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Pouca gente esperava ver Jackie Chan na Netflix em uma ficção científica tão barulhenta e tão estranhamente divertida

Pouca gente esperava ver Jackie Chan na Netflix em uma ficção científica tão barulhenta e tão estranhamente divertida

Leo Zhang dirige “Bleeding Steel” no excesso. Jackie Chan, Ouyang Nana, Show Lo e Erica Xia-hou entram nessa máquina a partir de uma boa premissa: um agente de elite deixa o hospital onde a filha agoniza para atender a uma operação policial, e essa escolha volta anos depois na forma de conspiração biomédica, sangue regenerativo e perseguição em Sydney. A primeira imagem forte do filme é simples: Chan ao volante, com um urso de pelúcia no carro, freia diante do hospital, hesita e vai embora. É um começo promissor. Logo depois, porém, o filme se cobre de armaduras pretas, um coração mecânico, soldados de laboratório e explicações demais.

Quando a ação se muda para a Austrália, Leo Zhang passa a empilhar situações. Há um escritor num hotel, um ladrão de informações disfarçado de prostituta, uma mulher de preto que invade quartos, uma jovem cercada por pesadelos de laboratório, um espiritualista, um cofre doméstico, uma casa abandonada, um banco e, depois, um dirigível que serve de base ao vilão. Nada disso é necessariamente ruim. O problema é o modo como tudo entra em cena. O roteiro não escolhe. Vai adicionando peça sobre peça, como se temesse perder o fôlego ao parar por um minuto. A confusão vem daí.

O filme melhora quando troca explicação por obstáculo. O coração mecânico não fica na conversa; vira objeto em disputa. O sangue regenerativo não funciona como ideia abstrata; é material que se extrai, se carrega, se injeta. A barreira de segurança não é pretexto; é superfície concreta impedindo um resgate. “Bleeding Steel” rende mais quando desce a esse nível de porta, corredor, tela, carro e arma. Sempre que alguém precisa perseguir, trancar, abrir, fugir ou atravessar um espaço, o longa ganha alguma firmeza.

Hotel e cofre

A relação entre Lin Dong, Xiao Su e Li Sen também funciona melhor nesse plano mais prático. Lin precisa dos dois, mas não confia em nenhum. Li Sen ajuda enquanto esconde o jogo. Xiao Su tenta manter a operação de pé. Há uma cena que resume bem esse atrito: Lin tranca Li Sen num cofre de alta segurança dentro de casa. O filme não para para discursar sobre lealdade. Mostra um corpo preso atrás de uma porta grossa e segue em frente. É pouco, mas é o bastante. Em vários momentos, “Bleeding Steel” acerta justamente quando abandona a vontade de explicar o próprio universo e deixa seus personagens lidarem com problemas materiais.

Jackie Chan continua sendo o centro disso tudo. O papel não tem grande complexidade, e o filme faz de tudo para compensar sua idade com aparato, elenco mais jovem e tecnologia espalhada pela cena. Ainda assim, basta Chan entrar num espaço para a ação mudar de peso. Ele sobe uma escada, se agarra a uma superfície, atravessa um corredor, e a cena fica mais concreta. A luta na Sydney Opera House, lembrada por parte da crítica como o melhor momento do filme, vale por isso. Por alguns minutos, o longa larga a própria papelada e põe corpos numa superfície difícil, em altura, sob risco claro. Funciona porque Jackie Chan ainda sabe vender esforço.

O peso do corpo

Isso não salva o conjunto. O filme acumula elementos demais e não sabe dosar nenhum. Há a jovem perseguida por memórias truncadas, o vilão consumido pelo próprio experimento, o cientista morto, o livro que reproduz o passado, o herói ausente na hora decisiva, o filho do traficante em busca de vingança. Separadas, essas linhas podiam sustentar um filme. Juntas, se atropelam. “Bleeding Steel” vive de reinício em reinício. Quando uma situação começa a ganhar forma, outra já entra em cena exigindo atenção. Em vez de tensão, o filme produz ruído.

Ainda assim, não é um caso perdido. Há alguma energia nessa mistura de melodrama, sucata futurista e ação internacional. E há Jackie Chan, que passa o filme tentando dar ritmo e peso ao que Leo Zhang mal organiza. Nem sempre consegue. Muitas vezes, não consegue mesmo. Mas, quando “Bleeding Steel” esquece a explicação e se concentra em choque, corrida, porta arrombada e metal voando, ainda arranca alguma coisa. Não é um bom filme. Também não é um filme morto. É um sci-fi de ação confuso, espalhado e barulhento, sustentado por um astro que ainda sabe fazer o corpo pensar melhor do que o roteiro.



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