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O filme da Netflix que virou fenômeno mundial e não sai do top 10 há três semanas

O filme da Netflix que virou fenômeno mundial e não sai do top 10 há três semanas

Em “Sinta a Minha Voz”, título brasileiro de “Non Abbiam Bisogno Di Parole”, Luca Ribuoli filma Eletta Musso, vivida por Sarah Toscano, adolescente ouvinte criada no Piemonte por uma família surda, com Alessandro e Caterina, interpretados por Emilio Insolera e Serena Rossi, no centro da casa. Ela canta no coro da escola, chama a atenção de uma professora exigente e passa a medir uma chance fora dali contra a vida diária de quem depende de sua escuta para vender, negociar, responder e circular.

A rotina dos Musso tem asnos, leite, queijos, produtos derivados e conversas com gente de fora. A casa não precisa de Eletta em sentido decorativo ou sentimental, precisa porque alguém tem de ouvir o comerciante, entender o recado, acompanhar uma consulta, transformar uma fala externa em providência. Esse é o melhor achado do remake italiano de uma história já vista em “La Famille Bélier” e “CODA — No Ritmo do Coração”. Antes de ser promessa musical, a voz de Eletta é ferramenta de trabalho.

A voz no balcão

Ribuoli encontra seu filme quando observa essa ferramenta em uso. Eletta entra nas conversas antes de querer entrar, adianta respostas, traduz o que os pais não ouviram, ocupa uma posição de adulta enquanto ainda tenta entender como se comportar no liceu, diante dos colegas e do coro. A professora Giuliana Palumbo percebe a voz da menina e a empurra para uma audição, mas a possibilidade de estudar música em Turim não aparece apenas como sonho bonito. A distância ameaça uma engrenagem doméstica que se acostumou a funcionar com a filha no meio.

Essa engrenagem dá peso a cenas que, em outro registro, poderiam virar apenas lição de superação. O filme não precisa insistir que Eletta ama a família e se sente presa por ela, porque a pressão aparece em tarefas pequenas e repetidas, no corpo chamado a todo instante para resolver o que não começou com ele. Sarah Toscano ajuda muito nesse desenho. Sua Eletta não entra em cena como revelação pronta, mas como alguém que ainda recolhe os ombros, mede a própria emissão, demora a acreditar que uma voz usada para servir também possa abrir caminho.

Asnos, coro e urna

A parte menos firme surge quando o roteiro tenta ampliar o conflito pela campanha municipal de Alessandro. Irritado com propostas locais que ameaçam sua atividade rural, o pai decide se candidatar a prefeito, e a família passa a depender da filha também em vídeos, slogans, encontros e pequenas situações públicas. A ideia tem força prática, porque tira a dependência da cozinha e a leva para a rua. Ainda assim, essa frente parece mais útil ao mecanismo do drama do que viva por si mesma, como se a eleição existisse sobretudo para multiplicar ocasiões em que Eletta precise emprestar a voz.

Marco, o aluno mais velho ligado a lutas clandestinas, ocupa lugar parecido. Ele aproxima Eletta de uma vida afetiva fora da família e oferece um contraste mais áspero ao ambiente do coro, mas sua presença pesa menos do que a mesa dos Musso, os animais, os produtos vendidos, a escola e a promessa de Turim. “Sinta a Minha Voz” melhora sempre que volta para a família e para o trabalho silencioso da comunicação. Emilio Insolera, Carola Insolera e Antonio Iorillo impedem que os parentes sejam reduzidos a obstáculo no caminho da protagonista, porque há ritmo próprio nos olhares, nas mãos, nas pausas e nas irritações.

A previsibilidade cobra seu preço. A professora severa, a audição, o colega que se aproxima, a família que ama e retém a filha formam um trajeto muito reconhecível, e Ribuoli raramente escolhe o desvio mais arriscado. Mas o filme tem uma honestidade que nasce do chão que pisa, não de uma frase bonita sobre pertencimento. Monferrato, Alessandria e Turim não viram cartão-postal, servem para medir deslocamentos, custos e ausências. “Sinta a Minha Voz” talvez não seja a versão mais forte dessa história, mas entende que uma menina pode começar a sair de casa quando deixa de ser chamada para responder por todos.



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