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“Fake-Persona”: Exposição de Jeanine Toledo retrata identidades e representações no ambiente digital

“Fake-Persona”: Exposição de Jeanine Toledo retrata identidades e representações no ambiente digital


Num tempo em que imagens surgem e desaparecem em questão de segundos, a artista visual Jeanine Toledo decidiu seguir o caminho contrário.


Em vez de deslizar o dedo pela tela, ela parou para observar. Em vez de consumir a superabundância de imagens e representações, passou a pintá-las.


O resultado é “Fake-Persona”, exposição que abre nesta quinta (11), na Cecí Galeria, bairro das Graças, reunindo 75 pinturas em acrílica que nasceram de uma pesquisa desenvolvida durante seu mestrado em Portugal.


A mostra tem origem em um mergulho no universo dos aplicativos de relacionamento durante os anos de isolamento provocados pela pandemia.


Ao observar perfis masculinos no Tinder português, a artista se deparou com uma galeria involuntária de personagens: cachorros, cavalos, corujas, paisagens, objetos, blocos de cor e, em alguns casos, os próprios usuários. As imagens revelavam a formas de encenação do desejo e da identidade na era digital.


“Eu comecei a observar como as pessoas, no geral, nas redes sociais e nos aplicativos, se apresentavam no mundo”, conta Jeanine. O que mais chamou sua atenção foi a distância entre as imagens e as narrativas construídas pelos usuários.


“Às vezes, a imagem era contraditória com o próprio texto. Quando você encontrava a fotografia de um jegue, havia um texto melancólico dizendo: ‘quero um amor, quero um relacionamento sério’”.




Entre a invenção e a máscara

O título da exposição sintetiza dois conceitos que atravessam a pesquisa. Para Jeanine, existe uma diferença entre o perfil completamente falso e a representação simbólica criada por quem prefere não se mostrar diretamente.


“Quando aparece um cachorro, uma coruja ou um violino, eu não digo que é fake. Eu digo que existe uma persona. É uma representação construída para ocultar ou substituir quem está por trás da tela”, explica.


Sem interagir com os usuários observados, a artista reuniu imagens e descrições, organizando padrões recorrentes e transformando esse material em pintura.


O trabalho acabou extrapolando os limites dos aplicativos de relacionamento para refletir sobre um fenômeno mais amplo: a fabricação cotidiana de identidades nas redes sociais.


A lentidão como gesto de resistência

Embora a pesquisa tenha nascido no ambiente digital, a pintura foi escolhida justamente por oferecer outra experiência de tempo. “A pintura desacelera. Ela desacelera para você poder fazê-la e desacelera também quem olha”, afirma a artista.


Essa mudança de ritmo também orienta a montagem da exposição. As obras aparecem reunidas em um grande campo visual, onde textos, animais, retratos e paisagens se misturam, reproduzindo a sensação de excesso típica da vida conectada.


Para o mediador da mostra, Luiz Amorim, o interesse está menos nos indivíduos retratados do que no comportamento coletivo revelado pelo conjunto.


“Não é a identificação do sujeito que comanda o que está aqui, mas o fenômeno como um todo. É como esse conjunto de indivíduos se apresentam, se representam e se colocam à percepção do outro nesse jogo do desejoso, do desejante.”


Segundo ele, a montagem busca reproduzir a experiência digital, que possui uma lógica diacrônica, acontecendo tela por tela, dentro de um espaço físico, que opera em uma lógica sincrônica. “Ali, todas as imagens aparecem ao mesmo tempo.”


Ao reunir fragmentos de perfis, frases, desejos e fantasias, “Fake-Persona” constrói um retrato da contemporaneidade marcado pela superabundância de imagens e pela instabilidade das relações.


“Essa representação é praticamente uma síntese do que a gente está vivendo”, diz Jeanine. “É um embaralhamento desse mundo solapado por imagens e textos.”


Entre humor, estranhamento e reconhecimento, a exposição convida o visitante a percorrer um labirinto de máscaras digitais. E quem está realmente do outro lado da tela? Ou, talvez mais importante, quem escolhemos ser quando sabemos que estamos sendo observados?


SERVIÇO

Exposição “Fake-Persona”, de Jeanine Toledo

Abertura: Quinta (11), às 18h

Onde: Cecí Galeria – Rua do Futuro, 858/Sala 7 (1º andar), Graças – Recife-PE

Visitação: até 10 de julho de 2026

Funcionamento: de segunda a sexta das 15h às 18h

Entrada gratuita

Instagram: @ceci_galeria

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