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Renata Sorrah investiga os limites do amor materno com a Pérola de “Por Você”

Renata Sorrah investiga os limites do amor materno com a Pérola de “Por Você”


Amar uma filha não significa necessariamente concordar com as escolhas dela. Muito menos quando essas decisões começam a ameaçar princípios construídos ao longo de uma vida.

Em “Por Você”, novela das 19h da Globo, Pérola, personagem de Renata Sorrah, enfrenta esse dilema ao perceber que Vanessa, vivida por Alinne Moraes, está cada vez mais distante da mulher que gostaria de ter criado.


Presidente do Hospital & Maternidade Luz, a empresária defende uma gestão humanizada, comprometida também com quem não pode pagar pelos serviços da instituição, enquanto a filha prioriza lucro, status e projetos voltados a pacientes de maior poder aquisitivo.

A divergência profissional amplia feridas de uma relação familiar já delicada e faz Renata perseguir uma pergunta sem resposta simples.


“Vanessa é filha da Pérola, a Pérola tem amor por ela, sim. Mas, até quando? É algo que está sempre na minha cabeça, quando estudo: é para sempre esse amor de mãe? É mesmo um amor incondicional?”, questiona.


A situação se torna ainda mais complexa quando Pérola começa a reconsiderar a sucessão do hospital. Decepcionada com a conduta de Vanessa, ela passa a enxergar em Bela, papel de Sheron Menezzes, valores mais próximos daqueles que deseja preservar na instituição.




Mas, em uma obra aberta, nem mesmo Renata sabe exatamente até onde esse afastamento entre mãe e filha poderá chegar. Para a atriz, descobrir os limites de Pérola à medida que a história avança é justamente parte do prazer da construção.

“Eu acho bom quando você não tem respostas. Eu vou ter essa resposta fazendo junto com a Alinne, com os escritores e com o público”, afirma. Aos poucos, as próprias cenas ajudam a dimensionar o tamanho dessa decepção.

“Essa troca é muito importante para eu entender como é ser mãe de uma vilã, de uma mulher que não é bacana, que não é boa”, completa.

P – Como é, para você, fazer a mãe de uma vilã, depois de ter feito tanto sucesso como a Nazaré?

R – Essa é a primeira vez que tenho uma filha vilã, personagem que Alinne Moraes está fazendo lindamente. E eu estou tomando muito cuidado nessa construção, porque ela tem amor pela filha, mas até quando?

Isso sempre está na minha cabeça quando eu estudo. Vanessa pode fazer o que ela quiser que a mãe vai estar ali? Pérola ama a filha, mas o que ela espera na vida é que a filha possa mudar e ser uma pessoa melhor. Essa relação é muito delicada e a mãe tem muito desgosto com a filha, que reconhece tantos erros. Não é uma relação fácil para se construir.


Foto: Globo/Lucas Teixeira // Globo/Manoela Melo



P – Como você enxerga as diferenças entre Pérola e Vanessa?

R – As duas moram na mesma casa, Pérola é a dona do hospital e Vanessa uma das diretoras. Mas elas têm visões totalmente diferentes. Pérola é ética, mas não dá para falar a mesma coisa da Vanessa.

A Pérola tem uma ideia humanista do hospital, enquanto a Vanessa quer uma ala Premium Baby. E a mãe faz a pergunta clássica: “onde foi que eu errei?”. É difícil isso.

P – A Pérola é mesmo uma mulher 100% do bem?

R – Totalmente! É uma mulher direita, que quer o melhor para o hospital. Tanto que ela se dá bem com a Bela. O que a Bela quer é transformar o hospital, ter uma ala ali que atenda mulheres grávidas em situação de vulnerabilidade, tipo o SUS.

É uma unidade particular, mas Pérola quer, sim, que tenha essa ala, que atenda mulheres que estejam precisando. Já a Vanessa pensa oposto. Ela quer criar uma ala onde se bota maquiagem nas parturientes. E a Bela não. O primeiro capítulo já deixou bem clara essa diferença entre elas.

P – Como?

R – A primeira sequência dela na novela, da Bela, foi de um parto que ela faz no supermercado, de uma mulher que está precisando. Eu acho isso muito bonito.

P – Isso caminha bastante com sua vida, porque sua filha, Mariana, é médica e também faz trabalho voluntário.

R – Sim, que bom poder falar sobre isso! Minha filha é totalmente voltada para o atendimento social, com médicos voluntários. Conversei muito com ela, ela também está me dando muitas dicas. Eu tenho muito orgulho da minha filha, da Mariana, é muito legal o trabalho que ela faz.

