Houve um tempo em que ser mulher era, antes de qualquer outra coisa, assumir-se um mero apêndice, primeiro dos pais ou dos irmãos, depois do marido ou da Igreja. Elas fazem-se presentes nesta última de um modo profuso, abnegado, generoso, mas só depois de seus pares masculinos, gente cuja formação inclui não apenas os textos bíblicos e os mais importantes ensaios sobre a cristandade, como também mira — ou deveria mirar — a ancestral prática de fazer o bem indiscriminadamente e a sufocação dos apetites da carne e dos desejos de poder. Tudo isso parece uma incoerência diante dos avanços de movimentos como o feminismo e de algumas reformas progressistas implementadas pelo próprio clero, tema que Virginie Sauveur mira em “Disfarce Divino”. Partindo de um mistério nem tão escandaloso, Sauveur chega ao que interessa, a discussão do papel da mulher no catolicismo do século 21, indo um pouco mais longe e questionando a submissão involuntária e compulsória e, mais importante, se é justo renunciar a uma vocação convicta em obediência à doutrina e às leis canônicas.
O chamado
Somos constantemente desafiados a encontrar motivos que ratifiquem nossa crença na vida, ignorando o abatimento que embrutece e paralisa. A fé é o alicerce das almas enfermas e, se não dá cabo da dor, oferece um horizonte, uma direção qualquer, um motivo para conter as lágrimas. Quase tudo na vida é mistério, quase tudo escapa ao nosso controle e há que se compreender o fim como uma chance milagrosa de transformação. Charlotte Rivière sabe disso, e por essa razão não se abala com a morte de Pascal Foucher, seu superior direto na paróquia onde atua como chanceler da diocese. Sua visão sobre o padre Foucher e a lacuna que ele deixa começa a mudar quando o médico que atesta seu óbito revela que o cadáver tem barba, muito fina, mas também, seios e vulva. A diretora e os corroteiristas Anne-Isabelle Lacassagne e Nicolas Silhol passam a esquadrinhar uma Charlotte confusa, determinada a conseguir respostas para o que houve e, claro, acaba tendo de analisar sua própria vida, juntando mais dúvidas que certezas, principalmente a respeito de suas atividades pastorais. Em mãos imprudentes, “Disfarce Divino” descambaria para uma diatribe antirreligiosa, mas até nos lances mais espirituosos Sauveur tem o condão de manter o refinamento da crítica, ajudada por Karin Viard, que capta a angústia e a pontinha de desilusão que teima em doer em Charlotte.
