Nordeste Magazine
Cultura

Fim da linha para os incultos

Fim da linha para os incultos

2026 se consagrou como o ano em que a cultura virou o luxo mais cobiçado. A icônica “Tabby Bag”, da Coach, lançou uma campanha com livros usados como chaveiros, tendo Elle Fanning como garota-propaganda; Dua Lipa mantém seus encontros mensais do clube do livro; e, num mundo em que o tempo livre se torna cada vez mais escasso, escolher desperdiçá-lo com uma tarefa tão monótona quanto a leitura já parece uma forma superior de extravagância. Segundo os tendenciólogos, não há mais esperança para o adulto inculto.

Ainda assim, é possível burlar o sistema antecipando suas tendências. A primeira opção é desistir. Largar de mão continua acessível justamente porque a procura ainda é baixa, embora pouca gente pareça hoje em condições de se dar a esse luxo, especialmente com o preço do combustível do jeito que está.

O plano B é mais interessante, até porque pode ser combinado com a opção 1. A moda é cíclica e talvez retorne com força, como o recalcado, daqui a dez ou vinte anos. Quando isso acontecer, convém que alguém esteja preparado. Eis a deixa para cultivar o hábito da leitura nas crianças, essas criaturas com pouca ou nenhuma responsabilidade e, por isso mesmo, candidatas ideais a receber a pressão de serem a última esperança da humanidade. Elas precisam ler para livrar o adulto do estigma da incultura. Mas não pode ser qualquer livro.

Um dos critérios mais importantes na escolha de um bom livro infantil é o contraste entre as letras e o fundo sobre o qual se assentam as ilustrações. Afinal, o livro será lido à meia-luz, com a criança na cama, enquanto se tenta matar dois coelhos com uma cajadada só, formar um leitor e induzir o sono.

Há quem diga que os contos clássicos eram sombrios porque pretendiam moldar o comportamento infantil pelo medo, e que as adaptações modernas seriam mais eficientes. Mas a verdade é que o gosto muda com o tempo, e as versões adocicadas já não satisfazem a voracidade contemporânea por informação. Os “Irmãos Grimm” do Velho Testamento voltaram a ser digeríveis para as cabeças do século 21. Experimente não se horrorizar você também. Em tempos desesperados, afinal, medidas desesperadas costumam parecer razoáveis.

Se o assunto passar do ponto, a própria criança poderá recusar. Mais tarde, sempre será possível oferecer algo como “A História da Ciência Ilustrada”, de José Otávio Baldinato e William Souza dos Santos, livro que apresenta o desenvolvimento da teoria atômica em John Dalton e o avanço do conhecimento sobre radioatividade em Harriet Brooks, sem fugir de perguntas fundamentais, entre elas “Por Que o Ar Não Se Separa em Camadas de Acordo com a Densidade dos Componentes?”. As ilustrações são um espetáculo à parte. Não por acaso, a obra venceu o Prêmio Jabuti nessa categoria, em 2025. Parabéns aos autores.

Ao terminar a leitura, convém pedir à criança que reconte a história, mesmo que ela ainda não seja alfabetizada. Crianças adoram repetição, e o exercício amplia tanto o vocabulário quanto a capacidade de exposição. É claro que a primeira leitura precisa vir acompanhada de vozinha, cuidado com a prosódia e variações de entonação em momentos-chave, recursos cujo valor só perceberemos plenamente depois de adquirir noções básicas de narratologia.

“Umami”, por sua vez, ganhou o prêmio de ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha, em 2024. Escrito por Jacob Grant, narra a história simples de uma pinguim cansada de comer peixe cru, que parte em busca de novos sabores. Serve também para ampliar o repertório alimentar, o que nunca é assunto menor, porque alimentação e desenvolvimento andam juntos. Pensem nas crianças.

As ilustrações são o ópio do povo, o novo celular. Depois que a criança se vicia nas imagens dos livros, torna-se difícil arrancá-las dali e convencê-la a encarar livros feitos só de palavras. Por outro lado, quem domina as imagens domina a narrativa. A composição também é uma linguagem, e o quadro, ou pictograma, dificilmente distribui seus elementos ao acaso.

Crianças familiarizadas com imagens de livros talvez cresçam capazes de ler as imagens dos filmes em eixos cartesianos. O que vai da esquerda para a direita tende a parecer confortável; o que vai da direita para a esquerda, menos natural. Talvez seja por isso que o entrevistador dos talk shows costume ocupar a direita do enquadramento, uma forma de deferência ao entrevistado. A diagonal que desce da esquerda superior para a direita inferior parece contar com a ajuda da gravidade; a direção contrária sugere esforço. Há também os dados geométricos, o retângulo como abstração humana, signo de uma saída do natural rumo ao artificial, em contraste com formas mais orgânicas, mais livres, próximas da proporção áurea. Triângulos pontiagudos, círculos suaves.

Existe aí um saber intuitivo que se perde à medida que a atenção passa a ser exigida pelos compromissos sociais, mais orientados para a sobrevivência do que para a brincadeira com as aparências. É esse jogo que faz do menino o pai do homem. Dificilmente um bebê trocaria uma caixa de papelão por uma bolsa com um livro pendurado. A esperança vai ficando onde sempre ficou, no que ainda mexe antes do resto.



Fonte

Veja também

Filme poderoso e inspirador mostra que os verdadeiros heróis são aqueles que escolheram o lado certo da história, na Netflix

Redação

No Prime Video, um jantar de luxo vira um massacre psicológico

Redação

O filme mais hilário que você vai assistir hoje e que vai melhorar seu humor instantaneamente, na Netflix

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.