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O filme encantador no Prime Video que vai aquecer seu coração — e te fazer assistir de novo, e de novo…

O filme encantador no Prime Video que vai aquecer seu coração — e te fazer assistir de novo, e de novo…

Ben educa os seis filhos em meio à floresta, longe da escola e do calendário urbano. O cotidiano inclui leitura, exercícios físicos, música, conversas francas e tarefas práticas que garantem sobrevivência e disciplina. A morte da mãe obriga o grupo a deixar o abrigo e pegar a estrada rumo a um funeral controlado pela família materna, contrária ao modo como Ben conduz a criação das crianças. A partir dessa partida, o mundo externo deixa de ser ideia e vira teste. A travessia coloca à prova valores que pareciam inabaláveis sob as árvores.

No centro, “Capitão Fantástico” acompanha Ben, interpretado por Viggo Mortensen, e os filhos, com destaque para George MacKay, Annalise Basso e Charlie Shotwell. Frank Langella surge como o avô materno, defensor de uma solução convencional para o futuro das crianças. A direção é de Matt Ross, que filma a estrada como rota de descobertas e contradições. A primeira metade apresenta o sistema caseiro criado por Ben e, sem pressa, dá material para avaliar virtudes e falhas quando a família entra em contato com supermercados, jantares de parentes e regras que não aceitam exceções.

A proposta de Ben produz crianças com repertório amplo e coragem intelectual. Elas leem autores exigentes, tocam instrumentos, argumentam sem receio diante de adultos. Ao mesmo tempo, o rigor que sustenta essa casa pode deslizar para a inflexibilidade. Ben estimula franqueza total, mas custa a admitir a própria queda de braço interna entre orgulho e cuidado. Quando um filho se fere numa escalada, o episódio não aparece como espetáculo, e sim como sinal de que a linha entre preparação e imprudência precisa ser redesenhada. O filme insiste nessa zona cinzenta, onde boa intenção não cancela responsabilidade.

A chegada à cidade expõe um choque de hábitos. No jantar com parentes, a conversa sem filtros cria atritos que revelam diferenças de trato e de limites. Numa loja, o grupo encontra excesso de oferta e ausência de sentido. O ônibus pintado que leva a família pela estrada vira cápsula em movimento, um espaço onde o pai ainda define o ritmo, mas agora precisa negociar com prazos, leis e expectativas alheias. A viagem serve para medir distância entre ideal e convivência, sem reduzir um lado a caricatura.

Mortensen compõe um pai magnético, duro e afetuoso. O olhar dele alterna vigilância e ternura; a postura parece construída por anos de trabalho manual; a fala tem didática e ironia. Ele não vira cartaz de heroísmo nem vilão de conveniência. Em momentos decisivos, o ator faz a convicção tremer sem desmontar a coerência interna do personagem. George MacKay expressa a inquietação de quem pressente que a vida do lado de lá cobra habilidades diferentes das treinadas no bosque. Annalise Basso traz delicadeza e humor. Frank Langella aparece com gravidade, impondo o ponto de vista de um avô que enxerga risco onde o genro enxerga preparo.

Matt Ross filma a floresta com luz natural, respiração aberta e concentração nas rotinas. A cidade é mostrada com cores mais frias, espaços recortados e a presença constante de objetos que distraem. A sociedade expõe suas incoerências; a casa de Ben guarda virtudes e pontos cegos. O filme observa ambos sem paternalismo. Em vez de sentenças, oferece cenas de confronto calmo, em que uma frase mal colocada basta para abrir fissuras. Quando os filhos tocam juntos, a música se torna sinal de vínculo real, livre de bravata.

O roteiro evita atalhos ao mostrar como decisões pedagógicas reverberam na autoestima de cada filho. A sinceridade radical defendida por Ben rende aprendizados, mas pode se transformar em colete de forças. O choque com o avô evidencia dilemas legais e afetivos: documentos, guarda, escola. O luto atravessa tudo sem virar gatilho para soluções fáceis. A mãe, ausente, permanece como referência amorosa e questão pendente. Seu desejo expresso em carta movimenta as posições de cada adulto, sem reduzir ninguém a obstáculo.

Há humor em passagens discretas, quase sempre vindas do estranhamento entre mundos. O grupo celebra um feriado próprio, lê autores densos no lugar de contos infantis e encara vendedores com perguntas diretas. O riso serve para aliviar e para apontar desalinhamentos. Essas escolhas não viram troféu. Ao contrário, evidenciam que diferença exige preparo de ambos os lados. Quando Ben percebe que um dos filhos deseja outra vida, o impasse deixa de ser tese e vira cuidado específico: escola, documentos, endereço, perspectivas concretas.

A direção mantém foco nas ações e evita explicações sobrantes. As conversas da família, mesmo quando acaloradas, preservam escuta. Isso dá espaço para pequenas viradas de compreensão. O pai começa a testar recuos. Os filhos experimentam autonomia com margem para erro. O avô sai da zona de conforto e reconhece afetos que desconhecia. Ninguém ganha todas. O filme se sustenta nessa negociação paciente, em que cada avanço cobra renúncia correspondente.

Na reta final, algumas soluções soam inclinadas ao consenso, porém a conclusão não anula tensões acumuladas. Em vez de transformar a estrada em fábula sem atrito, a narrativa reposiciona peças para que a vida possa seguir com ajustes. A casa já não é a mesma; o plano pedagógico, menos ainda. Ficam a memória de um ideal e a consciência de que crescimento pede gradação. A imagem das tarefas retomadas com nova medida de liberdade indica que o convívio ganhou outra baliza, sem recorrer ao isolamento nem à capitulação.

“Capitão Fantástico” interessa porque encara a pergunta que muitas famílias evitam: até onde vai o alcance do adulto que ensina? A resposta muda conforme a idade dos filhos, a saúde mental de todos, o dinheiro disponível, as exigências legais. O filme não promete solução universal. Registra um percurso em que os livros dividem lugar com panelas, mapas e bilhetes colados no ônibus. Depois da viagem, fica a sensação de que cuidado verdadeiro não se mede pela rigidez do plano, e sim pela capacidade de revisar rotas quando a realidade pede nova combinação entre abrigo e abertura.

As manhãs ganham rotina mais porosa, com cadernos ao lado dos pratos; o dia dita quais regras valem e quem precisa ajustá-las.

Filme:
Capitão Fantástico

Diretor:

Matt Ross

Ano:
2016

Gênero:
Comédia/Coming-of-age/Drama/Road movie

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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