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Indicado ao Oscar, o filme que acaba de chegar ao Prime Video é daqueles que deixam qualquer um sem chão

Indicado ao Oscar, o filme que acaba de chegar ao Prime Video é daqueles que deixam qualquer um sem chão

“Eu, Capitão” nasce de um gesto simples, quase adolescente: sair de casa. Para Seydou e Moussa, dois jovens de Dakar, a Europa aparece como promessa de trabalho, reconhecimento e futuro. Não há, no começo, a medida exata do horror que os espera. Há vontade de ir, pressa de crescer, alguma ingenuidade e a sensação de que a vida precisa caber em algo maior do que o horizonte doméstico. Matteo Garrone acompanha esse impulso sem transformar seus protagonistas em peças de uma tese. O melhor do filme está nesse contato direto com Seydou: quando a câmera se prende ao seu rosto, a travessia deixa de ser tema e passa a ser medo, espanto, culpa e responsabilidade.

O risco de um filme como “Eu, Capitão” está posto desde a primeira escolha de enquadramento. Ao tratar da migração africana rumo à Europa, Garrone pisa em terreno político, moral e estético delicado. Beleza demais pode virar conforto. Sentimento demais pode transformar sofrimento em consumo rápido. O diretor sabe compor imagens de impacto, mas essa habilidade, aqui, também é armadilha. O filme impressiona, muitas vezes com força legítima; em outros momentos, parece limpar a imagem de uma experiência que talvez devesse permanecer mais bruta, mais irregular, menos disponível ao acabamento.

Ainda assim, “Eu, Capitão” não se limita a empilhar desgraças. Seydou Sarr sustenta o filme com uma presença que não depende de grandes gestos. Seu rosto registra a passagem violenta entre a fantasia juvenil e a obrigação adulta de decidir, suportar e seguir. O personagem não surge como herói pronto, nem como vítima imóvel. Ele aprende sob pressão, quase sempre tarde demais, que a travessia não é apenas mudança de lugar. Ela corrói vínculos, reorganiza culpas e obriga o corpo a continuar quando a cabeça ainda tenta entender o que acabou de acontecer. Nessa atenção ao protagonista, Garrone encontra o ponto mais firme do filme.

A travessia

Garrone organiza o percurso como uma odisseia contemporânea. Há etapas muito marcadas: a saída de Dakar, o deserto, os intermediários, a violência de autoridades e exploradores, a passagem pela Líbia, a ameaça do mar. Essa divisão dá ao filme um sentido de avanço constante. A cada trecho, a promessa inicial perde um pouco de brilho. O futuro, antes imaginado como conquista, passa a depender de dinheiro, resistência física, sorte e decisões tomadas sem tempo para reflexão. O mundo se estreita ao redor dos personagens, e o sonho europeu deixa de ser horizonte para se tornar prova.

Essa construção funciona dramaticamente, mas cobra seu preço. A sucessão de obstáculos aproxima a tragédia migratória de uma lógica de aventura, ainda que amarga, em que cada perigo parece preparar o seguinte. “Eu, Capitão” sabe que está lidando com uma experiência extrema, mas nem sempre escapa da tentação de ordená-la em chave épica. O resultado é ambíguo: a progressão dá força ao relato, mas às vezes oferece forma demais a uma realidade marcada justamente pela arbitrariedade, pela exploração e pela violência sem compensação moral.

A fotografia reforça esse impasse. As paisagens são amplas, os corpos parecem pequenos diante de espaços hostis, a luz impõe dureza e distância. O deserto não é apenas cenário; pesa sobre os personagens, reduz escolhas, impõe uma escala desumana. O som também participa dessa sensação de vulnerabilidade, sobretudo quando o filme deixa o ambiente ocupar a cena sem sublinhar cada emoção. Há momentos em que Garrone confia no silêncio, na exaustão, na espera. São os trechos mais fortes, porque não parecem interessados em conduzir a reação do público. Apenas deixam a situação respirar, mesmo quando respirar já parece difícil.

O problema aparece quando a beleza das imagens começa a disputar espaço com a brutalidade do que está sendo mostrado. “Eu, Capitão” quer dar dignidade visual a seus personagens, e essa intenção é compreensível. Mas dignidade, no cinema, não precisa sempre passar por imagens grandiosas ou por uma elevação quase mítica da dor. Em alguns trechos, o filme procura uma nobreza formal que suaviza a sujeira histórica daquilo que narra. Não anula o impacto, mas desloca o incômodo. A pergunta permanece: a forma intensifica a violência ou a torna mais aceitável para quem a observa de longe?

O olhar

A discussão mais importante sobre “Eu, Capitão” não está apenas no que o filme mostra, mas no lugar de onde olha. Garrone é um cineasta europeu filmando uma rota de migração africana em direção à Europa. Isso não desqualifica a obra, mas impede que a comoção seja aceita como prova suficiente de complexidade. A jornada de Seydou e Moussa tem força dramática, porém o contexto político mais amplo aparece de modo menos espesso. O filme mostra exploração, corrupção, violência e abandono; ainda assim, concentra quase tudo na trajetória individual, como se a engrenagem pudesse ser compreendida sobretudo pela resistência de um personagem.

Essa escolha tem ganhos evidentes. Ao manter Seydou no centro, “Eu, Capitão” evita transformar a migração em painel explicativo. O filme não vira aula, estatística ou discurso. Permanece preso ao corpo de quem atravessa. Quando Seydou hesita, teme ou assume responsabilidades que não pediu, a narrativa encontra sua matéria mais convincente. A atuação de Seydou Sarr impede que o personagem vire apenas símbolo. Ele tem medo, impulso, lealdade, cansaço, contradição. Sua humanidade não está apenas no sofrimento que suporta, mas no modo como reage a ele sem compreender inteiramente a extensão da própria mudança.

A recusa do didatismo, porém, não resolve tudo. “Eu, Capitão” é politicamente urgente, mas nem sempre politicamente complexo. O filme entende a violência da travessia como experiência física e moral, mas investiga menos as estruturas que tornam esse caminho tão lucrativo para alguns e tão devastador para outros. Garrone prefere o impacto direto ao comentário estrutural. É uma opção legítima, e talvez explique parte da eficácia do filme. Mas há uma consequência: a obra comove mais do que elabora. Perturba, embora às vezes organize demais a própria perturbação.

Mesmo com essas reservas, seria injusto reduzir a força de “Eu, Capitão”. O filme tem pressão dramática, direção segura de atores e um senso de deslocamento que mantém a jornada em estado permanente de risco. Mais importante: tem um protagonista que permanece na memória não por representar uma causa, mas por carregar no rosto a passagem de uma expectativa quase infantil para uma responsabilidade desproporcional. Quando o filme se apoia nele, encontra sua melhor medida e se afasta das soluções mais previsíveis.

“Eu, Capitão” é mais forte quando não tenta transformar a travessia em imagem bonita demais, nem em lição edificante. Sua potência está no desconforto de ver dois jovens partirem movidos por um desejo legítimo e descobrir, com eles, que o mundo cobra caro de quem atravessa fronteiras sem documentos, dinheiro e proteção. Garrone faz um filme de grande impacto, mas não imune a dúvidas. A beleza que o sustenta também precisa ser examinada. É nesse atrito, entre comoção e desconfiança, que o filme encontra sua parte mais viva.



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