Rikers Island uma ilha-priso de 170 hectares no East River, Bronx, na cidade de Nova Iorque que contm a maior priso da cidade. Batizada em homenagem a Abraham Rycken, que tomou posse da ilha em 1664, a priso tinha originalmente menos de 40 hectares , mas desde ento cresceu para mais de 160 hectares. Os primeiros estgios de expanso foram realizados em grande parte pelo trabalho de condenados que transportavam cinzas para aterro. A ilha abriga uma das maiores instituies correcionais e psiquitricas do mundo e foi descrita como a priso mais conhecida e problemtica de Nova York. |

A maioria (85%) dos detentos so rus em priso preventiva, mantidos sob fiana ou em custdia. O restante dos internos foi condenado e est cumprindo penas curtas.
A Ilha Rikers tem uma reputao de violncia, abuso fsico e mental e negligncia para com seus detentos, e atraiu a ateno da imprensa e do judicirio, resultando em inmeras decises contra o governo da cidade de Nova York.
Numerosas agresses ocorreram por parte de detentos contra policiais e outros funcionrios civis, frequentemente resultando em ferimentos graves. Em maio de 2013, a Ilha Rikers foi classificada como uma das 10 piores instalaes correcionais de todos os Estados Unidos.
Enquanto o problemtico complexo penitencirio da cidade de Nova York tenta melhorar a qualidade da sua alimentao, as pessoas que cozinham l enxergam uma misso maior.
E enquanto esto em seus turnos, os cozinheiros tambm ficam trancados l dentro. H cmeras por toda parte, monitoradas do escritrio dos guardas. Facas cegas so acorrentadas a mquinas pesadas.
Tampas de latas deslizam para dentro de uma gaiola trancada. Colheres so trancadas no escritrio. Dentro das cozinhas de Rikers, existe um delicado equilbrio entre os cozinheiros, os guardas e os detentos que lavam a loua.
Em 2025, o chef Luis Reina estava preparando o jantar para uma multido: ensopado de peru, arroz e salada de pepino. As receitas so simples: picar os legumes, dourar a carne, mas o processo estava longe de ser fcil.
Cada caixa de ingredientes tinha que ser revistada em busca de contrabando. A faca estava presa ao balco por uma corrente resistente, e as colheres de metal vinham de um armrio guarnecido por seguranas.

As tampas afiadas das latas de tomate tinham que ser jogadas em uma lata de lixo dentro de uma gaiola trancada. Vrios auxiliares de cozinha estavam vestidos com macaces e eram cuidadosamente revistados antes de comearem a preparar a refeio para 6.800 pessoas.
Luis, de 56 anos, cozinheiro em Rikers Island faz 29 anos. Ele viaja duas horas de Flatbush, no Brooklyn, para preparar refeies para a populao carcerria e funcionrios, juntamente com cerca de 50 outros cozinheiros, na maior das duas cozinhas da ilha.
Ela funciona 24 horas por dia, e os cozinheiros preparam o caf da manh, o almoo e o jantar de todos os detentos.
Alguns detentos, todos eles infratores no violentos, trabalham nas cozinhas de Rikers e recebem um salrio de US$ 1,45 por hora.
Luis diz estar frustrado com a m qualidade das refeies, em que cada ingrediente e receita so ditados pelo Departamento Correcional da cidade. A maioria das frutas e verduras chega priso enlatada ou congelada. O sal est fora de questo, proibido desde 2014 por motivos de sade.
– “As pessoas dizem que a comida em Rikers Island horrvel, e responsabilizam os cozinheiros”:, disse Luis. – “Mas eu s cozinho o que me mandam cozinhar.”
Rikers, claro, no uma instituio municipal qualquer. Abrigando cerca de 6.600 adultos, a maioria aguardando julgamento e outros cumprindo penas de menos de um ano, a priso tem sido alvo de crticas h dcadas devido s condies desumanas e violncia descontrolada.

