Parafraseando Samuel Johnson (1709-1784), a maternidade é o último refúgio de uma canalha. Por óbvio, o aforismo também cabe aos homens, mas para as mulheres a natureza ambígua da mãe, ora um deleite, ora um flagelo, sempre há de ter um peso irreal, lembrança constante de que a sociedade — e sua própria anatomia — devotam-lhes a esperança de um futuro melhor. Quase nenhuma torna concreta tal proeza.
Filhos têm o condão de redimir ou, ao menos, desculpar psicopatas, mulheres irresponsáveis, levianas, egocêntricas, promíscuas, mormente quando dão certo e chegam a ser indivíduos admiráveis, justos, magnânimos, capazes do gesto nobilíssimo de oferecer acolhimento e alguma doçura às mães perversas de antanho, quiçá sinceramente contritas, mas não a ponto de fazer o tempo voltar e tudo ser maravilhoso. Sem pressa, o mais cínico dos verdugos deixa que locupletemo-nos com esse confortável sofisma, no qual se esconde uma promessa qualquer de felicidade, uma vez que o gênero humano está condenado a encarniçar-se da quimera de ser feliz. O mundo é, como na caverna de Platão (428 a.C – 348 a.C), só um simulacro das projeções muito íntimas de cada um, de conceitos maculados de nossas várias idiossincrasias. Estas, por seu turno, mantêm-nos mais e mais encafuados em nossa loucura. Ser mãe é o símbolo-mor da ilusão da plenitude.
A maternidade não é para todas as mulheres e aquelas que, muito ocupadas de si mesmas, envelhecem sós merecem mais respeito do que senhoras falsamente inermes que dão as costas a filhos que não tocavam a seus sonhos. A felicidade está no pouco. Os filhos são excessos.
