Luiz Moura, conselheiro de Turismo da FecomercioSP e cofundador da agência de viagens corporativas Voll, analisa material divulgado pela GBTA (Divulgação/Voll)

A economia global, os investimentos empresariais, os custos das viagens, a conectividade aérea, o comércio internacional e a geopolítica serão os principais elementos responsáveis por definir os rumos das viagens corporativas nos próximos anos. A avaliação faz parte de uma análise inédita apresentada pela Global Business Travel Association (GBTA) durante sua convenção anual, realizada em Chicago, que traça um panorama sobre os fatores capazes de impulsionar, limitar ou ameaçar o desenvolvimento do setor.

O estudo organiza essas variáveis em três categorias. O crescimento da economia e o aumento dos investimentos das empresas aparecem como motores da expansão das viagens de negócios. Já custos, capacidade aérea, conectividade e incertezas comerciais são classificados como fatores de dupla influência, podendo tanto estimular quanto restringir o mercado, dependendo do contexto. Por fim, os conflitos geopolíticos são apontados como o principal fator de risco para a atividade.

Para Luiz Moura, conselheiro de Turismo da FecomercioSP e cofundador da agência de viagens corporativas VOLL, a análise representa uma mudança na forma de interpretar os desafios enfrentados pelo segmento. “O mais interessante dessa leitura é que ela mostra que nem todo desafio representa uma ameaça ao mercado. Custos mais altos, conectividade e até incertezas econômicas podem ser administrados e, em muitos casos, transformados em vantagem competitiva. O único fator que realmente foge ao controle das empresas é a geopolítica”, afirma.

Segundo Moura, os dois fatores classificados pela GBTA como impulsionadores reforçam a estreita relação entre o desempenho da economia e a demanda por deslocamentos profissionais. “Quando as empresas investem, expandem operações, inauguram unidades ou desenvolvem novos mercados, as viagens acontecem naturalmente. A demanda continua sendo consequência do crescimento dos negócios”, explica.

Tecnologia ganha protagonismo

Na avaliação do executivo, é justamente entre os fatores de dupla influência que a tecnologia passa a desempenhar um papel decisivo. Em vez de reduzir deslocamentos diante do aumento das tarifas ou da menor oferta de voos, empresas podem recorrer a soluções baseadas em dados para otimizar custos e ampliar a eficiência da gestão de viagens.

“É justamente nesse grupo que tecnologia e inteligência artificial passam a fazer diferença. Quanto maior a pressão sobre tarifas e disponibilidade, maior a importância de ferramentas que monitoram preços continuamente, identificam oportunidades de economia e ajudam as empresas a tomar decisões baseadas em dados”, destaca.

Dados da VOLL reforçam essa tendência. Apenas no primeiro semestre de 2026, empresas que utilizaram soluções de inteligência artificial agêntica voltadas à geração de savings em viagens corporativas economizaram mais de R$ 60,5 milhões por meio do monitoramento contínuo de tarifas e da identificação de oportunidades de recompra.

Geopolítica segue como principal risco

Embora custos e conectividade possam ser administrados com planejamento e tecnologia, Moura destaca que as tensões geopolíticas representam o maior desafio para o setor por estarem fora do controle das organizações.

Segundo ele, conflitos internacionais podem comprometer a conectividade aérea, elevar despesas operacionais e provocar mudanças repentinas nas rotas e nas operações globais. “Esse é o único fator sobre o qual as empresas não têm controle. Por isso, quanto mais instável for o cenário internacional, mais importante será contar com uma gestão de viagens preparada para reagir rapidamente, oferecendo alternativas de rotas, suporte aos viajantes e inteligência para minimizar impactos”, alerta.

Para o especialista, o cenário desenhado pela GBTA indica que o crescimento das viagens corporativas continuará sustentado pela expansão econômica e pelos investimentos das empresas, mas dependerá cada vez mais da capacidade de adaptação diante dos fatores que podem tanto favorecer quanto limitar o mercado.

“O futuro das viagens corporativas não depende apenas de viajar mais. Depende de transformar eficiência em vantagem competitiva. Quem conseguir usar tecnologia para reduzir custos e tomar melhores decisões estará mais preparado para crescer, independentemente das oscilações do mercado”, conclui.