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Funk do FIUK – Revista Bula

Funk do FIUK – Revista Bula

Villa-Lobos ouviu o choro dos morros, e o choro de Anacleto, Pixinguinha, João Pernambuco, e tantos outros chorões que o aproximaram de Bach. “Orfeu Negro”, de Vinicius de Moraes, ou a versão Zé Carioca pra francês ver, situou-se no mesmo contexto, e levou Vinicius a Tom, e ambos a Palma de Ouro. O povo brasileiro sempre foi celebrado — mui merecidamente — por nossos artistas e intelectuais, e igualmente festejado nas cortes e picadeiros de além-mar desde o alvorecer de seu descobrimento — vide os primeiros tupinambás levados a Normandia em 1550 para o deleite de Henrique 2, rei da França.

Até hoje é assim, brasileiro é sinônimo de parquinho de diversão, putaria, entretenimento. Mas voltemos aos morros cariocas nas primeiras décadas do século 20. Noel Rosa também tinha o hábito de subi-los, e conheceu uma de suas amadas numa festa de São João, especula-se que o primeiro flerte tenha ocorrido no morro do Salgueiro. O autor de “Último Desejo” foi quem, afinal, deu o start para uma sucessão de encontros e trocas riquíssimas entre os janotas do asfalto e os fodidos dos barracões de zinco — até que chegamos na última década do século 20, quando aconteceu a desgraça.

Creio que, antes de inventariar o fundo do poço, e tentar explicar por que chegamos aqui completamente estropiados e sem identidade, antes de chafurdar no lodo propriamente dito, é bom inalar um pouco de ar puro, e dar vivas para algumas figuras e retratos inspiradores sem os quais não existiria resistência, e eu já teria enlouquecido. Um viva para Heitor Villa-Lobos e Mazzaropi, viva Sargentelli e Di Cavalcanti, viva Carlinhos Oliveira e Neville D’Almeida, Dona Clementina de Jesus e Rita Lee. Viva Aldir Blanc! Saravá, Pierre Barouh! Viva João Pacífico e João Rubinato e Cornélio Pires, viva a turma do Pasquim, e viva “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, viva o céu mais azul do planeta Terra, o céu do Rio de Janeiro, e um salve para as grã-finas com nariz de cadáver, viva Suassuna e também as veredas e chapadões do nosso sertão desde Mário Palmério a Lô Borges, e viva as afetações tropicais do Caetano, pois ele teria jurado ao Senhor do Bonfim que o Brasil seria/será/ e é o portador da resposta/solução, remédio e cura espiritual, antropofágica e filosófica-carnavalesca aos dilemas e doenças do resto do mundo, bem, imagino que Darcy e Glauber Rocha, ambos em transe, o subscrevessem. Eu não, mas viva Caetano mesmo assim.

Vamos lá, eu dizia que, no início dos anos noventa do século passado, dançamos: precisamente no dia em que o Caçador de Marajás recebeu a primeira safra dos prepostos do medonho brasileiro no Palácio do Planalto, neste fatídico dia abriram-se as comportas do inferno, e o país perdeu-se de si mesmo.

De lá pra cá, da parte deste povo de ioiô e iaiá abençoado por Deus, bonito por causa do Caymmi e, às vezes, pela própria natureza, em nome de um Brasil construído pelos pajés e arquitetos do passado, acabamos engolindo as gralhas paranaenses por osmose. Porque tudo que brotasse do povo alegre, bonito e acima de qualquer suspeita (tese maluca que acabou virando doutrina, verdade celestial e tropical), todas as misérias, piolhos, linchamentos, uivos, guinchos e latidos, em suma e definitivamente: tudo que fosse popular, tudo o que fosse naif e tosco — ainda que viesse do norte do Paraná — teria o álibi da intelligentsia macunaímica e, automaticamente, receberia a chancela ou a aura inquestionável da originalidade. Monteiro Lobato estava certo, a tal da antropofagia sempre foi um grande migué.

Ai, ai, ui, ui, somos quatrocentões antropófagos, banqueiros antropófagos, artistas antropófagos, herdeiros antropófagos, comunistas antropófagos, fazendeiros antropófagos, coprófagos antropófagos… ai, ai, ui, ui Sinhá é povão. Foda-se o povão! Viva o povão! Em sendo popular é divino, e é maravilhoso, logo aceita-se qualquer desaforo, e assim foi feito; um dia teria de acontecer senão pelo uso, pelo abuso: eis que em dado momento substituiu-se a beleza pela breguice e, no lugar do talento, a inclusão a qualquer custo; estabeleceu-se o orgulho da ignorância e a soberba da selvageria; e o gênio individual, pobre e fodido gênio, foi sacrificado no altar sagrado do histerismo coletivo, e assim, de uma hora para outra, passaram a imperar, na forma do direito consuetudinário e da lei, os apliques e os cílios postiços, o silicone, o acrigel e a celebração das feiuras internas e externas do povo gordo entupido de Cheetos desde a infância até a morte; bem, o que eu quero dizer é o seguinte: lá se vão quase quatro décadas, desde a subida (ou teria sido descida?) da rampa do Planalto pelos neo-sertanejos. Nesse momento triste, e epistemologicamente fatal, o Brasil, e sobretudo a classe média brasileira, e os antropófagos coprófagos também!, perderam o pudor da breguice e da feiura, resulta daí que o país, sem que se esboçasse qualquer reação, foi sequestrado pelo medonho e seus prepostos chapeludos, seus filhos & filhas & franquias e demais subprodutos — independentemente do ritmo e da região, de norte a sul, de Ciudad del Este até o Castelo da Cinderela, tanto faz se o tecno é brega ou o xote das carmelitas descalças é portador de joanetes, dá na mesma se for baião de um, de dois ou swingão, afro-reggae ou piseiro, tanto faz se é brasileiro do Paraguai ou de Miami via Brasileirinhas. É tudo fake, é funk do fiuk, tudo produto da metástase inaugurada pelos neo-chapeludos em 1990, começou ali.

