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O improvável diálogo entre Drácula e o universo de Machado de Assis

O improvável diálogo entre Drácula e o universo de Machado de Assis

O que vou escrever aqui neste começo não é importante para que você queira ler o livro do Edson Aran. Então, pode começar mais abaixo, descer até o quinto parágrafo.

Quando eu era criança, incentivado por algum desses livros cheios de atividades, acho que um dos volumes da “Biblioteca do Escoteiro-Mirim”, fiz um cenário de pantomimas infantis. Era uma caixa de papelão em que eu deveria colocar personagens de um universo meio Batman: morcegos, vampiros e outras criaturas horripilantes, feitas de recortes de papel, coladas em palitos de dente.

Fato é que eu não gostei daquela brincadeira. Achei chata demais. Mas não me dei por vencido e decidi acrescentar àquele mundinho gótico-vampiresco outros elementos. Emprestei do “Sítio do Pica-pau Amarelo” a ideia de animaizinhos de chuchu e batatinhas, botei na caixa também miniaturas de plástico de uma fazendinha de brinquedo que eu tinha. Talvez até tenha roubado uma ou outra boneca da minha irmã e acrescentado ao caldo lúdico.

De modo que minha caixa, ao transcender seu universo original, parecia carregar elementos que me fossem interessantes ao brincar.

Lembrei-me disso ao devorar o divertidíssimo livro “Quincas Borba e o Nosferatu”, do grande jornalista e ascendente escritor Edson Aran. Porque a obra parte de uma premissa que, à primeira vista, pode soar como provocação: ele faz um crossover de dois universos muito caros à literatura. É divertido. Instigante. Interessante.

Quincas Borba e o Nosferatu, de Edson Aran (Faria e Silva, 320 páginas)
Quincas Borba e o Nosferatu, de Edson Aran (Faria e Silva, 320 páginas)

Assim como na minha brincadeira infantil, ele reinventa a caixa de papelão — refazendo a pantomima de uma maneira imprevista, inédita, criativa.

Em sua trama, Aran junta os personagens de Machado de Assis (1839-1908) com o mundo de Bram Stoker (1847-1912). O realismo brasileiro e o gótico irlandês.

E o resultado não é um mero pastiche. Com habilidade, o autor tece uma trama sustentando a tensão entre os dois registros, pendendo ora para a ironia machadiana, ora para as nuances do horror clássico.

A escolha de ambientar a narrativa no Rio de Janeiro do Segundo Reinado não é apenas decorativa. Há um esforço visível de reconstrução histórica que dialoga com a tradição da crônica social presente na obra de Machado, especialmente em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”. As andanças de Brás Cubas pela cidade funcionam como um eixo de observação — quase um flâneur tropical —, enquanto o elemento sobrenatural irrompe de forma progressiva, brotando dessa aparente normalidade.

O maior mérito do livro está na articulação de vozes. Quincas Borba, com seu filosofar delirante, não soa deslocado diante do absurdo representado por Drácula; ao contrário, sua lógica própria parece, em certos momentos, mais plausível do que o horror que se infiltra na narrativa. Já Brás Cubas mantém o tom cético e autocentrado que o caracteriza, funcionando como mediador entre o leitor e o insólito.

Capitu, por sua vez, é reposicionada: menos enigma psicológico, mais figura vulnerável diante de uma ameaça concreta — o que pode desagradar leitores mais puristas, mas também abre novas possibilidades de leitura.

Por outro lado, a ousadia do projeto cobra seu preço. Em alguns momentos, a fusão entre os estilos não é totalmente homogênea. O humor irônico, marca de Machado, por vezes dilui a tensão necessária ao horror gótico; em outros, o peso dramático da presença de Drácula parece exigir uma densidade que o tom leve da narrativa não sustenta plenamente. Esse desequilíbrio, embora não comprometa o conjunto, revela os limites da proposta.

Ainda assim, o romance se destaca pela consciência literária. Não se trata apenas de um encontro de personagens, mas de um diálogo entre formas narrativas: a fragmentação e o jogo metalinguístico de Machado encontram o clima epistolar e sombrio de “Drácula”. O resultado é um texto que funciona tanto como entretenimento quanto como exercício de intertextualidade.

“Quincas Borba e o Nosferatu” é um livro que ganha força justamente por não se levar excessivamente a sério. Inteligente, bem-humorado e assumidamente híbrido, ele pode não agradar aos leitores mais ortodoxos, mas oferece uma experiência inventiva e, em muitos momentos, genuinamente divertida. É menos uma releitura dos clássicos e mais uma conversa irreverente com eles — o que, convenhamos, Machado de Assis provavelmente acharia bastante apropriado.



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