Relatório do GAMA mostra alta moderada nas entregas, avanço de jatos de negócios e turboélices e recuo dos aviões a pistão
O mercado global de aviação geral chegou à metade de 2026 com uma diferença mais clara entre volume e valor. Nos seis primeiros meses, os fabricantes entregaram 1.458 aviões, apenas 1,7% acima das 1.433 unidades registradas no mesmo período de 2025. O faturamento, porém, avançou 15,5%, para US$ 14,3 bilhões. O resultado mantém parte da tendência observada no fechamento de 2025, quando as entregas totais cresceram 2,2%, enquanto o faturamento de aviões avançou 16,1%.
Os aviões a pistão, categoria de maior volume, recuaram 3,1%, enquanto os turboélices avançaram 7,8% e os jatos de negócios cresceram 8,2%. A composição das entregas, portanto, manteve a tendência de maior participação de aeronaves situadas em faixas de valor unitário mais elevadas.
Os números constam do relatório do segundo trimestre divulgado pela General Aviation Manufacturers Association (GAMA). Entre janeiro e junho, foram entregues 786 aviões a pistão, 289 turboélices e 383 jatos de negócios. Somadas, as aeronaves a turbina de asa fixa chegaram a 672 unidades. No segmento de asas rotativas, foram entregues 419 helicópteros, sendo 110 a pistão e 309 a turbina.
A leitura exige, porém, cautela. O GAMA contabiliza aeronaves expedidas pelo fabricante aos clientes e não mede diretamente novos pedidos, cancelamentos, tamanho das carteiras ou preços finais negociados. Parte da diferença entre o avanço das entregas e o crescimento do faturamento está ligada à composição dos portfólios, já que aeronaves de longo e ultralongo alcance representam valores unitários muito superiores aos dos segmentos de entrada.
Além disso, o GAMA estima parte dos valores com base em informações públicas, inclusive dados do BCA Purchase Planning Handbook, quando os fabricantes não divulgam faturamento individualmente. O indicador deve, portanto, ser entendido como uma aproximação do valor das aeronaves entregues, e não como a receita efetivamente reconhecida contabilmente por cada empresa. Os dados são mais úteis para acompanhar o ritmo de produção convertido em entregas e seu valor econômico do que para medir isoladamente a demanda criada no período.
Jatos ganham peso
Foram entregues 383 jatos de negócios até junho, contra 354 um ano antes, avanço de 8,2%. O segundo trimestre respondeu por 221 unidades, acima das 162 registradas entre janeiro e março.
A Gulfstream e Bombardier continuam com forte peso sobre o valor movimentado pelo setor. A Gulfstream entregou 79 aeronaves no semestre, sendo treze G280 e 66 unidades das famílias G500, G600, G700 e G800. O faturamento estimado chegou a US$ 5,19 bilhões.
A Bombardier somou 56 entregas, divididas igualmente entre as famílias Challenger e Global, com faturamento estimado de US$ 2,78 bilhões. Juntos, os dois fabricantes responderam por quase US$ 8 bilhões do total, apesar de terem entregue 135 aeronaves.
Embraer acelera entregas
A Embraer também acelerou o ritmo ao longo do semestre, somando 74 jatos entre janeiro e junho, sendo 29 no primeiro trimestre e 45 no segundo. O Phenom 300E continuou sendo o modelo de maior volume, com 35 unidades acumuladas, seguido pelo Praetor 500, com dezoito, e pelo Praetor 600, com dezesseis. Foram entregues ainda cinco Phenom 100EX, mantendo o modelo em um patamar de volume bem inferior aos demais jatos da Embraer. O faturamento estimado do conjunto atingiu US$ 1,3 bilhão.
A distribuição entre Phenom e Praetor também ganhou maior equilíbrio ao longo do semestre. No segundo trimestre, por exemplo, foram entregues doze Praetor 600, contra quatro nos três primeiros meses, enquanto o Phenom 300E passou de quinze para vinte unidades.
O resultado amplia o peso dos modelos de maior alcance no conjunto das entregas da Embraer, embora os números isolados ainda não permitam apontar uma mudança estrutural na procura.
Escala e valor
A Cirrus permaneceu como o fabricante de maior volume entre os listados pelo GAMA. Foram 405 aeronaves no primeiro semestre, incluindo 348 unidades da família SR e 57 Vision Jet. O faturamento estimado chegou a US$ 654,6 milhões.
A Textron Aviation ocupa uma posição distinta, com um portfólio que vai de treinadores e aviões a pistão a turboélices e jatos Citation. Foram 333 entregas e quase US$ 2 bilhões em faturamento combinado. Entre os modelos de maior volume aparecem 107 Cessna 172 Skyhawk, 32 Grand Caravan EX, 26 King Air, dezessete SkyCourier e 77 jatos Citation de diferentes versões.
Turboélices voltam a crescer

