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Na Netflix, um dos grandes filmes brasileiros do século transforma comida, desejo e violência em obra-prima

Na Netflix, um dos grandes filmes brasileiros do século transforma comida, desejo e violência em obra-prima

O humor que o curitibano Marcos Jorge emprega em “Estômago” (2007) não é para qualquer gosto: pode ser tomado por vulgaridade, preconceito, principalmente em tempos de moralismos apressados, insensíveis às sutilezas, que se valem do sarcasmo para combater a hipocrisia dos paladinos da moral sempre à espreita para, dedo em riste, apontar erros que eles nunca cometeriam, claro, porque frutos de outras conjunturas, de outro mundo, de outras vidas. Na esteira de uma fase particularmente boa do cinema nacional depois da retomada custosa quando do desmonte da Embrafilme, a estatal responsável por fomentar e distribuir produções nacionais — momento em que despontaram no horizonte “O Céu de Suely” (2006), levado à tela por Karim Aïnouz, e “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes —, o longa-metragem de estreia de Jorge foi bem digerido pelo público. Essa aceitação fenomenalmente positiva se constituiu não apenas no salto de que o realizador precisava a fim de se consolidar como artista, mas também se prestou a servir de referência quanto ao que poderia esperar dele o mercado, a despeito do mote da história, universal por excelência.

A fome, o desejo e a violência

Coprodução brasileiro-italiana, “Estômago”, a comédia, tem muito da picardia das sátiras de Marco Ferreri (1928-1997), com sexo, glutonaria e matança, tudo ao mesmo tempo, e sem muita moderação. O onipresente João Miguel, também protagonista de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, é Raimundo Nonato, erroneamente tido por cearense por causa do nome, mas saído da Paraíba para fazer a vida na dureza inumana do Sul Maravilha. Cozinheiro profissional, chega à cidade grande sem o dinheiro que lhe permita pagar as duas coxinhas de frango que consome no boteco de Zulmiro, o comerciante sem escrúpulos vivido por Zeca Cenovicz. Raimundo escapa de uma surra por pouco, mas é obrigado a lavar uma pilha de louça e dar um jeito na pocilga que serve de cozinha ao lugar. Quando dá o trabalho por concluído, adormece no cubículo nos fundos da espelunca de Zulmiro, que no dia seguinte descobre que tem um diamante bruto nas mãos, prontinho para ser lapidado. O retirante de João Miguel vai se defendendo assim, às custas dos rebotalhos de recheio de pastel e cama — e sem salário —, até que aparece sua verdadeira grande chance. Mesmo dono de um restaurante que dignifica o nome, Giovanni, personagem de Carlo Briani, se senta à mesa e degusta uma das famosas coxinhas do novato, o que a prostituta Íria, de Fabíula Nascimento, já havia feito, no balcão. Conversa vai, conversa vem, surge o convite para trabalhar com ele, desvendando a alquimia por trás de iguarias requintadas demais para a sua singeleza de camponês sertanejo, até mesmo o bom e velho romeu-e-julieta, queijo minas com goiabada cascão, que o dono do Bocaccio espertamente rebatizou de Anita e Garibaldi, em homenagem aos heróis da Revolução Farroupilha e da unificação da Itália, substituindo o minas por gorgonzola — e cobrando dez vezes mais.

O anti-herói servido em prato frio

A adaptação de Jorge para o conto “Presos pelo Estômago”, de “Pólvora, Gorgonzola e Alecrim”, de Lusa Silvestre — o diretor e Silvestre são coautores do roteiro junto com Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito —, ressalta a natureza desgarrada (e desgraçada) de Raimundo, posteriormente chamado de Parmalat, por ser muito claro, e Alecrim por Bujiú, interpretado por Babu Santana, e sua trupe depois que passa a ser forçado a viver num ambiente muito pior que o quartinho de fundos da birosca de Zulmiro. Parece que tudo acontece com o anti-herói de João Miguel a reboque de sua vontade, deixando também no espectador um travo, como de fruta verde ou feijão azedo. Tudo se vai esclarecer mesmo na sequência de desfecho; enquanto isso, cenas em analepse, impecavelmente enquadradas por Jorge, e cuja fotografia de Toca Seabra tornam ainda mais lúgubres, elaboram a vida de Raimundo nesse outro universo, a que nunca consegue pertencer. Do envolvimento com Íria, que troca seus encantos por um prato de comida — desde que sem beijo na boca, respeitando a ética de seu ofício —, à relação patronal com Giovanni e análoga a isso com Bujiú, em tudo Marcos Jorge salpica uma mancheia generosa de humor negro. Definitivamente, “Estômago” não é para todos os bicos. É papa-fina liberada somente para paladares seletos.



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