Mathias chega a Londres para ficar perto da ex-mulher e da filha. A mala ainda carrega uma promessa de arrumação, mas a cidade lhe devolve outra tarefa. Em “Meus Amigos, Meus Amores”, Lorraine Lévy põe Pascal Elbé ao lado de Vincent Lindon como dois pais divorciados que passam a dividir o mesmo teto, as crianças e uma lista de regras que não demora a ser testada. Virginie Ledoyen entra por outra porta, como Audrey, a mulher que atrapalha a ordem recém-combinada.
A mudança de Mathias já começa torta. Ele se desloca para Londres esperando uma reaproximação possível, mas a ex-mulher volta para a França e a filha fica com ele. Antoine, também divorciado, oferece a solução de amigo antigo. Morar juntos. Criar uma rotina. Fazer a casa andar. A ideia é simples de dizer e difícil de sustentar, porque a amizade, quando vira moradia, passa a depender de horários, crianças, visitas, pequenas proibições e uma paciência que nenhum dos dois parece ter por muito tempo.
Há uma comédia pronta nessa passagem da camaradagem para a administração doméstica. Não por uma grande invenção, mas pela chatice diária. Alguém precisa cumprir o combinado. Alguém precisa aceitar que a vida amorosa do outro encosta no quarto das crianças. Mathias parece mais sujeito ao improviso. Antoine prefere o controle, ou ao menos a ilusão dele. A dupla tem contraste suficiente para sustentar o vaivém sem que cada diferença precise ser anunciada.
A regra da porta
A proibição de mulheres na casa tem a graça meio boba das regras inventadas tarde demais. Ela serve para proteger as crianças, proteger a convivência e, talvez mais que tudo, proteger os dois homens de terem que admitir que ainda querem alguma desordem. Quando Audrey aparece, a regra já não é apenas uma regra. É uma armadilha. Mathias tenta manter a vida montada com Antoine e, ao mesmo tempo, responder à chance de um romance que chegou de fora da combinação.
Essa é a parte mais firme de “Meus Amigos, Meus Amores”. A casa não precisa ser explicada. Ela aperta. Há filhos, há portas, há horários, há o olhar do amigo que sabe demais. A vida de dois adultos separados ganha um desenho quase adolescente, com restrições, escapadas e mal-entendidos. O arranjo ainda provoca uma leitura externa que confunde os dois amigos com um casal. O filme aproveita esse equívoco como piada de convivência, mas nem sempre sabe permanecer nele sem empurrar as peças para lugares muito previsíveis.
Audrey chega como jornalista de passagem por Londres e leva Mathias para fora do pacto. Sophie, a florista vivida por Florence Foresti, fica presa a Antoine por um desejo que circula em volta dele. Yvonne, de Bernadette Lafont, mantém o bistrot como ponto de encontro. Mac Enzie completa outra pequena linha amorosa, apaixonado por Yvonne. Aos poucos, todo mundo parece perto demais, disponível demais, encaixado demais. A cidade é grande, mas o filme prefere um tabuleiro pequeno.
Esse tabuleiro tem vantagens. O bairro francês permite encontros rápidos, personagens recorrentes, uma sensação de vila dentro de Londres. A livraria ou biblioteca francesa, a floricultura, o bistrot e o apartamento formam um circuito reconhecível. Ninguém precisa atravessar a cidade para que um conflito chegue à mesa. A proximidade faz parte da comédia. Também a empobrece.
Londres em francês
Mathias sai da França, mas o deslocamento perde força quando quase tudo ao redor dele parece protegido pela mesma língua e pelos mesmos hábitos. Londres vira menos uma cidade estrangeira do que uma moldura simpática para franceses se encontrarem. O bairro francês dá charme, mas tira vento. A mudança de país deveria produzir atrito, algum desencaixe mais duro, uma demora para aprender o lugar. Em vez disso, a cidade frequentemente parece já pronta para receber aqueles personagens sem machucá-los.
Lindon e Elbé ajudam a segurar essa suavidade. Antoine, com seu desejo de controle, não precisa se tornar vilão doméstico. Mathias, com sua instabilidade, não precisa virar apenas o irresponsável da dupla. Quando os dois aparecem como pais antes de aparecerem como tipos cômicos, a situação ganha peso. Não peso dramático demais. Peso de rotina mesmo. Criança muda o tom de qualquer aventura amorosa, porque alguém precisa voltar para casa.
O roteiro, adaptado do romance de Marc Lévy, tende a preferir o caminho mais arrumado. Cada personagem secundário parece trazer uma função clara. Audrey desloca Mathias. Sophie espera Antoine. Yvonne reúne o grupo. Mac Enzie acrescenta outra seta sentimental. Essa clareza dá fluidez, mas também deixa pouco espaço para surpresa. A regra doméstica nasce já com a cara de que será quebrada. O amigo controlador já vem preparado para ser desafiado. O homem recém-chegado já vem pronto para se dividir.
A direção de Lorraine Lévy busca leveza e encontra momentos em que a leveza basta. Uma comédia romântica não precisa ser áspera para ser honesta. O problema aparece quando a doçura cobre rápido demais o desconforto de dois homens que dependem um do outro para continuar sendo pais minimamente funcionais. A casa pede mais bagunça do que o filme parece disposto a aceitar. Mais demora nos impasses. Mais resistência antes da solução sentimental.
“Meus Amigos, Meus Amores” deixa uma imagem prática, não uma grande revelação. Dois homens adultos tentando transformar amizade em rotina de cuidado. Uma filha que muda o plano de chegada. Uma regra sobre mulheres. Um bairro que reduz Londres a poucos endereços. Um romance que entra pela fresta e bagunça o combinado. Quando permanece perto dessas coisas, o filme tem matéria. Quando tenta arredondar demais, a porta fecha cedo.