Ela faz um trabalho lindo mesmo, porque vai para lugares onde a medicina, os médicos normalmente não chegam. Ela é pediatra, vai com um grupo de voluntários e viaja pelo Brasil. Ela vai à África também. Para mim, está sendo muito bom poder fazer uma diretora de hospital que defende a mocinha nesses ideais.

P – “Por Você” tem três atrizes com vilãs marcantes no currículo: você, Regiane Alves e Alinne Moraes. Entre Nazaré (“Senhora do Destino”), Dóris (“Mulheres Apaixonadas”) e Sílvia (“Duas Caras”), qual você acha a melhor – ou a pior, no caso – vilã?

R – Ah, eu adoro a Nazaré! Ela tem um humor. Não é que ela seja melhor, porque todas dessa lista são ótimas! Mas tem algo que o Aguinaldo escreveu e que é muito legal: a Nazaré é engraçada. Não é maniqueísta, não é só má. Ela quebra isso!

Mas dizer qual das três ganharia? As outras duas atrizes, tanto Regiane quanto Alinne, fizeram lindamente! Assim como Adriana Esteves, Patrícia Pillar, Fernanda Montenegro, temos várias vilãs incríveis! Não é porque eu fiz, mas eu acho a Nazaré maravilhosa.

P – Nazaré virou um ícone pop…

R – Pois é, já tem mais de 20 anos. E ela é isso no mundo todo! A Nazaré é pop total!

P – E você tem preferência entre interpretar antagonistas ou encarnar papéis de heroínas?

R – Não, eu quero bons papéis. Aqueles em que você pode transmitir alguma coisa. A arte é incrível, é onde toca. E a gente está precisando disso: de se unir, se dar a mão. Através da arte, a gente consegue! São pontes que a gente constrói entre as pessoas.

E a gente tem de fazer um mundo melhor, o que está difícil! É tão bonito ir ao cinema, ao teatro, ler um livro, uma poesia… Isso dá um alívio, dá um ombro para você. É muito bom!


Janelas abertas

Aos 79 anos, Renata Sorrah não mede a própria experiência pelo que já sabe, mas pelo quanto ainda pode descobrir. Depois de décadas dedicadas à televisão, ao cinema e ao teatro, ela segue encarando cada personagem como um terreno a ser explorado. Pérola não escapa dessa lógica.


“Eu continuo aprendendo e isso é maravilhoso. Tenho muitos anos trabalhando, fazendo novela e teatro, mas é sempre bom aprender e continuar aprendendo, estar aberta e se perguntando como é que faz isso ou aquilo”, afirma.


Para Renata, é justamente a possibilidade de permanecer em movimento que conserva o interesse pelo ofício. “No dia que eu disser que já sei tudo, aí, acabou. Não vai ter graça, porque a graça é você estar sempre abrindo as janelas, abrindo as portas, respirando”, acrescenta.


Parte desse aprendizado vem do encontro com colegas de outras gerações. Em “Por Você”, a atriz contracena, entre outros nomes, com Lucas Leto, intérprete de Vitor, e Giovanna Grigio, que vive a neta de Pérola, Leandra.

Até então, a veterana não havia trabalhado com nenhum dos dois. “É muito bom a gente trocar, a gente olhar um no olho do outro”, celebra.

É também na reação dos parceiros de cena que Renata procura descobrir quem é Pérola. Para ela, um personagem não se constrói isoladamente, mas a partir dos vínculos estabelecidos dentro da própria história.


“A minha personagem está na Vanessa, está na Bela, no Vitor, na Leandra, eles é que vão me dando o feedback de quem é essa Pérola”, explica.


Lugar certo

Não foi preciso muito para Renata Sorrah decidir que desejava voltar às novelas. Depois de interpretar a atriz e empresária Wilma em “Vai na Fé”, em 2023, ela recebeu de André Câmara, diretor artístico de “Por Você”, o convite para conhecer Pérola. Bastou ler a sinopse e os primeiros capítulos para que a decisão fosse tomada. “Eu quis fazer na hora”, recorda.

O retorno ao gênero que marcou boa parte de sua trajetória veio acompanhado da sensação de reencontro. “Eu estou muito feliz, é muito bom estar de volta”, comemora.

Essa familiaridade tem raízes profundas. Foi através do trabalho que Renata viu sua vida profissional e pessoal atravessar diferentes fases.

“Quando eu estou no estúdio, eu me sinto no meu lugar. Foi no trabalho que eu cresci, amadureci. Foi onde eu me casei, onde eu tive amores, filhos e, agora, netos”, resume.

Hoje, a permanência nesse ambiente também permite a convivência com artistas que começam a escrever suas próprias trajetórias.



“Essa é minha profissão e é bom poder dividir isso com os jovens também. É uma troca incrível”, defende.


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