A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta experimental nos escritórios de advocacia para se tornar uma peça central da estratégia de negócios do setor. Depois de dois anos marcados por testes, pilotos e adaptações, a discussão agora não é mais se a tecnologia será adotada, mas como ela pode gerar ganhos mensuráveis de produtividade, eficiência e rentabilidade.
Isso é o que mostra uma pesquisa feita pela Thomson Reuters, empresa especializada em infraestrutura legal, indicando que 45% dos profissionais jurídicos brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, enquanto outros 31% pretendem incorporá-las nos próximos meses. Ao mesmo tempo, cresce a pressão dos próprios clientes pelo uso, já que 92% dos departamentos jurídicos corporativos e 87% das áreas tributárias afirmam esperar que escritórios e consultorias utilizem IA para melhorar a prestação dos serviços.
O movimento sugere que a advocacia latino-americana está entrando em uma nova etapa da transformação digital. Segundo a Thomson Reuters, se em 2023 a inteligência artificial era vista como uma promessa, em 2024 passou por uma fase intensa de testes, e agora em 2026 o foco migra para resultados concretos, como redução de custos, ganho de produtividade, novas receitas e diferenciação competitiva.
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“O que estamos vendo é que a inteligência artificial deixou de ser tendência e virou rotina”, afirma Rodrigo Hermida, vice-presidente para a América Latina da Thomson Reuters. O levantamento mostra cerca de 39% afirmam utilizar ferramentas de IA generativa várias vezes ao dia, enquanto outros 31% fazem uso diário da tecnologia.
“A pergunta deixou de ser se a IA será usada e passou a ser como ela pode transformar a forma de trabalhar, atender clientes e gerar valor.” Segundo o executivo, praticamente um em cada dois escritórios da região já utiliza algum tipo de ferramenta de inteligência artificial no dia a dia, e a expectativa é que a adoção continue avançando rapidamente à medida que os clientes passem a exigir não apenas qualidade técnica, mas também eficiência operacional.
Segundo ele, o mercado jurídico atravessa uma mudança semelhante à provocada pela digitalização dos processos. “Nove em cada dez profissionais acreditam que a IA terá um papel disruptivo na profissão. Mas o mais interessante é que isso já começou a acontecer. Hoje, praticamente um em cada dois escritórios da América Latina já utiliza alguma ferramenta de inteligência artificial no dia a dia.”
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Mais do que um “Google avançado”
Segundo ele, a expectativa não é que a IA funcione apenas como um mecanismo de busca mais sofisticado. “O primeiro uso foi muito parecido com um Google avançado, voltado para revisão de documentos, pesquisas e jurisprudência. Agora estamos entrando numa segunda fase, em que a tecnologia passa a fazer parte do próprio fluxo de trabalho”, explica.
Essa mudança aparece também nos principais usos identificados pela pesquisa como:
- sumarização de documentos (77%);
- revisão de conteúdo (71%);
- pesquisa jurídica (68%).
Mas a tendência é que a tecnologia avance para funções mais complexas. Segundo Hermida, sistemas mais sofisticados já conseguem agrupar processos semelhantes, identificar padrões jurisprudenciais, distribuir tarefas entre equipes e acompanhar automaticamente prazos processuais. “Não é mais apenas uma ferramenta que responde perguntas. A IA começa a executar tarefas dentro do fluxo de trabalho efetivamente”, disse.
Impactos sobre a produtividade
Estudo da Thomson Reuters estima ainda que profissionais que utilizam inteligência artificial conseguem economizar até 12 horas por semana, o equivalente a cerca de 240 horas por ano. “Quando você mede o custo da hora de um advogado ou de um contador, fica difícil ignorar o potencial econômico dessa economia de tempo”, acrescenta.
Apesar da rápida adoção, a mensuração de resultados ainda está em estágio inicial. A pesquisa mostra que apenas 23% das organizações latino-americanas monitoram formalmente o retorno sobre investimento (ROI) da IA. Outros 57% não realizam esse acompanhamento, enquanto 20% sequer sabem informar se a empresa mede os resultados.
