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O filme na Netflix, com Bradley Cooper, que fez muita gente chorar escondido

O filme na Netflix, com Bradley Cooper, que fez muita gente chorar escondido

“Nasce uma Estrela” não tenta nos convencer de que o estrelato é um planeta distante reservado aos escolhidos do Olimpo pop. A câmera gruda em dois seres humanos que não nasceram para brilhar, eles aprenderam a sobreviver em meio ao aplauso. Talvez seja por isso que Lady Gaga, aqui sem o exagero performático que todo mundo conhece, conquista antes mesmo de abrir a boca para cantar.

Ela não interpreta: se expõe. No palco, a voz; fora dele, uma mulher que ainda se pergunta se existe vida quando as luzes apagam. Bradley Cooper, por sua vez, projeta a ruína com a delicadeza de quem sabe que o abismo não aparece de súbito: ele se infiltra. A ebriedade é a metáfora visível, mas há outra secura mais preguiçosa: a de um homem que já não sabe onde guardar o próprio talento quando ninguém mais parece precisar dele.

A história estruturaria um drama de manual se fosse apenas sobre um astro em decadência descobrindo um diamante escondido no balcão de um bar. Mas o filme escolhe outra rota: o amor não salva ninguém. A ascensão de Ally não é triunfal no sentido hollywoodiano tradicional. Quanto mais ela sobe, mais ele desce, e esse desalinhamento não serve para alimentar melodrama; ele desmascara a crença de que o sucesso é um lugar que se habita junto. Aqui, o sucesso é um deserto onde cada um encontra sua própria miragem.

Sou filha da era do cinismo, e ainda assim saí tocada quando a música “Shallow” aponta o limite entre coragem e exposição. A cena não pede lágrimas, elas simplesmente aparecem. Não por romantismo, mas pelo reconhecimento brutal de que “se jogar” é tão atraente quanto perigoso. Cooper, estreando na direção, sabe construir intensidade sem discursos: deixa que um olhar vacile, que a respiração falhe, que o microfone tremule. Ele entende que a intimidade, quando filmada de perto demais, pode ser tão desconfortável quanto bela.

O filme cutuca também os pactos sujos da indústria cultural. A transformação de Ally em produto pop não é um arco glamouroso: é uma cirurgia identitária. Cabelo, figurino, repertório, pequenas mutilações de autenticidade oferecidas em troca de mais holofotes. O riso que antes era tímido vira acessório; o amor, antes tão tátil, começa a ser protocolado nos intervalos da agenda. A câmera nota, com sarcasmo discreto, que o mercado adora o brilho desde que ele possa ser embalado.

A derrocada dele não se dá por vilania, mas por descompasso com o mundo. Cooper constrói Jackson como um homem que confia no que já não funciona, que pede ajuda tarde demais, que se afoga enquanto insiste que sabe nadar. A dependência química é menos vício que sintoma: a tentativa fracassada de anestesiar o próprio desaparecimento.

Se o filme acerta tanto, é porque não desenha amor como fábula de salvação. Desenha amor como experiência humana: falível, frágil, urgente. Quando chegamos ao final, não nos despedimos apenas de um casal; despedimo-nos de uma ilusão confortavelmente difundida, a de que o talento, o afeto e o desejo são suficientes para vencer um sistema treinado para moer tudo aquilo que não sabe quantificar.

O filme deixa uma pergunta incômoda: o que resta de nós quando aquilo que fazemos melhor deixa de ser suficiente para quem amamos, e para nós mesmos? Talvez a resposta esteja no silêncio que segue a última música. Um silêncio tão pesado que ninguém se atreve a quebrar.

Filme:
Nasce Uma Estrela

Diretor:

Bradley Cooper

Ano:
2018

Gênero:
Drama/Musical

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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