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No Prime Video, uma comédia francesa questiona até onde vai o perdão quando alguém volta tarde demais

No Prime Video, uma comédia francesa questiona até onde vai o perdão quando alguém volta tarde demais

Há uma boa comédia romântica tentando respirar dentro de “Romantique”. Isso não é pouco, mas também não basta. O filme parte de uma situação com peso dramático evidente: um homem desaparece, volta sem grande cerimônia e descobre que, durante sua ausência, tornou-se pai de uma menina. O reencontro com a mulher deixada para trás, portanto, não poderia ser apenas mais uma variação sobre amores interrompidos. Há uma criança no centro da história, uma ausência que precisa ser encarada e um passado que não se dissolve porque o protagonista reaparece com alguma graça e vontade de consertar as coisas. “Romantique” entende a força dessa premissa, mas passa boa parte do tempo tentando torná-la mais leve do que ela é.

Dirigido por Thibault Segouin, “Romantique” acompanha César, interpretado por Alex Lutz, em sua tentativa de ocupar um lugar que abandonou antes mesmo de entender tudo o que estava deixando para trás. Ao reencontrar Salomé, vivida por Golshifteh Farahani, ele descobre a existência da filha pequena e tenta provar que pode fazer parte daquela vida. O ponto de partida se encaixa bem nos códigos da comédia sentimental francesa: reencontros inesperados, ruas charmosas, embaraços íntimos, certa elegância no modo de tratar desastres afetivos. A diferença é que, aqui, o tropeço não é pequeno. O conflito cobra uma densidade que o filme, muitas vezes, prefere contornar.

O retorno pesa

César é um personagem que depende muito do carisma de Alex Lutz para não se tornar apenas irritante. O ator percebe esse risco e trabalha o protagonista em uma região ambígua: ele é desajeitado, sedutor, às vezes genuinamente afetado pela descoberta da paternidade, mas também protegido por uma simpatia que suaviza demais a gravidade de sua conduta. O filme quer que se veja nele um homem tentando melhorar, e há momentos em que isso funciona. Sua inadequação diante da nova responsabilidade tem algo de humano, até de reconhecível. Ainda assim, a pergunta mais incômoda permanece no ar: voltar não anula o desaparecimento. Arrepender-se não reorganiza, por si só, a vida de quem ficou.

É aí que “Romantique” mostra seu limite mais claro. A ausência de César não é um detalhe de roteiro nem um pretexto qualquer para a reaproximação. Ela é o centro moral da história. Mesmo assim, a encenação frequentemente trata essa ausência como um obstáculo a ser vencido com persistência, bom humor e algum encanto pessoal. A comédia romântica sempre permitiu certa elasticidade: o gênero vive de hesitações, enganos, fugas, retornos e pedidos de desculpa. Mas há uma diferença entre brincar com a imaturidade e minimizar suas consequências. Salomé não foi apenas uma paixão deixada em suspenso. A filha não é apenas uma surpresa adorável que obriga o protagonista a crescer. Existe ali uma assimetria afetiva que o roteiro percebe, mas nem sempre enfrenta.

Golshifteh Farahani ajuda a tornar essa assimetria mais visível. Sua Salomé não aparece como simples interesse amoroso à espera de uma explicação convincente. Há cansaço, reserva, afeto e vigilância em sua composição. A atriz sugere uma mulher que precisou seguir vivendo antes que César voltasse a se imaginar indispensável. Esse passado recente pesa mesmo quando o filme tenta avançar para uma zona mais amena. O melhor de “Romantique” surge justamente quando a relação entre os dois deixa escapar essa tensão: a vontade de acreditar em uma segunda chance e a consciência de que algumas ausências mudam a arquitetura inteira de uma vida.

A presença da filha desloca o filme de um romance de reencontro para uma história de responsabilidade. Não basta saber se César e Salomé ainda têm química, se a antiga relação pode ser retomada ou se o amor sobreviveu ao intervalo. A questão mais interessante é outra: que tipo de homem César precisa se tornar para não repetir a fuga que define sua entrada na trama? O filme toca nesse ponto, mas se satisfaz rápido demais com sinais de boa vontade. Há uma diferença importante entre amadurecimento e charme em fase de correção. “Romantique” nem sempre parece disposto a separar uma coisa da outra.

Leveza demais

Como comédia romântica, o filme tem qualidades. O ritmo é agradável, a duração não pesa, a ambientação parisiense oferece um espaço visualmente acolhedor e a dupla central segura boa parte do interesse. A cidade funciona como cenário de recomposição, um lugar onde personagens tentam reorganizar afetos sem que tudo precise ser dito de maneira frontal. Esse recurso, porém, também cobra seu preço. Quando Paris surge como moldura de reconciliação, “Romantique” ganha brilho, mas perde atrito. A beleza do entorno envolve os conflitos numa camada confortável demais, quase como se bastasse caminhar por ruas charmosas para tornar menos incômodo o que aconteceu entre aquelas pessoas.

A direção de Thibault Segouin se sai melhor quando aceita a modéstia do projeto. “Romantique” não é um filme desajeitado. Tem fluidez, sustenta um tom leve e encontra bons momentos na aproximação entre os personagens. A montagem evita excessos, a trilha acompanha o registro sentimental sem chamar atenção em excesso, e a mise-en-scène aposta em uma elegância discreta. O problema não está exatamente na execução, mas na falta de risco dramático. O filme organiza bem seus códigos, só que raramente os tensiona. Prefere a conciliação à fricção, a simpatia ao desconforto, a possibilidade de perdão à investigação mais dura das feridas abertas.

Essa escolha pesa principalmente sobre Salomé. César tem um arco evidente: voltar, descobrir, tentar, errar menos. Já ela, embora ganhe força pela atuação de Farahani, muitas vezes aparece como medida do avanço emocional dele. O roteiro se interessa por sua dor, mas não tanto quanto se interessa pela possibilidade de redenção do protagonista masculino. A crítica mais forte a “Romantique” nasce dessa desproporção. Para ser mais contundente, o filme precisaria deslocar um pouco o centro da própria ternura. A história não pertence apenas ao homem que retorna. Pertence também à mulher que permaneceu e à criança que nasceu no espaço deixado por sua fuga.

Ainda assim, seria injusto reduzir “Romantique” aos seus limites. Há momentos em que Lutz e Farahani encontram uma verdade simples no desconforto entre os personagens. Há delicadeza na maneira como certas hesitações aparecem sem grandes discursos. Há também uma confiança saudável na possibilidade de uma comédia romântica sem cinismo, interessada em pessoas falhas que tentam, ainda que tarde, agir melhor. O que falta é permitir que essas falhas tenham consequências mais ásperas. O filme quer falar de reparação, mas recua quando percebe o tamanho da dívida afetiva que colocou em cena.

O resultado é uma obra simpática, irregular e menor do que sua premissa. Funciona quando observa os gestos inseguros de alguém tentando voltar para uma vida que seguiu sem ele. Enfraquece quando transforma esse retorno em caminho quase natural para o encanto. Como comédia romântica, “Romantique” oferece leveza, bons atores e alguns achados de tom. Como drama de paternidade e abandono, fica devendo. A combinação não arruína o filme, mas impede que ele alcance sua zona mais interessante. “Romantique” tem coração, elenco e uma ideia promissora. Só não tem firmeza suficiente para encarar, sem atalhos, a dor que sua própria história anuncia.



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