“O Wikiota”, novo romance de Ademir Luiz, começa e termina com uma citação nunca creditada: “A mediocridade se retroalimenta.” Encontrada pelo personagem Mike Jardim em um passeio aleatório pelas redes, a frase chega até nós desprovida de autoria, contexto ou finalidade. A mediocridade se retroalimenta: seria um aforismo filosófico, uma provocação literária ou uma cantada para conquistas amorosas universitárias? Na democracia pré-diluviana da internet, fulano poderia atribuí-la a Clarice Lispector, beltrano a Ortega y Gasset e sicrano ao Batman, e haveria sempre muita gente para acreditar em quaisquer dessas possíveis autorias. É justamente nessa plasticidade contextual, nessa tectônica semântica, que a citação ilumina a tecitura literária de “O Wikiota”: o que importa não é a origem nem o sentido da mensagem, mas o efeito causado pelo encontro entre uma mensagem aleatória e um receptor ingênuo. Mike Jardim, o Wikiota do título, “achou a frase inteligente e achou-se inteligente por achá-la inteligente. Achou-se consciente e diferentão. Mais ainda, achou que seria inteligente usá-la em algum lugar…” A partir daí, a história começa e, a cada nova página, leva seu leitor a uma pergunta recorrente: tal como sua citação inaugural, seria “O Wikiota” um aforismo filosófico, uma provocação literária ou uma cantada para conquistas amorosas universitárias?
Na obra, acompanhamos a ascensão e o declínio de uma celebridade de internet. Aos dezesseis anos, Mike Jardim consegue viralizar um vídeo e é alçado ao reconhecimento instantâneo, tornando-se uma figura proeminente entre os contemporâneos. Ele então persegue a árdua aventura de transformar seus quinze segundos de fama em eternidade: escreve livros, participa de filmes, dá palestras, dá vexame, começa e termina polêmicas, entra na vida política, propõe-se a filósofo, a coach, a rebelde e a santo, a mito e a fato, morre e ressuscita, some e reaparece. Não é tarefa simples, e tampouco sabemos ao certo se há estratégia ou acaso por trás do sucesso. Aliás, sequer temos certeza de que há sucesso. A ironia e certa desconfiança crônica perpassam a história e se refletem numa linguagem propositadamente jovial, por vezes pop e cinematográfica, que é uma das marcas da literatura de Ademir Luiz.
Por todos os cantos, as referências afloram. Mike Jardim é uma metralhadora de citações. Ele usa delas como se fosse acometido por uma espécie de síndrome de Tourette intelectual, disparando frases de efeito quase sem querer. O assunto mais simples e a conversa mais banal são repentinamente atulhados por Shakespeare ou Hemingway, Eco ou Xuxa, sem jamais se aprofundar no contexto significativo do que é dito. Essa repetição rítmica e sobreposta de referências aproxima a narrativa da lógica das redes sociais, imitando com precisão a falsa profundidade e a pseudo-intelectualidade recorrentes nas telas do mundo contemporâneo.
O título é um bom exemplo disso. Está claramente estabelecida a referência à obra “O Idiota”, do velho Dostoiévski. Menos evidente é a ligação com “O Videota”, de Jerzy Kosiński, embora ela talvez seja até mais importante. Em português, sua adaptação cinematográfica de 1979 foi traduzida como “Muito Além do Jardim”. Ambos os romances tratam da inserção da ingenuidade num mundo corrompido. Tanto o príncipe Míchkin quanto o jardineiro Chance são criaturas ingênuas, puras e boas que, forçadas a sair de seus mundinhos protegidos — o sanatório e o jardim, respectivamente —, devem enfrentar a sociedade e a realidade de suas épocas. No entanto, diferentemente da tradição rousseauniana, seus protagonistas não se degradam: antes, atravessam a experiência social sem perder a integridade — à maneira de Sidarta Gautama. O herói ingênuo que deixa o castelo protegido para conhecer o mundo não se corrompe por ele, mas, antes, supera-o.
