Embora a maioria dos atletas que competem nos Jogos Olmpicos seja lembrada por seus triunfos, a vitria nem sempre o motivo pelo qual eles perduram. Na maratona das Olimpadas de Londres de 1908, um corredor italiano se tornou uma lenda no por vencer, mas por perder da maneira mais inesquecvel imaginvel. Dorando Pietri tinha apenas 1,60 metro de altura. Apesar das pernas curtas, ele j era uma sensao na Itlia, depois de, aos dezenove anos, participar de um,a corrida em Carpi por impulso e vencer. |

Dorando Pietri cruzando a linha de chegada da maratona. Colorizado por MDguIA:.
Apesar de estar mal trajado, usando as roupas de trabalho, ele surpreendeu a todos ao vencer, derrotando o corredor italiano mais famoso da poca, Pericle Pagliani. Mais tarde, naquele mesmo ano, fez sua estreia oficial em uma corrida de 3 km em Bolonha, terminando em segundo lugar. No ano seguinte, alcanou seu primeiro sucesso internacional, vencendo a corrida de 30 km em Paris.
Ele chegou a competir na maratona dos Jogos Intercalados de 1906, mas no conseguiu terminar devido a uma doena intestinal. Em 1907, no entanto, conquistou o campeonato nacional italiano, confirmando seu status como um dos melhores corredores de longa distncia do pas.
Dorando Pietri chegou quarta edio dos Jogos Olmpicos da era moderna, em Londres, com grandes ambies de medalha. Ele era o lder incontestvel das corridas de longa distncia italianas, dos 5.000 metros maratona.
A corrida comeou em uma tarde quente de julho de 1908 no Castelo de Windsor, um ponto de partida incomum escolhido para que os filhos da famlia real pudessem assistir largada dos corredores. De l, os competidores percorreram o interior da Inglaterra em direo linha de chegada dentro do Estdio White City. A distncia, aproximadamente 42,2 km, mais tarde se tornaria o padro moderno da maratona, mas naquele dia provou ser extremamente longa, especialmente sob o calor do vero.
Dorando comeou em um ritmo relativamente lento, mas na segunda metade do percurso acelerou, chegando segunda posio na marca dos 32 km, quatro minutos atrs do corredor sul-africano Charles Hefferon. Quando Charles comeou a perder o flego, Dorando continuou acelerando, ultrapassando-o na marca dos 39 km.
O esforo, porm, cobrou seu preo. Faltando apenas dois quilmetros para o final, Dorando comeou a sofrer de fadiga extrema e desidratao. Ao entrar no estdio, ele se perdeu, correndo brevemente na direo errada antes de ser redirecionado pelos oficiais. Ento, depois de correr apenas alguns metros, desmaiou.
Os oficiais correram para o seu lado e o ajudaram a se levantar.
– “O homemn cambaleou com as perninhas vermelhas se movendo incoerentemente, mas batendo forte, impulsionadas por uma fora de vontade suprema”, escreveu mais tarde Arthur Conan Doyle.
Ele caiu repetidas vezes enquanto a multido gemia. A cada queda, oficiais e assistentes o levantavam, guiando-o para frente, com as pernas mal conseguindo sustent-lo.
Finalmente, aps quase 10 minutos de quedas repetidas e recuperaes assistidas, Dorando cruzou a linha de chegada sob aplausos estrondosos de um pblico em delrio. Ao que tudo indicava, ele havia vencido a maratona.
O segundo colocado, o atleta americano Johnny Hayes, entrou no estdio logo em seguida. O tempo total de Dorando foi de 2 horas, 54 minutos e 46 segundos; Hayes terminou apenas 32 segundos depois. Sua equipe imediatamente entrou com um protesto. As regras eram claras: um corredor no podia receber assistncia fsica durante a corrida, e Dorando havia sido ajudado diversas vezes no trecho final.
Aps analisarem a situao, os juzes tomaram sua deciso. Apesar de ter cruzado a linha de chegada em primeiro lugar, Dorando Pietri foi desclassificado, e a vitria foi concedida a Johnny.
