Categories: Cultura

Ficção científica no Prime Video vai te fazer pensar duas vezes antes de mexer no celular

Existe um gênero à parte dentro da ficção científica russa contemporânea: o blockbuster patriótico que se fantasia de crítica ao imperialismo alheio enquanto reforça, sem pudor, o seu próprio. “Incursão Alienígena”, de Fedor Bondarchuk, continuação direta de “Atração”, é o exemplo mais vistoso dessa tendência. Em sua superfície de titânio, ele é um espetáculo de explosões, naves monumentais e sequências militares que parecem ter sido coreografadas com a precisão de um desfile do Dia da Vitória. Mas, no subtexto, revela um mundo onde o inimigo externo serve ao mesmo objetivo de sempre: unificar a nação sob o comando daqueles que já a governam.

A narrativa segue Yulia, agora portadora de habilidades alienígenas que a transformam numa espécie de heroína híbrida, metade humana vulnerável ao amor, metade ser superior destinado a salvar a Terra. Só que, veja bem, “a Terra” aqui se concentra quase exclusivamente no território russo; o restante do planeta é uma plateia que aplaude ou atrapalha. O suposto romance com Hijken, o extraterrestre desinteressado em política, tenta dar ao filme uma camada emocional. Mas o sentimento é frequentemente sufocado pela necessidade de reafirmar quem realmente manda no jogo geopolítico interplanetário.

Bondarchuk não esconde a intenção de transformar Moscou em capital universal da resistência, e faz isso com orgulho militar. Tanques, helicópteros e tropas armadas tomam o papel de personagens coadjuvantes, reafirmando que a humanidade se defende não pelo afeto, mas pela força organizada do Estado. A mensagem é cristalina: sem o uniforme, somos poeira. Com ele, somos a última fronteira contra o caos.

O visual, é preciso reconhecer, impressiona. Há algo quase sedutor na maneira como a câmera transforma destruição em espetáculo: prédios desmoronam em ritmos elegantes, drones voam em formação como se dançassem para o Kremlin, e a cidade se torna um campo de batalha estilizado, onde ninguém sua, apenas brilha sob luzes azuis. É cinema que acredita na superfície, e, ao acreditar tanto, a transforma em ideologia.

Mas “Incursão Alienígena” quer ser mais do que propaganda. Em seus melhores momentos, pergunta o que significa ser humano quando o contato com o desconhecido exige transcendência. Yulia, dividida entre dois mundos, é também o retrato de um país que se imagina elevado acima dos demais, mas inseguros o bastante para exigir provas constantes de poder. É por isso que o melodrama nunca é apenas melodrama: ele serve para justificar armas cada vez maiores ao fundo do quadro.

O filme, porém, tropeça quando tenta conciliar discurso emocional e ordem militar. A todo instante, cenas que poderiam aprofundar personagens são interrompidas por alarmes, sirenes, comandos. A urgência do combate rouba o ar para qualquer intimidade verdadeira. O próprio amor, claro, é requisitado como ferramenta tática: amar, aqui, é querer lutar pelo seu soberano.

E então chegamos ao dilema final: se há vida além das estrelas, qual humanidade vale a pena defender? A resposta do filme é simples, e assustadora: vale defender aquela que já está instalada no poder. Os alienígenas podem ser melhores, mais evoluídos, mais conscientes. Mas a salvação só terá sotaque russo.

“Incursão Alienígena” é um blockbuster eficiente, visualmente ambicioso e dramaticamente ruidoso. Ao mesmo tempo, é um lembrete sofisticado, talvez involuntário, de como a ficção científica pode servir de verniz para velhas certezas nacionalistas. Se o mundo acabar amanhã, tudo bem: as tropas já estão prontas, as luzes já estão ligadas e o hino já está ensaiado.

O problema é quando o filme termina e percebemos que a verdadeira invasão não vem do espaço. Ela vem das telas, com bandeiras tremulando, pedindo que aplaudamos o espetáculo, e finjamos que ele é universal.

Filme:
Incursão Alienígena

Diretor:

Fedor Bondarchuk

Ano:
2020

Gênero:
Ação/Ficção Científica

Avaliação:

7/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

Morre Eric Dane: entenda a ELA, doença contra a qual estrela de “Grey’s Anatomy” lutava desde 2025

O ator Eric Dane, conhecido por seus papéis na série "Grey's Anatomy" e em "Euphoria",…

24 minutos ago

Turismo religioso cresce no Paraná e fortalece economia regional

O turismo religioso no Paraná segue em expansão e consolida a Rota do Rosário como…

31 minutos ago

Minidólar (WDOH26): rompimentos ganham peso com agenda nos EUA

Os contratos de minidólar (WDOH26), com vencimento em março, encerraram a última sessão (19/02) em…

52 minutos ago

Como milhões de indianos estão presos em uma forma moderna de escravidão em pedreiras de arenito

Milhões de trabalhadores de pedreiras de arenito na Índia, particularmente no estado do Rajastão, que…

1 hora ago

ATR encerra 2025 com 60 pedidos de aviões

ATR fecha 2025 com US$ 1,2 bilhão em receita, 60 pedidos brutos, 32 entregas e…

2 horas ago

Reuniões cansativas e pouco produtivas? Veja dicas de gestão para melhorar isso

Reuniões são necessárias, mas objeto de muitas críticas das equipes, por serem muitas vezes longas…

2 horas ago