“Twisters” entende uma coisa que muitos blockbusters recentes parecem esquecer: cinema-catástrofe precisa de escala, ritmo e uma boa dose de prazer físico. Não basta colocar destruição na tela. É preciso fazer o público sentir que o vento tem peso, que a estrada pode sumir a qualquer momento, que o céu virou ameaça concreta. Lee Isaac Chung, vindo de um registro muito mais íntimo em “Minari: Em Busca da Felicidade”, entra nesse território de estúdio com uma disposição clara: entregar diversão de tela grande sem tratar o gênero como piada ou relíquia.
O filme funciona como continuação autônoma de “Twister”, de 1996, mais interessado em reativar uma fórmula do que em depender diretamente de personagens antigos. Essa escolha ajuda. “Twisters” não tenta viver apenas da lembrança do original, embora saiba usar a nostalgia a seu favor. A ideia central permanece simples e eficiente: pessoas fascinadas por tempestades correm em direção ao perigo enquanto todo bom senso mandaria fazer o contrário. A atualização vem pelo contexto: agora há redes sociais, performance pública, tecnologia de rastreamento, disputa de imagem e o impulso contemporâneo de transformar risco em conteúdo.
A protagonista Kate Cooper, vivida por Daisy Edgar-Jones, carrega o eixo traumático do filme. Ela não é apenas uma especialista voltando ao campo; é alguém que associa a tempestade a uma perda que ainda organiza sua vida. Esse ponto dá alguma densidade emocional a uma narrativa que, no fundo, prefere movimento a introspecção. O roteiro usa a culpa e o medo de Kate como motor dramático, mas sem aprofundar demais suas feridas. O trauma existe para colocá-la de volta em ação, não para transformar “Twisters” em estudo psicológico.
Tempestade controlada
Daisy Edgar-Jones oferece uma presença contida, às vezes discreta demais para o tamanho do espetáculo ao redor. Isso não chega a ser um defeito, porque Kate funciona como centro de gravidade em meio ao barulho. Sua personagem observa, calcula, hesita e tenta recuperar confiança. O filme depende dela para não virar apenas uma sucessão de tornados bem renderizados. Ainda assim, a escrita nem sempre lhe dá conflitos tão fortes quanto promete. Kate tem uma história, tem competência, tem dor, mas boa parte de sua trajetória segue caminhos previsíveis.
Glen Powell, por outro lado, entra em cena como motor de carisma. Tyler Owens é caçador de tempestades, celebridade de internet, sujeito performático e autoconfiante, o tipo de personagem que poderia facilmente virar caricatura. Powell segura esse risco com presença de astro. Ele entende o tom do filme: um pé na brincadeira, outro na aventura, sem cinismo suficiente para matar o encanto. Tyler transforma o desastre em show, mas “Twisters” aos poucos tenta mostrar que há mais nele do que pose. Funciona porque o ator vende essa virada sem pedir solenidade.
A dinâmica entre Kate e Tyler é uma das melhores armas do filme. Não pela originalidade, que é pequena, mas pelo ritmo. Eles representam modos diferentes de se aproximar da tempestade: ela pela ciência, pela memória e pela cautela; ele pelo espetáculo, pela exposição e pela intuição performática. A oposição é evidente, quase didática, mas rende porque os atores têm química e porque o filme sabe que blockbusters também vivem de rostos interessantes, não apenas de efeitos. Quando “Twisters” acerta, acerta justamente nesse equilíbrio entre atração humana e ameaça natural.
Anthony Ramos, como Javi, ocupa uma posição mais ambígua. Ele traz Kate de volta ao campo e representa uma zona de contato entre pesquisa, ambição e responsabilidade. O roteiro sugere tensões interessantes: quem lucra com o desastre, quem transforma dados em produto, quem se aproxima da tragédia para compreendê-la e quem faz isso para explorá-la. O problema é que “Twisters” levanta essas questões, mas raramente as encara até o fim. Sempre que o filme poderia se tornar mais incômodo, prefere retornar ao impulso do entretenimento.
O charme do desastre
Como espetáculo, porém, “Twisters” é sólido. As sequências de tornado têm clareza espacial, bom senso de progressão e impacto sonoro. O som é parte decisiva da experiência: o rugido do vento, os destroços, os veículos pressionados pela força da tempestade, o silêncio breve antes do caos. A fotografia valoriza paisagens abertas, estradas, céus carregados e comunidades vulneráveis à passagem dos fenômenos. Chung entende que o cinema-catástrofe precisa trabalhar com antecipação. O medo não está só no momento em que tudo desaba, mas na percepção de que algo enorme está se formando.
Também há mérito em sua condução do espaço rural. O filme não trata aquelas regiões apenas como cenário descartável para destruição. Há uma tentativa, ainda que limitada, de lembrar que tempestades atravessam lugares habitados, com pessoas, casas, pequenos negócios, memórias. Essa atenção impede que o desastre vire abstração total. Mesmo assim, “Twisters” ainda é mais confortável quando filma perseguições e riscos imediatos do que quando tenta sugerir consequências sociais mais amplas.
A maior limitação está na cautela. Para um filme sobre eventos extremos, “Twisters” é curioso em sua recusa de ir muito longe nas ideias que aciona. A presença das redes sociais poderia render uma crítica mais afiada ao espetáculo da tragédia. A tecnologia de rastreamento poderia abrir uma discussão mais complexa sobre ciência, mercado e controle. O trauma de Kate poderia ter contornos menos funcionais. E a crise climática, que ronda qualquer narrativa contemporânea sobre fenômenos naturais extremos, aparece mais como sombra evitada do que como tema enfrentado.
Essa escolha não arruína o filme, mas define seu alcance. “Twisters” quer ser, antes de tudo, um blockbuster de verão: acessível, veloz, carismático, eficiente. E nisso entrega. Há honestidade nessa vocação popular, especialmente em um momento em que muitos filmes de grande orçamento parecem pesar demais tentando justificar a própria existência. Chung não reinventa o gênero, mas devolve a ele uma energia direta. O filme sabe onde colocar a câmera, quando acelerar, quando deixar Glen Powell sorrir e quando permitir que Daisy Edgar-Jones segure a tensão com o olhar.
O resultado é um entretenimento robusto, mas não especialmente ousado. “Twisters” diverte mais do que surpreende, impressiona mais pelo acabamento do que pela imaginação dramática. Seus melhores momentos lembram que ainda há prazer em ver um filme-catástrofe bem feito, com astros funcionais, barulho bem dosado e senso de aventura. Seus piores momentos revelam um roteiro que prefere não sujar demais as próprias mãos. No fim, o vento chega forte, mas passa por caminhos seguros. Ainda assim, enquanto dura, faz estrago suficiente para justificar o ingresso.