Um juiz federal recentemente considerou a cidade culpada de desacato por no resolver esses problemas, o que pode levar interveno de um tribunal federal em Rikers. A cidade tem um prazo para fechar a priso at agosto de 2027 e substitu-la por quatro centros menores, uma exigncia legal que dificilmente ser cumprida.
Enquanto isso, a cozinha de Rikers nunca fecha. E uma reformulao do cardpio no aliviar os rigores do trabalho dos cozinheiros: turnos de oito horas confinados atrs de uma longa srie de portas trancadas, por um salrio inicial anual de US$ 38.858.
A experincia deles pode ser estranha: embora os cozinheiros digam que no se sentem em perigo, o espectro da violncia ainda paira sobre o complexo. Apesar de trabalharem com alguns detentos, eles nunca veem a maioria das pessoas que alimentam.
Muitos utenslios de cozinha so guardados em armrios trancados, e a cozinha monitorada por cmeras de segurana.
No entanto, vrios cozinheiros entrevistados pelo New York Times disseram que viam o trabalho como uma oportunidade de fazer a diferena na vida dos detidos, proporcionando-lhes uma rara lembrana de sua humanidade: uma refeio.
O trabalho de Luis envolve muito mais do que cozinhar: ele se considera um terapeuta, instrutor e mentor para os detentos que o ajudam na cozinha. Ele nunca pergunta a eles o que fizeram para acabar em Rikers.
Uma colega de trabalho, Tamara Craddock, disse que as refeies so “a nica ligao que os rapazes tm para manter a sanidade“. A comida no s humaniza as pessoas, disse ela, como tambm as estabiliza; se houvesse escassez, haveria tumultos.
Os cozinheiros geralmente no compartilham muita informao: usam apenas o sobrenome e no conversam sobre suas vidas pessoais com os detentos, por motivos de segurana.

Os cozinheiros esto animados com a nova formulao do cardpio porque ela envolve cozinhar de verdade. Atualmente, eles ainda passam boa parte do tempo descongelando alimentos embalados, como burritos e pizzas congeladas, que sabem que os detentos no gostam.
– Os carrinhos voltam cheios”, disse Tamara. – “A maior parte da comida acaba no lixo.”
A cozinha fica localizada no interior do Centro Anna M. Kross, uma priso desativada de 47 anos, separada das celas dos detentos, aps longos corredores repletos de impresses de mos pintadas, placas com os dizeres “Proibido Falar” e pequenas janelas com vista para quadras de basquete e cercas de arame farpado.
Muitos dos alimentos nos cardpios atuais so embalados e congelados, e impopulares entre os detentos, segundo os cozinheiros.
Recentemente os cozinheiros foram treinados para preparar pratos como macarro com queijo e abbora caboti e sancocho vegano, um ensopado porto-riquenho muito apreciado, pela Hot Bread Kitchen, a organizao sem fins lucrativos que est reformulando o cardpio.
Os objetivos iniciais so modestos: os novos pratos base de plantas sero incorporados a duas refeies por semana, com a meta de aumentar para quatro refeies em nove a doze meses.
Diamond Wynn, instrutora culinria da ONG, quer mudar essa mentalidade. Na sala de descanso, ela ensinou aos cozinheiros as diferenas entre assar e cozinhar no forno e ofereceu uma bandeja de macarro com queijo para eles experimentarem.
Diamond e sua equipe vivenciaram em primeira mo as limitaes da cozinha de Rikers enquanto desenvolviam receitas. Nada de picar com preciso; as facas esto cegas e o tempo curto. Nada de molhos que precisem ser batidos; no h liquidificador industrial. E nada de sal.
Luis, imigrante panamenho e pai de seis filhos adultos, cozinha em Rikers h tempo suficiente para se lembrar de quando a priso servia pratos como frango frito, pizza e costeletas de porco assadas, antes da alimentao ser substituda por pratos mais saudveis em 2010.
Ele ocasionalmente se desvia da receita e reala o sabor de um prato com um pouco de molho de soja ou pimenta-do-reino. Mas no importa o que ele cozinhe, os detentos reclamam.
– “Em meus 29 anos de experincia, impossvel agrad-los”, disse ele. – “Aqui no nenhum restaurante de luxo, mas fazemos o melhor que podemos com o que temos.”
Muitos dos cozinheiros esto torcendo o nariz por acreditar que o novo cardpio vai piorar ainda mais a situao. Se carne sem sal um asco o que ser de comida vegana sem sal?
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