Há filmes que nascem de uma imagem tão simples que parecem chegar quase prontos. Uma menina perde o pai, encontra uma cabine telefônica capaz de conectar vivos e mortos, e passa a lidar com a ausência por meio dessa comunicação impossível. Em “Risa e o Telefone do Vento”, dirigido por Juan Cabral, a premissa tem força porque traduz a morte em um gesto concreto: tirar o telefone do gancho, esperar uma voz, acreditar que ainda resta algo a ser dito. O melhor do filme está nessa clareza. O seu limite também. Quando a fantasia serve para dar forma ao que uma criança ainda não consegue organizar, o longa encontra uma emoção verdadeira. Quando se apoia demais na beleza da própria ideia, fica perto de transformar o luto em mecanismo.
O filme argentino, disponível na Netflix, acompanha Risa, uma menina de dez anos atravessada pela morte do pai. A descoberta de uma cabine telefônica aparentemente comum, mas capaz de permitir contato com pessoas mortas, leva a história para um território entre o drama familiar e a fábula. Cabral não trata o elemento fantástico como espetáculo, nem parece interessado em explicar regras, poderes ou funcionamento. A cabine importa menos como fenômeno sobrenatural do que como espaço de escuta. É ali que a ausência ganha corpo sonoro, que a morte deixa de ser uma palavra adulta e passa a ter pausa, ruído, espera. Essa escolha afasta “Risa e o Telefone do Vento” de uma história convencional sobre superação. O filme é melhor quando entende que uma criança não elabora a perda por conceitos, mas por aproximações.
A dor como escuta
Risa é o centro de gravidade do filme, e Elena Romero sustenta a personagem sem transformá-la numa criança artificialmente sábia. Esse é um ponto decisivo. Muitos dramas sobre infância e morte cometem o erro de atribuir aos pequenos uma lucidez que pertence aos adultos que escrevem a história. Aqui, a personagem existe mais nos gestos, nas hesitações e no modo como observa o mundo ao redor. Sua dor não vem embalada em grandes frases. Ela aparece na forma como a menina se relaciona com aquilo que não entende por completo, mas sente com nitidez.
A cabine telefônica só funciona porque o filme leva essa percepção infantil a sério. Não se trata de ingenuidade, nem de fuga pura da realidade. A fantasia surge como uma tentativa de dar contorno ao impossível. Falar com alguém pelo telefone já é, por natureza, lidar com uma presença incompleta. A voz aproxima, mas também confirma a distância. Para um filme sobre mortos, esse detalhe pesa. O contato não desfaz a perda. A chamada não devolve o corpo. O telefone oferece uma mediação, não uma solução. Quando “Risa e o Telefone do Vento” preserva essa tensão, sua ideia central ganha densidade.
Cazzu, Diego Peretti e Joaquín Furriel entram nesse universo sem deslocar o eixo da narrativa. A presença de Cazzu chama atenção pelo dado externo, mas o filme não deve ser reduzido à curiosidade de vê-la em cena. O que interessa é o modo como os adultos orbitam Risa, ora próximos, ora incapazes de alcançar o ponto exato em que a menina se encontra. O luto, aqui, não é vivido por todos da mesma maneira. Cada personagem parece carregar um tempo próprio, uma forma particular de silêncio, culpa ou saudade. Essa diferença de ritmos é uma das ideias mais fortes do longa: crianças e adultos podem sofrer no mesmo espaço, mas raramente sofrem no mesmo idioma.
A ambientação em Tierra del Fuego também ajuda a afastar o filme de um drama genérico. O frio, o vento, a distância e a sensação de isolamento criam uma superfície emocional concreta. “Risa e o Telefone do Vento” não precisa insistir verbalmente que seus personagens estão suspensos. O espaço já sugere isso. A paisagem não aparece apenas como ornamento melancólico. Ela cria um intervalo entre o cotidiano e o fantástico, como se aquela cabine pudesse existir justamente porque o mundo ao redor já parece um pouco deslocado. Quando a direção confia nessa atmosfera, a imagem trabalha mais do que o roteiro.
A fábula e seus limites
O melhor de “Risa e o Telefone do Vento” está nessa zona de contenção. O filme cresce quando permite que a fantasia permaneça ligada ao mistério, à necessidade emocional e à imaginação da protagonista. Ainda assim, nem sempre evita a tentação de conduzir o sentimento com a mão visível demais. A premissa é forte, mas também perigosa: uma criança falando com mortos por telefone é uma imagem que já nasce carregada de comoção. Se a encenação não encontra distância, cada chamada corre o risco de virar atalho para a lágrima. O longa não cai inteiramente nessa armadilha, mas passa perto dela em alguns momentos.
Esse limite aparece quando a história parece organizar demais o efeito reparador da cabine. A ideia de que os mortos ainda têm algo a dizer aos vivos pode render cenas delicadas, mas também pode estreitar o filme se cada encontro funcionar como uma pequena lição sobre perda, despedida ou reconciliação. A força do cinema não está em tornar a dor explicável. Muitas vezes, está em preservar aquilo que ela tem de torto, incompleto e até injusto. “Risa e o Telefone do Vento” é mais interessante quando aceita essa imperfeição, quando deixa Risa diante do impossível sem transformar tudo em resposta.
O ritmo também exige certa paciência. A cadência mais contemplativa favorece a história, mas há uma linha fina entre respiração e insistência. Em seus melhores trechos, o filme usa a pausa para ampliar a solidão da protagonista e deixar que a paisagem participe do drama. Em outros, essa mesma pausa parece calculada para produzir gravidade. Não chega a comprometer o conjunto, mas impede que a obra alcance uma potência mais áspera. O filme prefere a ternura ao atrito. A escolha combina com sua fábula, embora reduza o impacto de algumas passagens.
A música associada a Babasónicos acrescenta identidade, mas a assinatura musical não deve ser confundida com personalidade automática. O que define o filme é menos a presença de uma trilha reconhecível e mais a articulação entre som, silêncio e voz. A escuta é o núcleo dramático. Quando Cabral compreende isso, a cabine deixa de ser um objeto mágico e se torna um lugar de suspensão: um ponto onde Risa pode ouvir o que os adultos não conseguem formular e onde o público entende que a fantasia, no fundo, não resolve nada. Ela apenas ajuda a atravessar.
“Risa e o Telefone do Vento” é, portanto, um filme de méritos claros e limitações visíveis. Tem uma premissa bonita, uma protagonista bem posicionada no centro emocional da narrativa e uma ambientação capaz de dar corpo ao isolamento. Também tem momentos em que a emoção parece mais programada do que descoberta, como se o roteiro confiasse demais na eficácia de sua metáfora. O saldo, ainda assim, é positivo. Cabral constrói uma fábula acessível sobre perda sem transformar a infância em decoração dramática. O filme entende que uma criança não vive o luto como tese, mas como ruído, ausência, pergunta e espera.
A crítica mais justa não deve tratar o longa como grande acontecimento nem descartá-lo como drama previsível. Ele ocupa um meio-termo mais interessante. “Risa e o Telefone do Vento” toca em questões difíceis com cuidado, encontra uma imagem forte para falar da morte e se sustenta quando confia no rosto de sua protagonista e na estranheza daquele telefone plantado no meio do mundo. Falha quando explica demais o que já estava sugerido. Ainda assim, deixa a sensação de que sua fantasia não serve para negar a realidade, mas para aproximar uma menina daquilo que ela ainda não sabe nomear. E isso, quando acontece sem excesso, basta para tornar o filme digno de atenção.
