administrar adultos emocionalmente confusos o dia inteiro.
A relação entre os dois se desenvolve sem pressa e sem exageros românticos. O roteiro prefere construir intimidade através de conversas desconfortáveis, silêncios estranhos e pequenas demonstrações de cuidado. Isso ajuda o filme a não cair naquela sensação artificial de romance criado apenas porque duas pessoas bonitas dividem cenas juntas.
Sebastian De Souza aparece ligado ao passado amoroso de Alex e ajuda a ampliar o tema central da história. A personagem percebe que não abandonou apenas sonhos adolescentes. Ela também deixou relações importantes apodrecerem por medo de fracassar ou de não corresponder às expectativas criadas pela mãe. O filme trabalha bem essa ideia de gente adulta que continua emocionalmente presa a versões antigas de si mesma.
Mensagens gravadas para depois
Adam Brooks utiliza os DVDs quase como capítulos emocionais da narrativa. Cada vídeo libera uma nova informação, empurra Alex para outro desafio e revela detalhes sobre Elizabeth que a filha desconhecia. Existe um cuidado em não transformar essas gravações em discursos sentimentais intermináveis. Muitas vezes, Elizabeth aparece apenas para cobrar atitude, provocar culpa ou lembrar a filha de algo que ela preferia esquecer.
A direção toma a decisão correta de manter a história próxima dos personagens e dos espaços familiares. Apartamentos, corredores, restaurantes e encontros pequenos criam uma sensação íntima que combina com a proposta do filme. Tudo parece acontecer dentro de círculos pessoais muito apertados. Alex não está salvando o mundo nem vivendo uma grande aventura romântica. Ela apenas tenta sobreviver a uma sequência de obrigações emocionais deixadas pela única pessoa que realmente sabia desmontá-la por completo.
“A Lista da Minha Vida” segue caminhos previsíveis em alguns trechos, especialmente para quem já conhece dramas românticos sobre luto e amadurecimento. Ainda assim, o longa ganha força pela sinceridade das relações familiares e pela maneira cuidadosa com que trata o medo de seguir em frente depois da perda. Sofia Carson segura o peso emocional da história sem transformar Alex numa vítima perfeita. Ela erra bastante durante o filme e isso deixa a personagem mais humana.
Quando chega a vez do último vídeo, Alex já não parece a mesma mulher do início. Não porque tenha virado alguém completamente diferente, mas porque finalmente aceita olhar para a própria vida sem fugir para outro cômodo, desligar o telefone ou fingir que certas conversas podem esperar para sempre.
