Se conhecer-se a si mesmo é, em tantos casos, uma façanha que poucos alcançam, a cabeça das outras pessoas é um verdadeiro labirinto, de cuja incursão pode-se sair tomado por uma tal desordem que alguns nem mais conseguem tornar à vida como ela é. A aura cômico-metafísica de “Primeiro as Damas” esconde um conto paradoxalmente obscuro, que sabe muito bem como dosar graça e reflexões filosóficas ligeiras, mas eficazes, num filme que, claro, não se compromete quanto a transformar a visão de mundo do espectador sobre o que é tratado, e, ainda assim — ou por isso mesmo — balança nossas certezas. Tarimbada nesse departamento, Thea Sharrock ataca o patriarcado, o machismo, a misoginia, atitudes homofóbicas e o androcentrismo sem pesar a mão e especialmente atenta à natureza ridícula e perigosa do dito macho alfa, esse animal estranho que precisa enaltecer suas qualidades para não perder seus domínios e seguir no topo da cadeia alimentar, ou melhor, da hierarquia institucional. A adaptação dos roteiristas Natalie Krinsky, Cinco Paul e Katie Silberman para a comédia romântica francesa “Eu Não Sou Um Homem Fácil” (2018), de Éléonore Pourriat, volta a “Do que as Mulheres Gostam” (2000), dirigido por Nancy Meyers e cujo sucesso foi tão vultoso que deu em “Do que os Homens Gostam” (2019), o contraponto no qual uma mulher tenta desvendar o universo masculino, levado à tela por Adam Shankman. Ou seja, o assunto está bem longe de se esgotar.
Choque de realidade
Mulheres desdobram-se em duas, em três, em 150 para dar conta de filhos, carreira, casa, marido e, por óbvio, de si mesmas, às vezes nessa ordem, obrigadas a continuar no mesmo corpo e em posições muito inferiores às dos homens com quem romperam a jornada. Resultam dessa injustiça a disparidade salarial e o sonho sempre gorado de receber promoções, o que não passa pela cabeça de Damien Sachs. Para ele, seres humanos regalados com o mecanismo genético XY são naturalmente inclinados à liderança, e ele continuaria assim para sempre, dentro e fora do ambiente corporativo, não fosse o destino tão galhofeiro. Esse ponto de virada do protagonista não difere muito do que Meyers e Shankman já haviam apresentado, mas Sharrock imprime frescor a sua releitura frisando a dimensão paralela onde Damien passa a viver, coagido, lendo “A Senhora dos Anéis”, “Harriet Potter” ou “Dona Quixote”. Sacha Baron Cohen vale-se de um de seus predicados cênicos mais notórios e vislumbra o histrionismo de Damien, enquanto Rosamund Pike é hábil em expor a desventura de Alex Fox, a subordinada talentosa que só tem vez depois que o chefe é obrigado a provar de seu veneno. O desfecho, leve, mas cheio de picardia, nos diz que essa guerra dos sexos vai muito mais longe. Tomara.
