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Na Netflix, astro vencedor do Grammy comanda filme musical que divide charme e drama familiar

Na Netflix, astro vencedor do Grammy comanda filme musical que divide charme e drama familiar

“K-Pops!” chega com uma promessa mais vistosa do que o filme parece disposto a cumprir. O título sugere uma entrada no brilho coreografado do K-pop, com sua lógica de palco, treinamento, imagem, juventude e euforia global. Anderson .Paak, porém, entrega uma obra de escala menor e intenção mais sentimental: uma comédia dramática musical sobre um artista em baixa que reencontra, tarde demais, a possibilidade de ser pai. Quando aceita essa dimensão íntima, o filme ganha graça. Quando tenta se aproximar do grande musical pop, deixa à mostra suas limitações de encenação.

O protagonista é BJ, músico norte-americano em fase de desgaste profissional que enxerga em Seul uma chance de recomeço. A oportunidade surge ligada a um programa de competição musical, ambiente propício para misturar ambição, vaidade, performance e choque cultural. Mas a virada que realmente move “K-Pops!” não está no palco. Está na descoberta de que um jovem competidor em ascensão é seu filho. A partir daí, o filme passa a equilibrar duas forças nem sempre conciliáveis: o desejo de usar a música como rota de retorno à relevância e a necessidade de encarar uma paternidade que não pode ser tratada como extensão da carreira.

Essa tensão é simples, bastante reconhecível, mas não é vazia. Anderson .Paak tem presença cênica para impedir que BJ vire apenas a caricatura do artista decadente. Há no personagem uma mistura de esperteza, insegurança, charme e imaturidade que combina com o tom escolhido. O filme entende que ele pode ser divertido sem ser admirável o tempo inteiro. BJ é vaidoso, oportunista e emocionalmente atrasado, mas também carrega uma fragilidade que dá peso ao seu percurso. O problema é que o roteiro nem sempre leva essa contradição adiante. Em vez de pressionar as zonas mais desconfortáveis do personagem, muitas vezes prefere conduzi-lo por caminhos seguros, como se temesse afastar demais a simpatia do público.

A batida do afeto

O ponto mais forte de “K-Pops!” está na relação entre BJ e o filho, interpretado por Soul Rasheed. É ali que o filme respira melhor e encontra seu centro menos calculado. A dinâmica entre os dois tem uma naturalidade que compensa parte da rigidez narrativa. O reencontro não funciona apenas como atalho para emoção fácil, porque nasce atravessado por interesses, ressentimentos e expectativas distintas. BJ vê no garoto uma chance de se aproximar, mas também enxerga nele uma oportunidade. O filho, por sua vez, não aparece como recompensa moral para redimir o pai. Ele tem desejo próprio, talento próprio e uma relação com a música que não depende apenas da validação paterna.

Essa camada familiar impede que “K-Pops!” seja reduzido a uma comédia simpática sobre bastidores musicais. O filme é mais convincente quando afasta um pouco o K-pop do centro e se concentra no desconforto de uma convivência que começa tarde. Há algo honesto na percepção de que a paternidade, aqui, não surge como revelação transformadora instantânea, mas como trabalho de presença, escuta e negociação. A comédia também cresce nesses atritos: no pai que tenta performar segurança, no artista que confunde experiência com autoridade, no adulto que percebe que sua bagagem de palco não resolve sua falta de maturidade afetiva.

Ainda assim, o roteiro opera com peças conhecidas demais. O músico fracassado em busca de segunda chance, o filho talentoso, a competição como motor narrativo, o choque cultural como fonte de humor, a reconciliação como horizonte provável. Nada disso inviabiliza um filme. Fórmulas podem render bons resultados quando há precisão de tom, ritmo e observação. Em “K-Pops!”, porém, a estrutura aparece com frequência excessiva. O público percebe cedo para onde cada conflito tende a caminhar, e o filme raramente encontra uma solução dramática capaz de deslocar essa expectativa. Ele prefere ser agradável a ser mais incisivo.

Como diretor estreante em longa-metragem, Anderson .Paak demonstra mais domínio de atmosfera do que de forma. Sabe a energia que deseja imprimir ao filme: leve, musical, calorosa, com humor acessível e atenção aos vínculos familiares. Essa energia, porém, nem sempre se traduz em cinema. A direção se acomoda muitas vezes em planos funcionais, soluções visuais corretas e uma encenação que acompanha os personagens sem criar grande atrito, surpresa ou invenção. O filme tem música, tem palco, tem corpos em performance, mas nem sempre encontra imagens à altura do universo que convoca.

O palco encolhe

Esse é o limite mais evidente de “K-Pops!”. Para um filme que se aproxima de um fenômeno tão marcado por coreografia, estética, montagem, figurino e construção de imagem, falta impacto visual. O K-pop aparece menos como linguagem e mais como cenário. Há elementos reconhecíveis: competição, treinamento, juventude, indústria, performance, mistura de idiomas e circulação entre culturas. Mas o filme raramente explora tudo isso com a força plástica que o próprio tema sugere. O palco existe, mas não se amplia. A música conduz a narrativa, mas poucas vezes transforma a cena.

Essa contenção talvez venha da escolha de privilegiar a comédia familiar em vez do musical de espetáculo. A questão é que “K-Pops!” tenta circular pelos dois caminhos e nem sempre consegue fazer com que um alimente o outro. Quando aposta no afeto, ganha consistência. Quando tenta parecer vibrante apenas por associação ao universo pop coreano, fica mais genérico. A Coreia do Sul funciona sobretudo como deslocamento para BJ, um lugar onde ele precisa rever sua posição no mundo e na vida do filho. Isso basta para a história que o filme escolhe contar, mas reduz a ambição cultural que o título parece anunciar.

Também há uma diferença importante entre presença e construção. Anderson .Paak carrega boa parte do filme no corpo, na voz, no timing e na familiaridade com a música. Ele sabe ocupar a cena sem esforço aparente. Yvette Nicole Brown e os demais nomes do elenco ajudam a compor um ambiente leve, sem que o filme precise recorrer a grandes rupturas de tom. Mas carisma não resolve tudo. Em alguns momentos, “K-Pops!” parece depender da simpatia prévia por .Paak para suavizar escolhas dramáticas apressadas. O resultado é uma obra que conquista pela presença, mas nem sempre convence pela escrita.

Mesmo com esses limites, seria duro demais tratar “K-Pops!” como um fracasso. Há um coração claro no projeto, e ele pulsa melhor do que a embalagem musical. A relação entre BJ e o filho dá ao filme uma ancoragem emocional que o impede de virar apenas uma comédia sobre fama, oportunismo e choque cultural. O tom familiar não anula os conflitos, embora os deixe mais palatáveis. A leveza, aqui, é virtude e limite ao mesmo tempo: torna o filme agradável, mas também diminui sua capacidade de risco.

“K-Pops!” funciona como uma estreia simpática e irregular. Não é o grande musical pop que o título poderia sugerir, nem um retrato especialmente agudo da indústria do K-pop. Também não é um filme sem personalidade. Seu melhor material está na fricção entre vaidade artística e responsabilidade afetiva, entre o desejo de voltar a ser visto e a obrigação de finalmente enxergar o outro. Anderson .Paak talvez ainda não encontre no cinema uma linguagem tão marcante quanto a que construiu na música, mas encontra um eixo emocional capaz de sustentar o filme. Falta brilho de palco. Em bons momentos, sobra calor humano.



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