Dentro de uma única vida cabem universos inteiros. Viver é equilibrar-se entre polos, enquanto o destino costura sua trama por entre nossas escolhas e o acaso. O ser humano é, a um só tempo, autor e personagem de sua existência, e isso o condena a uma jornada em que o controle é sempre parcial e ilusório. Filhos talvez sejam a tentativa mais excelsa quanto a ter algum domínio sobre o imponderável, e por eles também se aprende a avançar um pouco os limites do corriqueiro, como se pode ver em “Sentimentos que Curam”. Em hora e meia, a diretora Maya Forbes relata episódios de sua infância, aproximando o público de um homem comum e admirável, vítima de distúrbios que levam-no à beira do colapso. Mas ele aguenta o tranco e dá a volta por cima.
Urso bipolar
Doenças mentais não são brincadeira. Em todo o mundo, há mais de 720 milhões de indivíduos com algum transtorno psíquico, cerca de 10% da população da Terra. Ao longo dos anos, começaram a pipocar casos de gente que passava os dias acorrentada, como feras, porque, longe de cuidados básicos como terapia e medicamentos, tornavam-se de fato outras pessoas, presas de seus próprios fantasmas. Na Massachusetts de 1968, pouco se sabia acerca dos males do espírito e do intelecto, e o caso de Cameron Stuart vai passando sem a devida atenção, até porque “todo mundo era meio doido nos anos 1960”, como realça Forbes. Cam veio de uma família aristocrática da Nova Inglaterra, mas não tem dinheiro, casou-se com Maggie, uma bela afro-americana, e juntos eles tiveram Amelia e Faith que, apesar da pouca idade, já perceberam que há alguma coisa de errado com o pai. Uma sequência em que Cam sai de cueca vermelha numa bicicleta empenada prenuncia o rompimento que a diretora-roteirista esmiúça aliando pragmatismo e uma cadência melodramática, fazendo questão de deixar claro que eles ainda se amam. E que a separação é o mal que virá para o bem.
Tudo em todo lugar ao mesmo tempo
Quando Maggie resolve mudar-se para Nova York para cursar um MBA em Columbia, Cam vira o tutor das meninas, e o filme aborda a questão de forma madura, sem maniqueísmo, concentrando-se no novo relacionamento que o pai é obrigado a manter com Amelia e Faith, agora já oficialmente diagnosticado com o transtorno bipolar que presta-se ao trocadilho jocoso inventado por elas. Em mãos pouco cuidadosas, “Sentimentos que Curam” viraria uma comédia de péssimo gosto, mas talvez por seu caráter autobiográfico, o filme surpreende ao tirar de letra a natureza eminentemente trágica e revelar personagens complexos e humanos, sem concessões ao trivial. Como sói acontecer, Mark Ruffalo galvaniza o que é contado descobrindo a hora exata de tocar essa ou aquela corda de seu anti-herói, bem-acompanhado por Zoë Saldaña. O final feliz coroa aquela sensação gloriosa de estar diante de um produto cultural que tem o condão de analisar imbróglios da alma dos seres humanos sem a necessidade do riso. Assim mesmo — ou por essa razão — rimos.
