Rio de Janeiro (RJ) – No contraponto das graves transformações ambientais que assolam o universo, e podem/devem trazer à humanidade consequências irreparáveis, Camila Oliveira, curadora adjunta do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, acalenta, em voz branda, que basta um debruçar menos raso do ser humano, que transcenda o estado coletivo de pressa e indiferença, para que (quase) tudo se ajeite.
É que reparar, minimamente, no que pode parecer óbvio, interfere na forma como se vive no mundo, inclusive sob o contexto da arte somada à tecnologia.
Desde sempre, são essas, entre outras, as premissas que pautam o equipamento cultural da Praça do Mauá, no Centro do Rio, o Museu do Amanhã – gerido pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG).
E foi para saber um pouco mais sobre a nova mostra no espaço, aberta no último dia 2 de julho e em cartaz até o próximo 31 de agosto, “Síntese – Arte e Tecnologia na Coleção Itaú”, que a Folha de Pernambuco esteve, a convite, na cidade carioca, como reforço ao papel que cabe a cada um, de pensar o futuro na cronologia do hoje e do agora.
A mostra
Permeada pelo diálogo entre arte, tecnologia e natureza, a exposição, com curadoria assinada por Leno Veras, é composta por doze obras, nacionais e internacionais, estrategicamente expostas para levar o público à ideia de (re)invenção de um futuro proposto, inclusive, por experiências que podem ser vivenciadas no decorrer do percurso da mostra.
“São obras que se atualizam com as questões que a gente tem no agora”, pontua Camila, exemplificando com a arte do artista plástico carioca, Eduardo Kac, uma “mera” gravura de um coelho verde fluorescente. “A depender de como o visitante chega, só vai ver uma coelha fluorescente e já passa para a próxima obra”, alerta a curadora, adentrando sobre a função social praticada pelo Museu do Amanhã.
“É um espaço em que a gente pode oferecer um outro tempo de atenção, de permanência, um outro tempo de pensamento crítico mesmo. Afinal, por que tem uma coelha verde no museu, numa exposição de arte e tecnologia?”, indaga Camila, ao mesmo tempo em que responde à questão: “Quando você se debruça um pouquinho, você consegue perceber que ali tem uma discussão de bioética, de convenção de arte, de propriedade, de respeito às espécies, qualquer que seja”.
Sobre a coelha, ela foi alterada geneticamente com uma proteína incluída para lhe dar a coloração.
“Quem tem direito a mexer na vida do outro, seja esse outro quem for, uma pessoa inclusive”, reforça ela acerca das discussões pertinentes e repousadas na obra de Kac, como outras tantas que fundamentam a mostra, que entre outros recortes, traz a instalação “FALA”, com um microfone a postos que capta os sons do ambiente e, em coro, 40 celulares reproduzem identificam as palavras e passam a conversar entre si em idiomas diversas. “Ou seja, você dá uma palavra e essa palavra não pertence mais a você”, enaltece Camila Oliveira.
Cultura e tecnologia
Mas o Museu do Amanhã “existe exatamente para isso, para conversar e provocar” em coisas que parecem distantes e pouco palatáveis.
Assim ressaltou Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural, na abertura para convidados da exposição, realizada em parceria entre as duas instituições. “Celebramos com grande alegria a abertura da exposição, reforçando o nosso compromisso de expandir o acesso à arte e à cultura por meio do Acervo Itaú”, destacou ele.
Crédito: Albert Andrade/DivulgaçãoEmbora inédita a exposição, a parceria entre o Museu do Amanhã e o Itaú vem sendo construída e não é de hoje.
De acordo com Cristiano Vasconcelos, diretor executivo do equipamento carioca, as duas instituições “compartilham da mesma causa: relacionar a cultura e a tecnologia como estruturas que nos ajudam a compreender os desafios do nosso tempo e imaginar os futuros que queremos construir”.
O triângulo
Para o curador da mostra, Leno Veras, é esta “a coleção mais relevante no campo da astrofísica, senão uma das mais relevantes do planeta”.
Ele complementa contando que, ao ser convidado para a mostra, fez um recorte específico.
“Propus que essa exposição ia se dedicar ao conceito ‘Humanidade, Tecnologia e Naturezas’ pensando a materialidade da tecnologia e a sua relação com o contexto da emergência climática (…)
Para que esse triângulo possa se fechar, a gente tem que começar a entender que somos natureza, somos tecnologia e essa equação precisa ser equalizada. A própria palavra arte vem do grego ‘téchne’. Então, na verdade, não existe diferença entre arte e tecnologia”.
Em paralelo à programação de “Síntese”, também no Museu do Amanhã a instalação “Bunker para um Pixel Tropical” está aberta para visitação.
Assinado pelos artistas colombianos Tatyana Zambrano e Hernán Rodríguez, um jogo cinematográfico – desenvolvido em uma residência artística realizada pelo Museu em parceria com a Gluon e o programa europeu S+T+ARTS, a obra leva o público a explorar o universo do game e aproximá-lo da biodiversidade, mudanças climáticas, tecnologias digitais e futuros imagináveis.
Na instalação, a vivência acompanha a jornada de uma biobactéria extremófila em um cenário pós-tropical marcado por transformações ambientais e tecnológicas propondo, claro, reflexões.
Um programa de formação promovido entre o Laboratório de Atividades do Amanhã (LAA) e o Futuros – Arte e Tecnologia e a Fundação Itaú vai acompanhar a instalação.
SERVIÇO
Exposição “Síntese: Arte e Tecnologia”
Quando: até 31 de agosto
Onde: Museu do Amanhã – Praça Mauá, 1, Centro Rio de Janeiro
A partir de R$ 20
Informações: @museudoamanha
*A repórter viajou a convite do Museu do Amanhã
