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Inspirado em fatos reais, este drama agridoce do Prime Video transforma bolos em despedida

Inspirado em fatos reais, este drama agridoce do Prime Video transforma bolos em despedida

“Bares, Bolos e Amizades” parte de uma premissa que parece feita para uma comédia romântica de superfície: uma jovem confeiteira, pouco à vontade na noite de Los Angeles, passa a levar bolos a bares para conhecer gente. O plano, sugerido pela melhor amiga, tem algo de truque narrativo. É simples, visual, fácil de resumir. O filme, porém, cresce quando se afasta dessa isca inicial e entende que sua matéria não está nos encontros improvisados ao redor de sobremesas, mas na amizade entre duas mulheres que se conhecem o bastante para se provocar, se amparar e, quando necessário, se machucar.

Jane, interpretada por Yara Shahidi, é talentosa na confeitaria e hesitante diante da vida social. Ela parece dominar melhor a lógica de uma receita do que o improviso de uma conversa em bar. Corinne, vivida por Odessa A’zion, ocupa o espaço oposto: fala mais alto, decide mais rápido, empurra a amiga para situações que Jane dificilmente escolheria sozinha. O contraste poderia ser esquemático, mas ganha corpo porque o filme não trata essa diferença apenas como oposição de temperamentos. Corinne não é só a extrovertida que ensina Jane a viver, e Jane não é apenas a tímida que precisa ser libertada. A relação entre as duas é mais dependente, mais torta e mais afetiva do que a premissa sugere.

O chamado “cakebarring”, prática de levar bolos a bares, serve como motor da primeira parte. Há nele uma mistura curiosa de constrangimento e charme. Jane usa a confeitaria como instrumento de aproximação, como se o açúcar abrisse espaço onde a fala ainda não chega. É uma imagem eficiente para a dificuldade de ocupar o mundo: antes de se apresentar, ela oferece algo feito por suas mãos. O problema é que esse dispositivo, embora simpático, nem sempre parece orgânico. Em alguns momentos, a ideia soa melhor no conceito do que na cena. O filme precisa lembrar o espectador de sua própria premissa, e esse esforço deixa certas passagens menos espontâneas.

Doce superfície

A mudança de tom chega com o diagnóstico grave de Corinne. A partir daí, “Bares, Bolos e Amizades” deixa de ser uma história sobre uma jovem tentando socializar e assume o corpo de um drama de cuidado, medo e reorganização afetiva. Não há grande surpresa nessa virada. O cinema já percorreu muitas vezes o território da amizade atravessada pela doença, do amadurecimento imposto antes da hora, do luto que começa quando a pessoa amada ainda está presente. A diferença está no modo como o filme tenta manter Jane e Corinne como duas personagens, e não como peças a serviço de uma lição emocional. Quando consegue isso, encontra seus melhores momentos.

A direção de Trish Sie evita, na maior parte do tempo, transformar cada cena em explosão sentimental. O filme não escapa inteiramente do sublinhado emocional, mas sabe que sua história depende de pequenas mudanças de comportamento: o modo como Jane passa a ocupar o espaço, a maneira como Corinne tenta preservar uma imagem de controle, a dificuldade de aceitar ajuda sem sentir que perdeu autonomia. Los Angeles aparece menos como cartão-postal do que como ambiente de circulação: bares, cozinhas, quartos, ruas, lugares de trabalho e de espera. Essa escolha dá concretude à narrativa, situada numa juventude que ainda quer experimentar a cidade, mas já precisa lidar com responsabilidades duras demais.

O ritmo, por sua vez, é irregular. A primeira parte tem a leveza de uma comédia de situações, apoiada na promessa de encontros, tentativas e pequenos vexames. A segunda concentra seu peso no drama médico e na intimidade da doença. A passagem entre esses registros não é totalmente fluida. Às vezes, o roteiro parece arrumar as peças de maneira visível para conduzir o espectador ao ponto emocional desejado. Há personagens secundários que entram mais para cumprir função do que para ganhar vida própria, e algumas soluções dramáticas chegam acompanhadas de uma previsibilidade difícil de ignorar.

Ainda assim, o filme se sustenta porque Yara Shahidi e Odessa A’zion encontram uma temperatura convincente para a amizade. Shahidi evita fazer de Jane uma figura apagada ou apenas frágil. Sua timidez não é ausência de personalidade; é uma forma cautelosa de estar no mundo. A atriz trabalha bem os silêncios, os recuos e a hesitação de alguém que descobre, aos poucos, que cuidar do outro também exige afirmar a própria vontade. A’zion, por sua vez, dá a Corinne uma energia que poderia facilmente virar caricatura. Sua expansividade não elimina o medo. É justamente nessa fissura que a personagem se torna mais interessante.

Peso real

Bette Midler aparece como presença coadjuvante e acrescenta peso ao entorno familiar da história, mas “Bares, Bolos e Amizades” pertence mesmo às duas protagonistas. É na dinâmica entre Jane e Corinne que o filme encontra uma honestidade que o roteiro nem sempre alcança sozinho. A doença redefine a relação, mas não a inaugura. Essa distinção importa. O vínculo já existia antes da crise; o diagnóstico apenas expõe dependências, ressentimentos, limites e gestos de lealdade que estavam ali, ainda sem a urgência do fim.

O mérito do filme está em perceber que o cuidado nem sempre tem aparência nobre. Ele pode ser cansativo, desajeitado, impaciente. Pode aproximar duas pessoas e, ao mesmo tempo, sufocá-las. Jane precisa aprender a estar presente sem desaparecer dentro da dor da amiga. Corinne precisa aceitar que não controla tudo, nem o próprio corpo, nem a reação dos outros. Quando observa essas tensões sem apressá-las, “Bares, Bolos e Amizades” deixa de parecer apenas um drama agridoce e alcança algo mais concreto: a ideia de que amar alguém também envolve atravessar momentos pouco elegantes, frases mal colocadas, medo e exaustão.

As falhas, porém, permanecem. O filme às vezes sublinha demais o que já estava claro. Há passagens em que a emoção parece cuidadosamente posicionada para produzir impacto, e não descoberta no atrito entre as personagens. A metáfora dos bolos, embora coerente com a trajetória de Jane, corre o risco de adoçar excessivamente uma história que ganha força quando aceita o desconforto. O melhor do filme surge quando ele não tenta transformar a dor em ornamento nem a amizade em lição.

“Bares, Bolos e Amizades” não reinventa o melodrama de doença nem a narrativa de amadurecimento. Sua estrutura é conhecida, seu arco emocional é previsível e sua premissa central nem sempre se encaixa com a naturalidade desejada. Mas há nele uma sinceridade que resiste ao cálculo. A química entre Shahidi e A’zion dá corpo a uma amizade que não precisa ser perfeita para parecer verdadeira. O filme entende que crescer, neste caso, não significa apenas perder a timidez ou encontrar uma vocação; significa descobrir como permanecer ao lado de alguém quando a leveza inicial já não serve de abrigo.

Por isso, a obra funciona melhor como drama de vínculo do que como comédia de conceito. Os bolos chamam atenção, rendem imagens e organizam a superfície. O que fica, porém, é menos açucarado: a percepção de que algumas amizades atravessam a juventude não porque escapam da dor, mas porque aprendem a existir dentro dela. Irregular, convencional e por vezes sentimental, “Bares, Bolos e Amizades” encontra sua dignidade quando para de tentar surpreender e simplesmente observa duas amigas diante de uma perda que muda tudo sem apagar o que veio antes.



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