LA VALETA, MALTA – O passaporte como conhecemos hoje pode estar com os dias contados. Essa foi uma das principais mensagens do painel “Identidade digital: reinventando a experiência fronteiriça”, realizado nesta quinta-feira (08) durante o primeiro dia da 26ª Cúpula Mundial do WTTC, em Malta. Para Paul Griffiths, CEO do Dubai Airports, a tecnologia já permite uma experiência em que o viajante chega ao aeroporto, passa pelos diferentes pontos de controle e embarca sem precisar apresentar repetidamente passaporte, documento ou cartão de embarque.
“Cinco anos é provavelmente o número”, afirmou Griffiths, ao ser questionado sobre quando os passaportes poderão deixar de ser utilizados. Segundo ele, o problema não está mais na tecnologia disponível, mas na velocidade de adoção e, principalmente, na falta de integração entre os diferentes sistemas e atores da cadeia de viagens.
O painel contou ainda com a participação de Diane Sabatino, da U.S. Customs and Border Protection, além de representantes do setor de viagens e tecnologia.
A viagem sem paradas
Griffiths descreveu o que chamou de sua visão de uma jornada ideal: o passageiro chega ao aeroporto sem precisar carregar passaporte, não passa por balcões de check-in, atravessa a segurança sem retirar itens da bagagem e segue até o portão sem apresentar cartão de embarque.
Segundo ele, essa experiência já é possível no Dubai International Airport, onde tecnologias de identificação permitem reduzir etapas da jornada. “Não é um sonho. Isso já está acontecendo”, afirmou.
O executivo acrescentou que o novo aeroporto de Dubai, previsto para entrar em operação em 2032, terá capacidade para 260 milhões de passageiros por ano e deverá utilizar tecnologia para personalizar a experiência de cada viajante, reduzindo ao mínimo as interrupções ao longo do percurso.
Tecnologia não é mais o obstáculo
Para Griffiths, a principal barreira agora é fazer com que aeroportos, companhias aéreas, locadoras de veículos, empresas de cruzeiros, hotéis e órgãos governamentais utilizem sistemas capazes de conversar entre si. “Tecnologia não é a barreira. O problema são os limites da nossa imaginação e a necessidade de conversarmos uns com os outros”, afirmou.
A ideia é que uma mesma identidade digital acompanhe o passageiro ao longo da jornada, eliminando a necessidade de apresentar os mesmos dados repetidamente em diferentes pontos.
No modelo defendido pelo executivo, seriam necessárias apenas duas respostas em cada etapa: “Eu sou quem digo ser?” e “Deveria estar aqui neste momento?”. A partir de uma identificação facial, por exemplo, o sistema poderia fornecer uma resposta positiva ou negativa em poucos segundos.
EUA já validaram mais de 1 bilhão de viajantes por biometria
Diane Sabatino destacou os avanços da U.S. Customs and Border Protection (CBP) na utilização de biometria facial. Segundo ela, desde 2016, o órgão já confirmou biometricamente mais de 1 bilhão de viajantes em pontos de entrada nos Estados Unidos.
A executiva afirmou que o objetivo é ampliar cada vez mais a utilização do rosto como elemento de identificação, reduzindo a necessidade de interação presencial com agentes nos casos em que a legislação permitir.
No programa Global Entry, por exemplo, a tecnologia já permite que determinados passageiros realizem etapas do processo de entrada sem necessariamente interagir com um agente.
Diane ressaltou, porém, que a tecnologia não significa o fim da força de trabalho. Segundo ela, a CBP continua contratando e pretende utilizar a inteligência artificial para reduzir tarefas administrativas e permitir que os agentes se concentrem em decisões e atividades de fiscalização.
Cruzeiros mostram o potencial da integração
O setor de cruzeiros foi apresentado como um exemplo de como a troca antecipada de informações pode facilitar o controle de fronteiras. Com navios transportando milhares de passageiros e visitando diferentes países em uma mesma viagem, a indústria já trabalha com o envio de manifestos de passageiros às autoridades antes da chegada ao destino. Isso permite que parte das verificações seja realizada antecipadamente, deixando os agentes concentrados nos passageiros que efetivamente precisam de uma análise adicional.
O desafio, segundo os participantes, é ampliar essa lógica para toda a cadeia. Hoje, diferentes sistemas funcionam de maneira independente, obrigando o viajante a se cadastrar em programas distintos e repetir informações ao longo da jornada.
Privacidade e confiança
A discussão também passou pela proteção de dados, um dos principais desafios para ampliar o uso de identidade digital e biometria.
O CEO do Dubai Airport defendeu que não é necessário compartilhar indiscriminadamente todas as informações do viajante. Para ele, o sistema poderia consultar uma fonte centralizada apenas para confirmar a identidade e a autorização daquela pessoa para realizar determinada etapa da viagem.
Sabatino, por sua vez, destacou que a confiança depende de transparência sobre quais dados são coletados, como são utilizados e como são protegidos.
Fim dos passaportes? “O obstáculo é a colaboração”
Na conclusão do painel, os participantes foram questionados sobre qual seria o principal obstáculo a ser resolvido para que a experiência sem fricção se torne realidade. A resposta foi direta: colaboração.
Para os executivos, governos, aeroportos, companhias aéreas, empresas de tecnologia e demais integrantes da cadeia precisam estabelecer padrões comuns, testar soluções de forma gradual e compartilhar os resultados.
A conclusão reforça uma das principais mensagens da Cúpula do WTTC em Malta: o futuro das viagens sem fricção já depende menos de inventar novas tecnologias e mais de fazer as tecnologias existentes trabalharem juntas.
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