Depois de iniciarem o ano com retração de 3,1%, os turboélices chegaram ao semestre com 289 entregas, alta de 7,8% sobre 2025. O segundo trimestre concentrou 165 aviões, diante de 124 nos três primeiros meses. Dentro da categoria, os monomotores responderam por 244 unidades e os bimotores, por 45.
A Pilatus entregou 43 PC-12 e dezoito PC-24 no semestre, totalizando 61 aeronaves e US$ 535,7 milhões em faturamento estimado. Só no segundo trimestre, o PC-12 passou de quinze para 28 unidades.
A Daher também aumentou o ritmo entre os dois períodos, passando de treze, no primeiro trimestre, para 24 no segundo e chegando a 37 aviões no semestre. Foram registrados cinco Kodiak 100, quatro Kodiak 900, um TBM 960 e 27 TBM 980.
O avanço dos turboélices torna o cenário do semestre menos concentrado nos jatos do que o observado em março e amplia a recuperação entre as categorias de asa fixa.
Pistões recuam no acumulado
Os aviões a pistão foram a única categoria de asa fixa a apresentar redução na comparação anual. As entregas passaram de 811 para 786 unidades, recuo de 3,1%.
O segundo trimestre, isoladamente, teve 405 entregas, acima das 381 registradas entre janeiro e março. A retração aparece, portanto, na comparação do acumulado de 2026 com o mesmo período de 2025, e não entre os dois primeiros trimestres deste ano.
A diferença pode refletir fatores como sazonalidade, programação industrial ou concentração de entregas. Os dados disponíveis não permitem associar diretamente o avanço do segundo trimestre a uma retomada da demanda.
Segundo trimestre mais forte

Todavia, o segundo trimestre apresentou maior volume em praticamente todas as principais categorias. O GAMA registrou 667 aviões entregues entre janeiro e março e 791 entre abril e junho. O faturamento estimado passou de aproximadamente US$ 6,07 bilhões para US$ 8,25 bilhões. Nos jatos de negócios, as entregas passaram de 162 para 221 unidades. Nos turboélices, de 124 para 165. Entre os aviões a pistão, de 381 para 405.
Porém, a comparação sequencial, porém, deve ser vista com cautela. Certificações, disponibilidade de motores e interiores, logística, aceitação pelos clientes e programação de handovers podem concentrar entregas em determinados períodos, sobretudo entre aeronaves de maior valor
Helicópteros avançam

O mercado de helicópteros apresentou crescimento mais uniforme. Foram entregues 419 aeronaves no primeiro semestre, aumento de 4% sobre as 403 registradas em igual período de 2025. Os modelos a pistão cresceram 5,8%, para 110 unidades, enquanto os helicópteros a turbina avançaram 3,3%, para 309. O faturamento civil-comercial chegou a aproximadamente US$ 2,18 bilhões. O segundo trimestre concentrou 251 entregas, ante 168 nos três primeiros meses.
A Airbus Helicopters somou 142 unidades no semestre, incluindo 52 H145/H145M e 47 H125/H125M, com faturamento civil-comercial estimado em US$ 948,4 milhões. Já a italiana Leonardo registrou 81 entregas, com destaque para 34 AW139, quinze AW189/AW149 e treze AW169. O faturamento estimado foi de US$ 877,8 milhões.
A Robinson entregou 127 helicópteros e somou faturamento estimado de US$ 85,5 milhões. A diferença em relação a Airbus e Leonardo acompanha a composição das linhas de produto, já que R44 e R66 ocupam faixas de mercado bastante distintas de modelos como H145 e AW139.
Há ainda uma ressalva metodológica. Airbus Helicopters e Leonardo reportam ao GAMA entregas combinadas de helicópteros civis/comerciais e militares/governamentais, enquanto o faturamento estimado considera apenas os modelos civis e comerciais. A comparação direta entre unidades e receita, portanto, não é equivalente.
Mercado chega à metade do ano em alta
O primeiro semestre mostra uma indústria que conseguiu ampliar o ritmo de entregas mesmo em um ambiente ainda marcado por cadeias de suprimento sensíveis, custos elevados e seletividade maior entre os segmentos. O avanço dos jatos de negócios e dos turboélices sugere que a demanda por aeronaves de maior capacidade e alcance segue sustentando parte relevante da produção, enquanto os pistões permanecem mais dependentes de fatores como treinamento, uso pessoal e renovação de frotas.
Mais do que indicar uma expansão uniforme, os números revelam um mercado em que cada categoria responde a estímulos distintos. Fabricantes com presença nos segmentos de maior valor conseguem ampliar faturamento com volumes relativamente menores, enquanto empresas voltadas à base da aviação geral continuam dependentes de escala.
O ponto central, daqui em diante, será observar se esse desempenho se converte em um ciclo mais duradouro. Para isso, será necessário acompanhar não apenas as entregas, mas também a evolução dos pedidos, cancelamentos, backlog, disponibilidade de posições de produção e capacidade de cada fabricante de transformar carteira em receita ao longo do segundo semestre.
O cenário para o restante do ano também passa a incorporar riscos que não aparecem nos números do GAMA. A escalada das disputas comerciais pode afetar diretamente uma indústria baseada em cadeias produtivas internacionais. A ameaça do presidente Donald Trump de restringir as vendas da Bombardier nos Estados Unidos é um exemplo relevante, sobretudo porque o mercado americano concentra cerca de metade da frota da fabricante canadense. Até o momento, contudo, não houve medida formal que impeça novas entregas.
No Brasil, a transição da reforma tributária acrescenta outra variável para 2027. Ainda existem incertezas sobre a carga efetiva para diferentes operações da aviação geral, incluindo importação, prestação de serviços e tributação das próprias aeronaves. Como os ciclos de venda e produção podem se estender por vários anos, mudanças relevantes na tributação podem antecipar negócios, adiar decisões de compra ou alterar a competitividade de determinados modelos. O efeito sobre os fabricantes dependerá, porém, da regulamentação final e do peso do mercado brasileiro em cada segmento.