Em Ademir Luiz, porém, não sabemos se o wikiota é ingênuo ou um gênio, se é bom ou mau, ou se a sociedade ao redor é mais ou menos corrompida que ele. A importante travessia não existe. Mike não deixa o jardim, porque o jardim está nele. Seu nome é mais que uma referência às paródias pastelonas de Hermes e Renato. Ele pressupõe que o mundo protegido é Mike e ele jamais o abandona para confrontar plenamente o real.
Em seu discurso de posse da AGL, Ademir Luiz me confessou que possui um projeto literário. É um escritor com uma visão de obra. E, por isso, seus livros não surgem apenas como floreios aleatórios da inspiração ou imperativos da imaginação — como surgem os meus, por exemplo —, antes, eles são projetados para formar um corpo autoral que, para além de fazer sentido, pretende dizer algo. Por isso, é difícil ler “O Wikiota” sem falar de “Fogo de Junho”, seu romance anterior. As duas narrativas dialogam sem se tocar, comunicam-se sem necessariamente ser uma continuidade, sequência ou trilogia. Para minha leitura particular, o que Ademir tenta fazer é uma captura geracional por meio da ironia literária, coisa que não é nova ou revolucionária, mas é, sem sombra de dúvidas, bastante desafiadora. Tal como outros antes dele, o escritor busca prender o espírito do tempo em suas narrativas. O José de “Fogo de Junho” e o Mike Jardim de “O Wikiota” só se fazem íntegros de significados quando entendidos como duas reflexões sobre suas respectivas gerações.
Há, contudo, diferenças decisivas. “Fogo de Junho” é escrito em primeira pessoa. Somos o José que vai às jornadas de 2013, é preso, apanha e ressignifica suas ideias de rebeldia e mudança social. Em “O Wikiota”, acompanhamos Mike Jardim de longe. Ele sequer é o protagonista da história. Nosso personagem principal é um jornalista obcecado pelo influenciador e que encontra diversos obstáculos para realmente conhecê-lo. Esse narrador sem nome também diz muito em sua constituição literária. Ele nunca se apaixona por quem persegue. Oscila entre agressividade e frustração, entre o desejo de compreensão e o impulso de desqualificação. Quando finalmente encontra Mike, o que se estabelece não é diálogo, mas duelo — uma troca vazia de citações que reforça ainda mais a opacidade do personagem. Ele o cutuca e espinafra, resistente a reconhecer a importância de seu interlocutor.
Essa mediação cria ao redor de Mike Jardim uma aura inumana. Diferentemente do José de “Fogo de Junho”, profundamente encarnado, Mike permanece frio, distante, quase etéreo. Nunca se individualiza plenamente: é antes imagem, repetição, projeção coletiva. Um avatar. Um ícone. Uma forma instável da própria Ágora virtual que o produz e o consome. Ele é procurado, raramente encontrado, e foge das expectativas e das tentativas de definição. No fim, “O Wikiota” é uma reflexão sobre as gerações criadas na Ágora virtual. Entretanto, o autor não procurou transformar a Ágora num personagem, humanizando-a. Ele vai pelo caminho oposto, transformando seu personagem em Ágora.
Mas é aqui que vem o pulo do gato: ao mesmo tempo que nos apresenta essa proposta tão mordaz e reflexiva, termino o livro com a impressão de entreouvir, na sala ao lado, uma risadinha. Ora, será que fui enganado? Será que tudo não passa de uma cantada intelectual para conquistas amorosas? Para se ler o projeto literário do autor, é antes necessária esta advertência. Ademir Luiz é outra coisa que um inventor de histórias; ele é um construtor de armadilhas. Algo como um engenheiro de ciladas, um híbrido de Dédalo de Atenas e Zaphod de Betelgeuse, e deixo expressamente meu aviso aos seus intrépidos leitores: cuidado. Você pode entrar na leitura enxergando uma “crítica social foda” a tanta gente que há no mundo e sair dela sem sequer perceber que, no fim, o wikiota é você.
