O amor, os conflitos familiares, as relações afetivas, os encontros e desencontros da vida. São temas universais, capazes de atravessar fronteiras e conquistar plateias de diferentes culturas. É justamente por esse caminho que o cinema francês vem ampliando seu alcance, investindo em produções que trazem comédia, romance e drama em histórias cada vez mais acessíveis, sem abrir mão de sua identidade poética.
Longe de ficar restrito a um circuito de filmes autorais e produções mais densas, o cinema da França aposta em histórias que podem dialogar com públicos acostumados aos grandes lançamentos norte-americanos. Esse movimento já pode ser acompanhado em números.
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Segundo levantamento da Unifrance, os filmes franceses somaram cerca de 42,5 milhões de ingressos vendidos fora do país em 2025, uma alta de 6% em relação ao ano anterior, incluindo participação cada vez mais expressiva da América Latina.
Parte desse interesse pode ser percebido na robustez da 17ª edição do Festival de Cinema Francês do Brasil, em cartaz em mais de 50 cidades, incluindo o Recife, até o próximo dia 11.
Entre os 21 títulos em cartaz, a reportagem destacou seis para conduzir as entrevistas com a delegação francesa que esteve de passagem pelo Brasil. Produções que vão da comédia romântica ao drama histórico.
De fato, a cinematografia francesa está conversando com públicos diferentes, incluindo um ponto em comum: mulheres fortes, que enfrentam mudanças ou precisam rever escolhas.
No filme “Bem-vindos à La Comédie-Française”, a atriz Pauline Clément apontou o desafio da produção para levar à grande tela um enredo que conta os bastidores do teatro.
“Buscamos financiamento para o que, a princípio, seria uma série, mas recusaram alegando que era 'parisiense demais'. Que o teatro interessava a pouca gente. Mas outros produtores nos deram a oportunidade, ressaltando apenas que precisávamos fazê-lo de um jeito dinâmico”, lembrou.
Já em “O Que é o Amor?”, o diretor Fabien Gorgeart resgatou o seu próprio divórcio para contar a nulidade de um casamento em tom leve e humano, mas com emoção. A atriz Laure Calamy, que protagoniza o filme, reforça: “Assim é a vida. Dependendo da posição que você vai ocupar, a mesma situação pode ser dramática ou engraçada”.
Veja o trailer de “O Beijo Elétrico”:
Extremos em uma vida comum tão bem revelados em “Compostela”, em que uma mulher e um adolescente com histórias difíceis percorrem juntos o caminho de Santiago.
Conexão humana, erros e acertos que fazem rir e chorar: “Na vida a gente também passa por alegria e tristeza. E nessa linguagem o filme se torna mais acessível, despertando nas pessoas a vontade de conhecer a história”, define a protagonista Alexandra Lamy.
“A Ilustre Desconhecida”, de Marc Fitoussi, traz uma figurante que sonha conquistar reconhecimento no cinema, reforçando ainda mais o protagonismo feminino nas narrativas.
“Gosto de oferecer papéis principais às mulheres, porque elas costumam ser mais generosas na interpretação. Acho que minha filmografia é construída a partir das atrizes que admiro e com quem gosto de trabalhar”, disse ele, que contou com duas grandes estrelas no cinema francês em cena: Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain.
Já “O Beijo Elétrico”, de Pierre Salvadori, mistura romance, farsa e espiritismo em uma Paris de 1928. Essa cidade artística e poética que o público por anos aprendeu a admirar. A obra, que tem uma belíssima fotografia, abriu o Festival de Cannes deste ano.
“É um filme que também fala sobre o bem e o mal dentro de uma mesma pessoa. Essa é uma das questões centrais da história: a possibilidade de ajudarmos e traírmos alguém em um mesmo movimento, em um mesmo impulso”, resume Salvadori.
Em outro contexto, “De Gaulle: A França Livre”, de Antonin Baudry, filme dividido em duas partes, recupera os primeiros passos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, com Benoît Magimel no papel do general Marie-Pierre Kœnig.
“Pela primeira vez, um filme me desperta essa vontade de ser patriota, essa vontade de participar”, diz o ator, reforçando ainda que o longa fala, acima de tudo, sobre humanidade e, Independentemente de uma época, quando um povo é ocupado por outro.
*O jornalista viajou a convite do Festival de Cinema Francês do Brasil
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