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Novelinhas verticais do Globoplay trazem tramas simplistas embaladas no padrão Globo de produção

Novelinhas verticais do Globoplay trazem tramas simplistas embaladas no padrão Globo de produção


Assim que surgiu a televisão, lançada comercialmente nos Estados Unidos em 1939, o prestigiado cineasta Billy Wilder soltou a pérola: “A televisão é um meio incrível. Conseguiu tornar uma arte tão jovem quanto o cinema em algo antiquado e criou um entretenimento ainda mais medíocre”. Esta resistência é comum sempre que aparece uma nova forma de expressão de massa.


Foi assim com os meios teatrais em relação ao próprio cinema e está sendo assim na tevê com as novelinhas verticais, produzidas para serem vistas no celular. Isso não quer dizer, no entanto, que a resistência desdenhosa não tenha um pé na realidade. De fato, o progresso do entretenimento parece seguir um irônico jargão militar para suas próprias ações: “rápido e mal feito”.


O Grupo Globo embarcou na onda dessas novelinhas ou microsséries em novembro passado, com a produção experimental “Tudo por uma Segunda Chance” (apesar da presença de Jade Picon no elenco, o título não era uma referência à carreira de atriz da moça).


A trama aborda uma tentativa de envenenamento de uma noiva (Débora Ozório) no dia do casamento por sua madrinha, Catarina (Picon). No caso, quem acaba vitimado é o noivo Lucas (Daniel Rangel), verdadeiro alvo do interesse de Catarina. Ela morria de inveja porque a amiga iria se casar com um sujeito rico, bonito, ingênuo, honesto… o arquétipo perfeito do mocinho.




Após uma sucessão interminável de clichês, com comas revertidos, falsas acusações e mocinhas que conseguem dar a volta por cima. E, claro, acompanhados por personagens rasos, interpretações pífias, roteiros mal-ajambrados e sequências de eventos inexplicáveis, noivos acabam felizes para sempre e vilã que se dá mal.


Vale dizer, porém, que a encomenda é essa mesmo. Ninguém ali está buscando criar uma obra de referência, nem em originalidade, nem em rigor artístico. Afinal, trata-se de uma obra para ocupar aqueles momentos de puro tédio, como no sacolejo do transporte público a caminho de casa, por exemplo.


Essa mesma fórmula se repete em outras produções do Globoplay, como em “As Profundezas do Amor”, quando as falcatruas de uma assistente (Thaila Ayala) é descoberta pela chefe (Ana Beatriz Nogueira), que acaba sendo jogada de um mezanino e fica em coma. A culpa recai sobre a namorada do herdeiro (Jéssica Córes e Joaquim Lopes). “Amor sob Vigilância”, com Dudu Azevedo e Malu Rodrigues já tem uma abordagem um pouco mais moderna, pois mostra um casal que sofre uma perseguição digital.


Uma segunda fonte para as novelinhas verticais do Globoplay vem da utilização da estrutura de cenários e figurinos de uma novela que está em produção para criar uma historinha original com custo mais baixo. É o caso de “Onde Está a Boiadeira?”, que traz Susana Vieira no elenco e compartilhou os recursos de “Coração Acelerado”.


Algumas dessas microsséries ainda são criadas através de recortes e reedição de novelas normais, com cenas gravadas tanto no formato normal quanto no vertical. Isso ocorreu com “Angel”, baseada em “Verdades Secretas”, “Bibi Perigosa”, baseada em “A Força do Querer”, “Ramiro e Kelvin”, recortada de “Terra e Paixão”. Por fim, um último modelo é uma produção que complementa a trama de uma nova novela, como ocorreu com “Por Você”.


Todas essas produções estão no mesmo padrão de outras produções dramatúrgicas da Globo, que têm José Luiz Villamarim como diretor de gênero. E dessa forma, mesmo com uma qualidade dramatúrgica baixa, contam com uma qualidade de produção bem mais alta que as novelinhas verticais vindas da China, berço do gênero no mundo. No Globoplay, cenários, fotografia, trilha sonora e vestuário são muito superiores.


Outro ponto é que, apesar de as histórias serem simplistas, ainda são mais sofisticadas que as importadas. O Grupo Globo tem um know-how único no assunto. O problema é que, quando se trata de produções chinesas, a melhora dos produtos costuma ocorrer de forma vertiginosa.

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