Muito mais do que uma receita criada para capturar a atenção do público, o suspense revela o estranhamento que cada um de nós manifesta acerca de questões as mais variadas, o que não raro leva ao choque. A câmera vai aproximando-se devagar, o silêncio antecede um grito e o espectador fica à mercê de seu próprio inconsciente, traído pelo que acha ver. Phil Sheerin manobra todos esses recursos em “O Segredo do Lago”, além de socorrer-se da estética para elevar a tensão da narrativa. Famílias disfuncionais, luxúria, condutas hediondas e crime irmanam-se num drama sobre amores mortos que dão numa avalanche de outras emoções, completamente desconexas. E sem qualquer possibilidade de um recomeço.
Água suja
Em sua estreia à frente de longas, Sheerin verte o roteiro de David Turpin numa longa sequência de imagens góticas, cujo teor repulsivo é destacado pela fotografia de Ruairí O’Brien. Elaine e Tom despendem muito tempo com discussões em que cada qual defende um ponto de vista, como um jogo de crianças mimadas. Realmente, nenhum dos dois tem maturidade para tomar as decisões tão próprias da vida adulta, e quando se sabe que, apesar da diferença de apenas doze anos, são mãe e filho, fica ainda mais angustioso acompanhar a dupla. O diretor elabora esse argumento dando uma ou outra pista do mistério em que se ancora o filme e dispondo das performances afiadas de Charlie Murphy e Anson Boon. Na pele de Holly, Emma Mackey movimenta o segundo ato e define tudo.
