Nordeste Magazine
Turismo

O fascínio do Comandante Rolim por Napoleão

O fascínio do Comandante Rolim por Napoleão

A admiração do fundador da TAM pelo imperador francês revela afinidades ligadas à estratégia, à ousadia e à recusa em aceitar limites

Quem conheceu de perto o Comandante Rolim Adolfo Amaro sabia de sua paixão pela leitura, especialmente pelas biografias de grandes homens. Ele procurava compreender não apenas aquilo que essas personalidades haviam realizado, mas também a forma como pensavam, enfrentavam adversidades e construíam o próprio destino.

Meu pai me influenciou profundamente nesse hábito. Por causa dele, li biografias de figuras como Winston Churchill e Abraham Lincoln, homens que atravessaram períodos decisivos da história com coragem, inteligência e extraordinária capacidade de liderança. No entanto, entre todos os personagens que despertavam sua admiração, nenhum parecia seduzi-lo tanto quanto Napoleão Bonaparte.

Talvez essa identificação viesse do espírito revolucionário de Napoleão. Talvez fosse resultado de sua mente lógica, estudiosa e estratégica. Napoleão examinava mapas, calculava movimentos, avaliava terrenos e analisava meticulosamente as possibilidades de cada batalha. Sua formação e sua aptidão para a matemática contribuíram para uma maneira precisa e organizada de pensar a guerra, embora, como todo grande personagem histórico, também tenha cometido erros de julgamento e pago caro por algumas de suas decisões.

Meu pai se reconhecia, de certa maneira, naquela combinação de criatividade, inquietude e ousadia. Não porque suas histórias fossem iguais, mas porque ambos pareciam movidos pela recusa em aceitar passivamente as circunstâncias.

comandante Rolim e o filho, Marcos Amaro, durante visita à fábrica da Fokker, na Holanda

O Comandante Rolim possuía um espírito impetuoso. Diante das limitações, não enxergava apenas obstáculos: procurava caminhos. Quando a realidade parecia impor um limite, ele tentava transformá-lo em ponto de partida. Foi assim que construiu sua vida, fazendo das dificuldades verdadeiras pontes para a realização de seu próprio destino.

Nascido em Pereira Barreto, no interior de São Paulo, em uma realidade simples e distante dos grandes centros, ele iniciou sua trajetória com poucos recursos.

Trabalhou desde jovem, reuniu dinheiro para aprender a voar e, apoiado principalmente em suas próprias capacidades, tornou-se piloto e empresário. Anos mais tarde, a companhia que ajudou a construir atravessaria o Atlântico com grandes aeronaves, levando passageiros brasileiros até Paris. A distância entre aquele garoto do interior e os voos internacionais da TAM revela a dimensão de sua determinação.

Recentemente, estive na Ilha de Elba, para onde Napoleão foi enviado após sua abdicação, em 1814. Ao caminhar por aquele lugar, pensei inevitavelmente em meu pai. Não me surpreendeu que ele admirasse tanto um homem que, mesmo vencido, não se considerou definitivamente derrotado.

Napoleão não se conformou com o exílio. Deixou Elba, retornou à França e, durante o período que ficou conhecido como os Cem Dias, reassumiu o poder e reuniu novamente antigos oficiais e soldados. Seu retorno terminou com a derrota em Waterloo, mas permanece como uma das demonstrações mais impressionantes de coragem, ambição e confiança na própria capacidade de alterar o curso da história. Era justamente esse espírito inquieto que meu pai admirava: a disposição de recomeçar quando todos imaginavam que a história já havia terminado.

Naturalmente, a vida de Napoleão também oferece lições sobre os limites da audácia. Sua campanha da Rússia, em 1812, é talvez o exemplo mais contundente. O comandante russo Mikhail Kutuzov compreendeu que enfrentar diretamente o exército francês poderia ser desastroso. Em vez de procurar uma vitória imediata, recuou, preservou suas forças, permitiu o abandono de Moscou e prolongou a campanha, expondo o invasor ao desgaste, à falta de suprimentos, às doenças e ao inverno.

Napoleão, acostumado a procurar decisões rápidas e confrontos definitivos, encontrou uma estratégia difícil de compreender e combater. Ao avançar profundamente pelo território russo, ficou cada vez mais distante de suas linhas de abastecimento. Na retirada, perdeu uma parcela devastadora de seu exército. A vitória russa não nasceu apenas de uma grande batalha, mas da paciência, da resistência e da inteligência de evitar o combate nas condições desejadas pelo adversário.

Essa passagem sempre me parece especialmente interessante porque mostra que até mesmo os grandes estrategistas podem ser derrotados por características que, em outras ocasiões, os conduziram à vitória. A ousadia pode se transformar em imprudência; a confiança, em incapacidade de recuar; o espírito de confronto, em dificuldade para compreender um inimigo que escolhe não confrontar.

Meu pai admirava Napoleão não como alguém que desconhecia suas derrotas ou contradições, mas como um homem fascinado pela força da vontade, pela inteligência estratégica e pela tentativa permanente de superar os limites impostos pela origem e pelas circunstâncias. Talvez essa seja a maior ligação entre os dois em minha memória.

Napoleão saiu de uma ilha e tentou conquistar um continente. Rolim saiu do interior de São Paulo e ajudou a construir uma companhia capaz de atravessar oceanos. Cada um em seu tempo, em sua dimensão e em seu campo de atuação, recusou-se a acreditar que o lugar de onde havia partido determinaria o lugar aonde poderia chegar.

Ao visitar Elba, compreendi melhor o fascínio de meu pai. Não era apenas admiração por um imperador ou por um comandante militar. Era o reconhecimento de um espírito que não aceitava facilmente a derrota, que estudava, calculava, arriscava e buscava transformar as circunstâncias em instrumentos de sua própria história.

E foi exatamente assim que o Comandante Rolim viveu.

* Marcos Amaro é empresário, artista plástico e foi membro do conselho da TAM Linhas Áreas.
É sócio fundador e presidente do conselho da Amaro Aviation





Fonte

Veja também

Veja mais fotos da LGBT+ Turismo Expo 2026

Redação

Piper recebe pedido de dez Archer DX na Europa

Redação

EUA retomam regra de “encargo público” para pedidos de green card a partir de 18 setembro

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.