“Toda criança quer ser um adulto e todo adulto quer crescer para vencer e ter acesso ao mundo”, diz trecho de uma das músicas da Palavra Cantada, grupo que marcou a infância de diferentes gerações. “Todo mundo quer saber de onde vem, pra onde vai”, continua a canção. Quando o assunto são questões socioeconômicas, porém, a voz da juventude costuma ser silenciada. Apesar de dizer respeito a todos, o debate que deveria ser sinônimo de inclusão vira “papo de adulto”.
Inserção
Os problemas de desigualdade se acumulam enquanto as soluções permanecem no campo das ideias e justamente as gerações que herdarão a responsabilidade pelo futuro acabam sem espaço para participar do debate. Na contramão desse silêncio, o “Glossário Pequenos Grandes Saberes” convidou crianças e adolescentes a construírem seus próprios entendimentos sobre as vivências, percepções e conhecimentos relacionados ao racismo ambiental.
A iniciativa é da ActionAid Brasil que, em parceria com sete organizações, desenvolveu ao longo de três anos um trabalho com crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos que vivem em territórios marcados por profundas desigualdades socioambientais. O objetivo foi criar um ambiente acolhedor para que os participantes compartilhassem experiências, produzissem ilustrações e atribuíssem significados aos verbetes propostos.
Assim, “Alagamento” ganha a definição: “Tem que jogar as coisas fora porque molhou”, enquanto “Desigualdade econômica/social” aparece como “Sempre que chega uma pessoa rica na favela, acha que passamos necessidade”. Em vez de conceitos abstratos, emergem experiências concretas: a água que não chega à torneira, o esgoto que corre na porta de casa, a falta de áreas verdes e o calor extremo que dificulta estudar ou até dormir.
Pernambucanos
A publicação reúne definições e ilustrações produzidas por 350 crianças e adolescentes de comunidades de seis estados brasileiros. Desse total, 116 são pernambucanos e participaram das atividades conduzidas pela ONG Giral, uma das instituições parceiras da ActionAid Brasil.
Para o fundador da ONG Giral, Everaldo Costa, o primeiro passo foi estimular o senso crítico para que elas próprias pudessem contar suas histórias.
“Por que a população negra, indígena e outras minorias vivem sempre em periferias onde não chegam políticas públicas? Onde não há saneamento básico, onde quando chove alaga e quando não chove falta água? Onde as pessoas não têm acesso a escolas de qualidade? É nesses lugares que a violação de direitos acontece de forma direta e concreta”, contou.
Para a pedagoga e coordenadora do projeto na ONG Giral, Cristina Pereira, que acompanhou de perto as formações, a desigualdade é perceptível desde a porta de entrada.
“São inúmeras as crianças que chegam descalças às atividades enquanto veem colegas da mesma idade usando calçados. Hoje, em um mundo globalizado, onde eles têm acesso a informações e a imagens de crianças que têm acesso ao que deveria ser o mínimo”, relatou.
Legado
Mais do que um dicionário, o glossário deixa como legado a escuta. Ao transformar experiências em palavras, crianças e adolescentes mostram que também têm o direito de perguntar, interpretar e explicar o mundo ao seu redor, a sua própria realidade. Disponível gratuitamente via link, o glossário busca chegar a escolas, comunidades e organizações como uma ferramenta de diálogo sobre racismo ambiental e direitos.
