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Kaique Alves vai lançar série na Netflix após boa estreia no cinema: “Um dia, vou ganhar o Oscar”

Kaique Alves vai lançar série na Netflix após boa estreia no cinema: “Um dia, vou ganhar o Oscar”


Cinco costelas quebradas mudaram o rumo de Kaique Alves. Se hoje o paulistano de 28 anos é celebrado como um das boas apostas entre a nova geração de cineastas brasileiros, o plano era outro quando ele era moleque.

Cria de Cangaíba, favela da Zona Leste de São Paulo, Kaique queria ser jogador de futebol. E ia bem, chegou a jogar na base do Corinthians, até que — plot twist — um acidente de carro lhe tirou do jogo. Recluso após o acidente para se dedicar à recuperação, teve tempo para explorar um novo manual na internet: como fazer um filme?


Corta para os dias de hoje. Na sua estreia à frente de um longa-metragem, Kaique foi indicado ao Emmy por “Escola de quebrada”, o filme brasileiro mais assistido no Paramount+ em 2023. É o diretor-geral e produtor executivo mais jovem da Netflix, plataforma pela qual está rodando sua nova série, “Rauls”.

É também o membro mais jovem a ser convidado para votar no Emmy. Em 2024 e 2025, foi indicado ao Grammy Latino na categoria melhor videoclipe versão longa, com “Meu karma”, de Jovem MK, e “Iradoh”, de Hodari, respectivamente. Foi com videoclipes, aliás, que entrou nessa onda de ser diretor.


— Todo moleque de favela, em São Paulo, quer ser MC ou quer ser jogador de futebol — diz Kaique ao Globo, em entrevista por videochamada. — O meu primo e o meu irmão queriam ser MC. E eles já cantavam. Por conta do acidente, fiquei em casa aprendendo edição no YouTube. Pensei: pô, vou fazer o clipe deles. Eu tinha 14 anos. Peguei uma câmera emprestada de um moleque da minha rua, gravei o clipe deles. O do meu irmão deu uns cem mil views, o do meu primo deu 300 mil. Já era bastante para a época — comenta.


Dada a largada, o jovem Kaique foi à procura de mais clientes. E gravou, ainda jovem, “mais de mil clipes”. Ainda aos 14 anos, começou a fazer mais dinheiro que o pai e a mãe juntos, ele conta. Em 2014, um dos seus trabalhos viralizou: era o “Passinho do Romano”, de Bruno IP, que virou hit na época. Kaique ganhou holofotes, foi personagem de reportagens na imprensa, incluindo o “Profissão repórter”, da TV Globo.




— Foi aí que eu conheci o Kond — diz o profissional, citando o empresário Konrad Dantas, conhecido como Kondzilla, que lhe deu uma oportunidade na produtora que leva seu nome e que virou referência no audiovisual de artistas do funk paulistano desde que foi fundada, em 2017.


Kondzilla lhe ofereceu uma vaga como editor. Era o início de uma parceria frutífera. Depois de dois anos na função, virou diretor da casa, ficando à frente de trabalhos de nomes como Kevinho, Mano Brown e Pabllo Vittar. “Olha a explosão”, de MC Kevin, deu mais de meio bilhão de views no YouTube. Sucesso atrás de sucesso, o jovem paulistano colocou, então, outra meta na cabeça: estudar na New York Film Academy, prestigiada universidade de cinema americana.


— Só que era algo muito surreal, porque eu morava na favela. Quando fui falar para o meu pai que meu sonho era estudar na melhor escola de cinema do mundo, ele disse que eu não ia conseguir. Precisava dar um jeito, não sabia se ia assaltar um banco (risos), mas precisava juntar dinheiro. Fui na fé. Um mês de curso custava R$ 35 mil, fora passagens, hospedagem. Eu queria ficar um ano. Foi aí que o Kond disse que eu já estava dando resultado, que os meus clipes estavam rendendo milhões de views, e falou que ia bancar meu curso. E deu certo. Fui, estudei, conheci gente do mundo todo — relembra.


De volta ao Brasil, Kaique passou a se dedicar ao mercado publicitário, área que estava em expansão na Kondzilla. Fez comerciais para marcas como Amazon, Unilever, Skol, Adidas, Rappi, Colgate, Coca Cola, Spotify, Meta, Tinder e Budweiser, entre muitos outros. Conquistou seis Leões em Cannes pelos trabalhos na área. Mas seguiu mirando seu objetivo principal: criar e dirigir seu próprio longa de ficção. Kaique fala do preconceito que o mercado tem com cineastas que nunca dirigiram um longa antes — “tentaram tomar um projeto de mim, já fizeram isso com o Kond, é uma prática do mercado” —, mas hoje fala do alto de quem passou da arrebentação. Depois de “Escola de quebrada”, valorizou seu passe. Agora, na Netflix com a série “Rauls”, a expectativa é grande.


— Quando era criança, ia pra esquina da minha casa e os moleques estavam falando de estelionato. “Raul” é uma gíria para estelionatário em São Paulo. Não posso contar muito, mas é uma série que vai falar do sistema como um todo. Hoje, no Brasil, são mais de 208 golpes por hora. Isso é o que é reportado para a polícia. Hoje a gente sai na rua se esquivando de tudo. Sai com o teu carro, é a gasolina adulterada, flanelinha. Vai tomar um drinque, é bebida com metanol. Abre seu celular, seu banco foi invadido, ligação falsa, SMS. Isso é todo dia. Só que no final, todo mundo é Raul — adianta.


Agora, depois das costelas quebradas, dos clipes, da universidade americana, dos prêmios e de uma entrada promissora no cinema, Kaique Alves é firme num propósito maior: o Oscar.


— Quero continuar na ficção. Acho que tudo que passei foi para chegar aqui. E gosto muito de estar inserido num projeto desse, longo, sabe? Que é onde você constrói ali, pedaço por pedaço, até a hora do lançamento. E quero levar isso mais longe. Quero ser mundial, quero que minha série seja vista no mundo inteiro. Mas levando o nome do Brasil, trazendo o personagem brasileiro. Quero ganhar prêmio. Um dia vou ganhar um Oscar.

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