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Quando uma das maiores histórias de terror do cinema ganha sequência digna de aplausos: agora, na Netflix

Quando uma das maiores histórias de terror do cinema ganha sequência digna de aplausos: agora, na Netflix

Alguns traumas não acabam na infância; eles apenas mudam de endereço e esperam o momento certo para voltar a bater na porta. Em “Doutor Sono”, Mike Flanagan retoma a história de Danny Torrance, agora adulto, vivido por Ewan McGregor, que tenta levar uma vida comum depois de sobreviver ao horror no Hotel Overlook. Danny é um homem quebrado, alcoólatra em recuperação, que decide se fixar numa pequena cidade e trabalhar em um hospital, onde usa discretamente seu “brilho” para confortar pacientes em seus últimos momentos. Essa rotina lhe dá estabilidade e algum senso de utilidade, mas também deixa claro que ele vive em permanente vigilância contra o próprio passado. O problema é que o mundo não esqueceu pessoas como ele.

Quando surge Abra Stone, interpretada por Kyliegh Curran, a história ganha nova urgência. Abra é uma adolescente com poderes psíquicos ainda mais fortes que os de Danny, e não tem medo de usá-los. Inteligente e direta, ela percebe que existe um grupo perseguindo crianças com habilidades como as dela. Esse grupo é liderado por Rose the Hat, personagem de Rebecca Ferguson, uma vilã carismática e inquietante que comanda uma seita itinerante dedicada a capturar jovens com “brilho” para extrair deles uma energia que prolonga suas próprias vidas. A partir do momento em que Abra entra no radar de Rose, a tranquilidade recém-conquistada por Danny começa a ruir.

O vínculo telepático entre Danny e Abra funciona como uma ponte entre gerações marcadas pelo mesmo dom. Ele tenta orientar, proteger e, de certo modo, corrigir os erros que quase o destruíram quando era criança. Só que, ao decidir ajudar Abra, Danny se expõe novamente a forças que havia aprendido a trancar dentro da mente. O roteiro é claro ao mostrar que cada escolha dele tem custo: quanto mais se envolve, maior o risco de perder a sobriedade, o emprego e a frágil paz que construiu.

Rebecca Ferguson domina as cenas em que aparece. Rose the Hat não é uma vilã histérica; ela lidera com calma, planeja com método e observa suas vítimas com uma frieza quase empresarial. Isso torna a ameaça mais concreta. Não se trata de uma entidade abstrata, mas de um grupo organizado, que viaja, monitora e ataca com precisão. O horror aqui nasce menos de sustos fáceis e mais da sensação de perseguição inevitável. Há uma tensão constante na ideia de que alguém está sempre observando.

Flanagan conduz o suspense com paciência. Ele não acelera o conflito de forma artificial; deixa que a ameaça cresça aos poucos, à medida que Danny entende o tamanho do perigo e Abra percebe que não pode enfrentar aquilo sozinha. A fantasia está presente, mas sempre ancorada em decisões muito humanas: confiar ou não confiar, se esconder ou reagir, fugir ou enfrentar. É nesse equilíbrio que o filme encontra força. O terror surge quando os personagens precisam agir, mesmo com medo.

Ewan McGregor entrega um Danny cansado, mas empático. Há algo de comovente na tentativa dele de ser melhor do que o pai foi. O filme conversa diretamente com o legado de “O Iluminado”, mas não vive apenas da nostalgia. Ele constrói sua própria identidade ao focar na recuperação, na responsabilidade e no peso de proteger alguém mais jovem. Abra, por sua vez, não é apenas vítima em potencial; ela tem personalidade, coragem e presença. Kyliegh Curran sustenta essa energia com naturalidade, o que torna a dinâmica entre ela e McGregor convincente.

“Doutor Sono” aposta no confronto entre passado e presente como motor dramático. A ameaça é concreta, os personagens têm objetivos claros e cada passo em direção ao embate final aumenta a pressão. O drama com elementos de horror prefere construir tensão a explorar choques fáceis. Pode não ter o mesmo impacto revolucionário do clássico que o antecede, mas entrega uma continuação madura, emocionalmente envolvente e, acima de tudo, coerente com a dor que nunca deixou Danny Torrance em paz.

Filme:
Doutor Sono

Diretor:

Mike Flanagan

Ano:
2019

Gênero:
Drama/Fantasia/Suspense/Terror

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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