Mais tarde, foi relatado que Dorando havia recebido pequenas doses de estricnina durante a corrida, uma substncia ento comumente usada por atletas de resistncia como estimulante.

Dorando ostentando a taa de prata dourada da Rainha Alexandra. Colorizado por MDguIA:.
As regras antidoping ainda no existiam e tais prticas eram comuns em corridas de longa distncia. O prprio Dorando, no entanto, atribuiu seu colapso no a estimulantes, mas sim a uma refeio excessiva antes da corrida.
A deciso estava tecnicamente correta, mas pouco fez para diminuir a admirao do pblico por Dorando. Pelo contrrio, a controvrsia amplificou sua fama. Sua luta cativou a multido, transformando-o de um corredor desconhecido em um heri internacional. At mesmo a Rainha Alexandra se comoveu com seu esforo, presenteando-o, segundo relatos, com uma taa de prata dourada em reconhecimento sua extraordinria determinao.
Arthur Conan Doyle, que havia sido contratado pelo Daily Mail para escrever uma reportagem especial sobre a corrida, ficou to impressionado com o esforo do italiano no estdio que props ao jornal que iniciasse uma campanha de subscrio para arrecadar fundos e ajudar Dorando a abrir uma padaria em sua cidade natal. O fundo atingiu a considervel quantia de 300 libras, para a qual o prprio Conan Doyle contribuiu com as 5 libras iniciais.
Nos anos seguintes, Dorando capitalizou sua recm-adquirida fama, competindo em corridas de exibio e tornando-se uma figura clebre no mundo do atletismo. Em 1908, Nova York organizou uma corrida entre Johnny e Dorando, que ele venceu por meia volta. A corrida inspirou o compositor americano Irving Berlin a compor seu primeiro sucesso, “Dorando‘. Dorando venceria 17 das 22 corridas em sua turn pelos Estados Unidos.
Ele retornou Itlia em maio de 1909 e continuou competindo profissionalmente em seu pas natal e no exterior por mais dois anos. Correu sua ltima maratona em Buenos Aires, em 1910, onde alcanou seu melhor tempo pessoal de 2h 38min 48s.
A ltima corrida de Dorando na Itlia foi uma prova de 15 km realizada em Parma, em 3 de setembro de 1911, que ele venceu. Ele tambm venceu sua ltima corrida, desta vez em Gotemburgo (Sucia), em outubro do mesmo ano. Ele tinha 26 anos na poca. Em trs anos como corredor profissional, ele ganhou 200.000 liras apenas em prmios, uma quantia enorme para a poca.
Dorando investiu seus ganhos em um hotel que abriu em parceria com seu irmo. Ele no teve o mesmo sucesso como empresrio que teve como atleta, e o hotel faliu. Mudou-se ento para Sanremo, onde dirigiu uma oficina mecnica. Dorando viveu em Sanremo at sua morte, aos 56 anos.
Este episdio me lembrou muito o caso da maratonista sua Gabriela Andersen, que ficou famosa por entrar cambaleando e desidratada no estdio durante a maratona feminina dos Jogos Olmpicos de Los Angeles em 1984.
Aos 39 anos, ela recusou ajuda mdica para no ser desclassificada, terminando em 37 lugar e tornando-se um smbolo histrico de superao e determinao.
Se voc no conhece a histria, assista o vdeo abaixo at o fim pois simplesmente emocionante.
Na primeira maratona feminina da histria olmpica, Gabriela sofreu com o calor extremo e desidratao aps perder um ponto de hidratao. Ao entrar no Estdio Olmpico, ela estava com o corpo curvado e dificuldade de locomoo, gerando angstia e, posteriormente, aplausos de p do pblico.
Mesmo cambaleando e com dores, ela recusou atendimento mdico para conseguir cruzar a linha de chegada por conta prpria para no ser desclassificada.
A imagem de sua luta contra a exausto se tornou uma das mais marcantes da histria do esporte, representando o verdadeiro “esprito olmpico”.
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