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Jennifer Lawrence está na comédia da Netflix que transforma qualquer domingo murcho em começo de semana mais leve

Jennifer Lawrence está na comédia da Netflix que transforma qualquer domingo murcho em começo de semana mais leve

“Que Horas Eu Te Pego?”, dirigido por Gene Stupnitsky, começa com Maddie Barker perdendo o carro por falta de pagamento enquanto tenta impedir que a casa herdada da mãe escape por dívida. Jennifer Lawrence interpreta essa motorista de aplicativo e garçonete de Montauk, uma mulher que encontra num anúncio online a oferta de um Buick Regal em troca de se aproximar de Percy, filho de dezenove anos de um casal rico. Andrew Barth Feldman vive o rapaz, prestes a ir para Princeton, ainda sem hábito de beber, sem vida de festas e sem experiência sexual. Laura Benanti completa o núcleo dos pais que transformam a retração do filho em serviço contratado.

Dívida em Montauk

O carro tomado não é um detalhe lateral. Sem ele, Maddie perde parte do trabalho; sem trabalho, fica mais difícil manter a casa; sem a casa, perde o único patrimônio herdado da mãe. O Buick Regal oferecido pelos pais de Percy entra nessa corrente como ferramenta de sobrevivência, não como prêmio decorativo. A proposta é indecente, mas chega a uma mulher que já teve o deslocamento, a renda e a permanência em Montauk colocados sob ameaça.

Stupnitsky, que assina o roteiro com John Phillips, sustenta a primeira parte nessa diferença de informação. Maddie sabe que existe um pagamento. Os pais de Percy sabem que encomendaram a aproximação. Percy não sabe que virou parte de uma negociação. A comédia nasce quando uma mulher adulta tenta acelerar uma intimidade comprada e encontra um rapaz que não lê os sinais com a mesma velocidade.

Maddie vai ao abrigo de animais onde Percy atua como voluntário e tenta conduzir a situação como quem já conhece o resultado. O encontro sai do controle porque ele responde fora do código esperado. A cantada não vira avanço simples, o mal-entendido cresce, a pressa dela encontra a hesitação dele. Lawrence trabalha Maddie com corpo, irritação e ataque; Feldman segura Percy em pausas, respostas atrasadas e uma rigidez que corta a investida no meio.

Percy antes de Princeton

Percy poderia ser apenas o garoto tímido usado como alvo de piada. Feldman evita esse atalho. O personagem não domina os encontros, mas também não se entrega ao plano armado em torno dele. Ele pergunta, recua, estranha, se defende. A aproximação contratada começa a falhar porque o centro do acordo não sabe que existe acordo.

Lawrence aceita a parte mais física da comédia sem proteger a própria imagem. A cena de praia, com nudez e confronto corporal, mostra Maddie perdendo o comando em público. O riso vem da exposição, da insistência e da vergonha transformada em ação. Ela tenta administrar uma situação e acaba empurrada para um constrangimento maior do que previa.

A diferença de idade entre Maddie e Percy permanece no centro do incômodo. Ela tem 32 anos; ele, dezenove. Os pais dele usam dinheiro para interferir na vida íntima do filho. Ela aceita porque precisa do carro. Ele entra sem saber que virou tarefa. O filme não precisa transformar esse arranjo em sermão, mas também não consegue tratá-lo como brincadeira neutra. A graça depende de um acordo torto, e o melhor do humor aparece quando essa torção continua visível.

O jantar de formatura tardio muda a posição de Percy. No restaurante, ele canta “Maneater”, de Hall & Oates, e a atenção deixa de pertencer apenas a Maddie. Feldman não transforma Percy em outra pessoa; ele continua deslocado, mas passa a ocupar a cena diante dos outros. A canção expõe o rapaz e altera a dinâmica da dupla, porque Maddie já não controla sozinha o rumo do encontro.

Depois desse ponto, “Que Horas Eu Te Pego?” perde parte da agressividade inicial. A comédia se aproxima de uma conciliação mais esperada, e algumas situações chegam com menos força que as primeiras tentativas de Maddie. A queda não compromete os 103 minutos, porque Lawrence e Feldman já estabeleceram um contraste eficiente: ela força a passagem, ele atrasa a resposta; ela improvisa, ele desmonta o plano sem perceber todo o plano.

O filme não acrescenta novo troféu ao currículo de Jennifer Lawrence, nem precisa. Depois de “O Lado Bom da Vida”, “Inverno da Alma”, “Trapaça” e “Joy: O Nome do Sucesso”, a atriz aparece aqui num registro menos solene, mais físico, apoiado em tropeço, pressa e constrangimento. Feldman acompanha sem disputar volume. “Que Horas Eu Te Pego?” acerta quando mantém a dívida, o trabalho e o acordo familiar dentro da piada. O romance vem depois, mas a comédia fica mais firme quando Maddie olha para a própria vida sem carro, sem dinheiro sobrando e com um Buick Regal no centro da aposta.



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