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Entre aquelas que acompanham indicadores, o foco permanece na eficiência interna:
- economia de custos (74%);
- utilização pelos colaboradores (41%);
- satisfação dos funcionários (35%);
- geração de receita projetada (35%).
Indicadores diretamente ligados ao cliente ainda aparecem com menor frequência, como satisfação do cliente (26%) e geração de novos negócios (29%). Para Hermida, a maturidade da adoção explica esse fenômeno.
Uso inadequado também preocupa
Mas, se por um lado a inteligência artificial já se tornou parte da rotina dos escritórios, por outro lado o avanço da tecnologia também tem levado tribunais e órgãos do Judiciário a discutir limites éticos para sua utilização.
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Recentemente, por exemplo, a Justiça do Trabalho multou em R$ 84 mil duas advogadas de Parauapebas (PA) após identificar uma tentativa de manipulação de um sistema de inteligência artificial utilizado pelo tribunal em um processo trabalhista.
Segundo a decisão, durante a elaboração da sentença por meio do sistema Galileu, ferramenta de IA desenvolvida para uso interno dos tribunais brasileiros, foi encontrado um trecho oculto em um documento apresentado pelas advogadas. O texto estava inserido em fonte branca sobre fundo branco, tornando-se invisível para leitura convencional.
De acordo com o juiz Luis Carlos de Araújo Santos Júnior, a mensagem continha instruções destinadas a influenciar o comportamento da inteligência artificial responsável por auxiliar a análise do caso. A prática é conhecida como injeção de comando (prompt injection) e consiste na inserção de comandos ocultos para alterar ou direcionar respostas produzidas por sistemas de IA.
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O episódio reforça uma preocupação crescente no setor jurídico sobre como essa tecnologia pode aumentar produtividade e eficiência, mas garantir mecanismos robustos de governança, transparência e controle.
Para Rodrigo Hermida, a discussão sobre confiança tornou-se tão importante quanto a própria capacidade tecnológica. “Em profissões altamente reguladas, quase bom não é suficiente. É preciso saber de onde vem a informação, quais bases foram utilizadas e quais mecanismos de segurança existem para evitar erros ou manipulações.”
Segundo o executivo, essa preocupação explica a busca crescente por soluções especializadas, treinadas em bases jurídicas confiáveis e desenvolvidas para ambientes que exigem sigilo e rastreabilidade. “Não basta utilizar qualquer inteligência artificial. O parceiro tecnológico faz diferença quando estamos falando de informações sensíveis, compliance e responsabilidade profissional.”
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Segurança e precisão
Essa preocupação com a segurança da tecnologia, que passa a lidar com contratos, pareceres, estratégias jurídicas e informações sigilosas, levou o escritório Luchesi Advogados a escolher a plataforma jurídica da Thomson Reuters, segundo a advogada e sócia da banca, Ellen Carolina Silva.
“O que diferencia de outras soluções que vínhamos testando é a garantia de que a plataforma não compartilha nossos dados com o ambiente externo, oferecendo um nível de proteção compatível com a natureza das informações jurídicas”, explica.
Segundo ela, a precisão das respostas também pesou na escolha. “Ela tem uma acurácia muito elevada na leitura e localização de informações dentro dos documentos. Quando aprendemos a formular corretamente os comandos, os resultados são bastante consistentes.”
Mercado atrai concorrência
A corrida pela aplicação da inteligência artificial no setor jurídico já movimenta competidores e investidores. Entre os concorrentes da Thomson Reuters está uma startup brasileira que acaba de se tornar o primeiro unicórnio voltado ao setor jurídico. Fundada pelo advogado Mateus Costa-Ribeiro, a Enter, alcançou a avaliação de US$ 1,2 bilhão após uma rodada de US$ 100 milhões liderada pelo fundo Founders Fund, com participação da Sequoia Capital e da Ribbit Capital.
O movimento reforça que a disputa pela transformação digital da advocacia está apenas começando. Para Hermida, porém, a tecnologia não substituirá os profissionais. “A IA é um apoio para que advogados, tributaristas e contadores consigam fazer mais, em menos tempo e com mais qualidade. Os profissionais que aprenderem a trabalhar junto com essas ferramentas tendem a sair na frente.”
