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Quando o terreiro ecoa no pop: Alessandra Leão reflete sobre “Cabocla de Pena” em “Equilibrium II”

Quando o terreiro ecoa no pop: Alessandra Leão reflete sobre “Cabocla de Pena” em “Equilibrium II”


Quando “Cabocla de Pena” abre a faixa “Okê”, de “Equilibrium II”, novo álbum de Anitta, não é apenas uma gravação de 2019 que atravessa as caixas de som.


O que se escuta ali é uma história iniciada em 1997, quando Alessandra Leão decidiu fazer da música seu ofício e passou a investigar, aprender, cantar e recriar repertórios de terreiro.


Quase três décadas depois, o encontro entre sua voz e o universo pop funciona como um lembrete: esses cantos sempre estiveram entre os alicerces da música brasileira.




Alessandra diz que não nasceu em uma família de terreiro. Foi o som que a conduziu até esse universo. “É a música que me leva. É o tambor, especificamente”, recorda.


O fascínio pelo ilú e pelos toques de contemporâneos seus na música acabaria orientando sua trajetória. Foi nos terreiros que a artista descobriu uma escola estética, espiritual e humana que permanece estruturando seu trabalho.


“A música que vem dos terreiros é uma escola incrível”, afirma Alessandra, que é umbandista e curimbeira do Terreiro Recanto Quiguiriça.


A música não se separa do sagrado

A discografia de Alessandra nunca tratou esses repertórios como matéria-prima a ser lapidada pelo mercado. Em cada álbum, eles aparecem vinculados às pessoas, aos territórios e às práticas que lhes dão sentido. “Primeiro, é saber de onde você vem. De onde vem aquele repertório”, resume.


A cantora conta que suas relações com os mestres são horizontais, construídas pela amizade e pela convivência, e que, quando trabalha com músicas das macumbas, tudo passa pelo diálogo com sua casa espiritual.



“Tudo eu pedi autorização. Tudo foi dialogado dentro do terreiro. Da capa ao repertório”, refere-se Alessandra ao álbum “Macumbas e Catimbós” (2019), onde foi gravada sua versão de “Cabocla de Pena”, um ponto de jurema.


Essa ética também orienta sua compreensão sobre criação artística. “Eu nunca quero ser melhor do que a tradição”, diz.


Para ela, as manifestações populares e religiosas constituem tecnologias culturais desenvolvidas ao longo de séculos. Seu papel, como artista, não é refiná-las, mas criar a partir das inquietações que carrega sem apagar as autorias de quem veio antes.


“A minha busca é que a gente sempre olhe para os indivíduos que fazem aquele movimento existir.”


O reconhecimento ainda não chegou por inteiro

Ao ouvir “Okê” pela primeira vez, Alessandra se surpreendeu com o espaço ocupado por “Cabocla de Pena”. “Não é uma citação no meio da música. Tem um destaque grande”, observa.


“A macumba é sobre fazer junto”, afirma, vendo no disco uma construção coletiva que aproxima diferentes artistas e tradições.


Ainda assim, Alessandra rejeita a leitura de que a valorização das culturas de matriz africana tenha alcançado o mercado de forma equivalente. Embora reconheça avanços, afirma que artistas ligados às tradições populares continuam enfrentando desigualdades em praticamente toda a cadeia produtiva.



“A gente melhorou muito, mas não chegou a 10% do que precisa melhorar.” Para ela, as diferenças aparecem nos editais, nos cachês, nos palcos, nas condições de trabalho e até nos camarins destinados a grupos tradicionais.


É por isso que, para Alessandra, o maior efeito de um sample não está apenas na projeção que ele oferece a um artista, mas, na possibilidade de despertar curiosidade.


“O meu convite é: não se contente ali. Olhe mais. Vá mais para o lado”, diz.


Em vez de tratar esses saberes como relíquias do passado, ela propõe enxergá-los como uma produção viva, feita por artistas que seguem criando, ensinando e reinventando a música brasileira todos os dias.

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