A praga da breguice brasileira, independentemente do ritmo e da geografia, da ideologia e, principalmente, da estética, espalhou-se feito câncer maligno, e até hoje contamina o Brasil ou aquilo que sobrou da lembrança de um país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza.

A título de curiosidade. A supracitada praga tem um hino, uma melodia esganiçada e grudenta que inaugurou o fim do Brasil como o conhecíamos até então. Ocorreu, repito, no ano de 1990, um ano e meio antes de Collor, o impeachado, receber os medonhos no Palácio do Planalto e selar a tampa do caixão, quando a bomba atômica que atende pela alcunha de “Evidências” foi lançada sobre os cornos na pátria mãe gentil.

A cultura brasileira, e junto os brasileiros, foram sugados pelo ralo da breguice desenfreada depois de “Evidências”. “Evidências” é o marco geodésico, o aleph, a abertura e explosão da caixa, ou melhor, da fossa de Pandora, é nossa Hiroshima.

E nada mais foi, e nem será como antes, bye bye Milton Nascimento, bye bye Brasil.

Soma-se à tragédia provocada pela dupla de gralhas paranaenses mais um quarto de século de “Big Brother” ininterrupto que perdura até hoje; “Vale Tudo” se for fake, remake. Os medonhos fizeram de tudo para destruir Ary Barroso/e o destruíram. A riqueza popular virou o rancor do povo, podre por dentro e por fora, povo animalizado porém cúmplice e orgulhoso uma vez que não precisava mais ser filtrado pelo “asfalto”, ainda assim violentado e mutilado por décadas de desinformação, anestesiado pelo consumo de merda em escalas industriais, e, agora, depois da eliminação das sensibilidades todas, porque as faculdades de olhar, distinguir e escolher por conta própria foram extintas, agora reféns do final-da-picada. Um final-de-picada que vai muito além do jugo e da manipulação, verdadeiro precipício das almas: a ponto de falsificar e distorcer a imagem que havíamos projetado do país desde a “Carta de Caminha” até a subida na rampa pelos chapeludos. Era uma vez o Brasil. Em outras palavras, perdemos os parâmetros e a identidade, e todas as proporções: julga-se lindo o medonho, acredita-se “empoderado” quando nunca se esteve tão vulnerável e por aí vai, vale qualquer coisa menos encarar o reflexo no espelho; ou seja, agora que a capacidade de pensar foi extinta pelas leis de Darwin (por absoluta falta de uso), agora que brasileiro entorpecido virou a “galera”, e agora que a “galera” é moída pelas redes sociais e pelos respectivos algoritmos cuja função não é outra senão cozinhar os poucos neurônios restantes depois da lavagem cerebral, enfim, agora que os cérebros não se distinguem dos intestinos, e que uma grande parte da população transformou-se numa maçaroca de vísceras e miolos moles, agora sou obrigado a ouvir isso:

— Enfia o Tom no toba, aqui é arrocha, é piseiro.

Não eram nem sete horas da manhã no Rio de Janeiro. Eu só pedi à mocinha do caixa, muito educadamente, que abaixasse o “som” ou trocasse o “piseiro” por um Tom, quiçá um metal menos agressivo, um Black Sabbath ou coisinha do tipo. Ato contínuo, o boyceta de cabelo verde que espichava os ouvidos atrás de mim na fila do pão, e que devia estar com um tesão louco para destruir o patriarcado às sete horas da manhã, sugeriu-me que enfiasse o Tom no toba, só faltou me acusar de misógino.

Bora fazer a Buchada de Tom no Toba, galeraaaa!!!

Intestino tem ranço de alma, e como fede para cozinhá-los, eis que a alma ou o espírito brasileiro é mondongo, é lixo só, e o Brasil e seu povo que cantava e era feliz, antes vislumbrado pelos olhos verdes da mulata, agora fede a ressentimento, fanatismo e escuridão, pobre povo brasileiro deliberadamente embrutecido, cozido em praça pública no caldo do ódio, e cujos preços altíssimos cobrados pela miserável existência são três, a saber; 1. a cegueira da alma, 2. o apagamento da felicidade e 3. a inutilidade da beleza.

Em suma, o século 21 é o novo século 14 harmonizado nas quintas do inferno que se localiza na praça de alimentação do Beto Carrero — pertinho de Balneário Camboriú.

Em 1576 — notem: duzentos anos à frente de onde nos encontramos hoje — Étienne de La Boétie publicou seu “Discurso da Servidão Voluntária”. Não duvido que o fidalgo, ou o fantasma dele, tenha se projetado no renque logo atrás do boyceta de cabelo verde. Não sei se ele era um sacana ou um homem que conhecia a limitação de seus vizinhos, isso não interessa, mas o puto acertou na mosca: antecipou que o povaréu seria o mesmo dali a 500 anos, e que a servidão gratuita seria a única opção ou a parte indistinta que nos caberia (eu, tu, ele, nós, vós, eles) no arrocha/ pisadinha da fila do pão, além de enfiar o Tom no toba.



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