Maciej Migas arma “Doce Amor” sem muito mistério. Duas amigas se reencontram num funeral, cada uma com uma vida empacada de um jeito, e resolvem trocar de casa por alguns dias. Majka, personagem de Agnieszka Suchora, vive no litoral báltico, é viúva, cuida da confeitaria da família e gravita em torno de filhos e netos. Agata, vivida por Edyta Olszówka, mora nos Tatras, trabalha com arquitetura de interiores e acaba de sair de um relacionamento em ruínas. Michał Czernecki e Bartosz Opania entram depois, como pares possíveis nessa reorganização sentimental. Mas o centro do filme está nas duas. E no que acontece quando elas saem do lugar em que aprenderam a funcionar.
A premissa é conhecida e o filme não tenta vender isso como descoberta. O que lhe dá algum interesse é o modo como a troca de vida altera pequenas coisas muito concretas. Não se trata só de mudar o cenário da praia para a montanha. Muda a rotina, o silêncio da casa, a forma de circular, a temperatura das relações. Majka sai de uma vida tomada por tarefas, família e balcão de confeitaria. Agata deixa para trás uma existência mais solitária, mais limpa por fora e mais desarrumada por dentro. Quando uma entra na casa da outra, “Doce Amor” acerta ao mostrar esse desajuste em coisas simples: o corpo no espaço, a porta que se abre para gente estranha, o tempo ocioso, a falta de intimidade com a nova paisagem.
Troca de rotina
É aí que o filme se sustenta melhor. Majka não é desenhada por frases sobre maturidade, mas por obrigações. Há sempre alguém pedindo alguma coisa, algum assunto doméstico para resolver, algum pedaço de vida que depende dela. Agata vem de outro registro. O rompimento recente a deixa sem eixo, mas sua vida ainda parece menos ocupada pelos outros. O encontro dessas duas experiências — uma de excesso, outra de esvaziamento — ajuda a dar alguma espessura à história. Em vez de anunciar uma redescoberta, Migas deixa o filme caminhar pela adaptação prática: cada uma tentando entender como se vive no espaço da outra e o que isso produz em termos de humor, constrangimento e desejo.
O melhor de “Doce Amor” está justamente em não tratar suas protagonistas como exceção folclórica dentro da comédia romântica. O fato de serem mulheres acima dos 50 não aparece como lição nem como slogan. Aparece no corpo, nas referências, em algumas piadas sobre menopausa, em inseguranças e numa relação diferente com o tempo. Nem tudo funciona. Há momentos em que o roteiro força a nota e transforma essa condição em sublinhado. Ainda assim, o filme ganha pontos por não empurrar Majka e Agata para o papel decorativo que tantas produções do gênero reservam a personagens dessa idade. Elas não estão ali para comentar o romance alheio. São elas que movem a ação, tomam decisões ruins ou boas, se expõem ao ridículo e voltam a testar a própria capacidade de desejar.
O peso do cenário
Também ajuda o fato de o filme confiar bastante nos ambientes. A confeitaria “Perełka”, a casa no litoral pedindo reforma, a rotina familiar de Majka, de um lado; do outro, a paisagem montanhosa, a casa de Agata, o ar mais rarefeito de uma vida menos atravessada por parentes e tarefas. O contraste é óbvio, mas funciona. Não como metáfora sofisticada, e sim como ferramenta de gênero. O litoral e os Tatras dão ao filme o que ele precisa para fazer a engrenagem rodar: diferença visível, novas possibilidades de encontro, pequenas fantasias de recomeço. Quando surgem Paweł e Daniel, o interesse não está exatamente na surpresa romântica, mas no que esses encontros provocam de deslocamento prático na vida das duas.
O elenco faz bastante por um roteiro que às vezes corre demais. Agnieszka Suchora parece ser o principal esteio do filme. Há um cansaço convincente em Majka, mas também firmeza, humor e uma disposição que impede a personagem de se tornar só uma mulher sobrecarregada em busca de segunda chance. Edyta Olszówka trabalha numa chave mais contida, mais defensiva, que combina com Agata. As duas têm boa química, e o filme tira proveito disso sem precisar explicar demais a amizade. Basta a decisão central da trama: uma confia à outra sua casa, seus hábitos, seu cotidiano. É um gesto um pouco absurdo, mas o filme ganha credibilidade porque elas o sustentam.
“Doce Amor” está longe de reinventar a comédia romântica. A estrutura é previsível, alguns personagens masculinos já entram em cena com função demais e vida de menos, e o roteiro apressa etapas que mereciam mais preparo. A troca de casas, por exemplo, teria mais peso se o filme demorasse um pouco mais na apresentação das duas rotinas. Ainda assim, o saldo é bom. Migas encontra um jeito simpático de reposicionar uma fórmula muito usada, colocando no centro duas mulheres que o cinema costuma deixar na lateral. Não é pouco. E quando o filme para de explicar a si mesmo e simplesmente observa essas personagens fora do lugar, ele finalmente respira.
