“O Mistério da Felicidade” tem um título que aponta para uma investigação, uma pista escondida, talvez uma revelação capaz de mudar a leitura de tudo. O filme de Daniel Burman, porém, não se sustenta como suspense nem parece muito interessado em cumprir essa promessa. O desaparecimento de Eugenio, sócio e melhor amigo de Santiago, é menos um enigma policial do que uma falta instalada no meio da vida dos outros. A força do longa nasce dessa mudança de eixo. Seu limite também. Quando observa o vazio deixado por alguém, o filme encontra um bom assunto; quando precisa encarar as consequências morais desse vazio, prefere uma leveza que nem sempre basta.
Santiago, interpretado por Guillermo Francella, e Eugenio, vivido por Fabián Arenillas, são amigos e parceiros de trabalho há décadas. Dividem uma empresa, uma rotina, uma intimidade feita de hábitos antigos e uma comunicação que já não precisa de grandes explicações. Eles se conhecem nos gestos, nos silêncios, nos automatismos de quem passou tempo demais ao lado do outro. Há algo de casamento simbólico nessa parceria, uma convivência tão estável que a amizade começa a se confundir com dependência. Quando Eugenio desaparece sem deixar pistas, Santiago não perde apenas um amigo. Perde uma engrenagem essencial da própria identidade. A busca por ele o aproxima de Laura, mulher de Eugenio, interpretada por Inés Estévez, e o filme passa a se mover num terreno mais ambíguo do que a premissa indicava.
O que interessa em “O Mistério da Felicidade” não é localizar Eugenio rapidamente, mas perceber o que sua ausência permite vir à tona. Santiago se vê obrigado a existir sem a metade que organizava sua rotina profissional e afetiva. Laura, por sua vez, fica presa a uma situação difícil de nomear: precisa lidar com o abandono, com a incerteza e com a presença cada vez mais íntima do melhor amigo do marido. A aproximação entre os dois poderia soar apenas como conveniência dramática, mas o filme melhora quando deixa essa relação respirar entre culpa, carência e desejo. Não há escândalo anunciado em voz alta. Há desconforto. E esse desconforto é mais interessante do que o mistério prometido.
Menos mistério
Como história de investigação, o filme é frágil. Burman e Sergio Dubcovsky constroem a narrativa a partir de um desaparecimento, mas não tratam esse ponto como fonte de tensão contínua. As pistas, os deslocamentos e as descobertas importam menos do que as reações de Santiago e Laura. A escolha faz sentido. Ela afasta o filme de uma engrenagem de suspense mais previsível e o aproxima de uma comédia dramática sobre adultos obrigados a reorganizar afetos. O problema é que, ao deixar o mistério em segundo plano, “O Mistério da Felicidade” precisa sustentar sua força na observação emocional. Consegue em parte. Em outra, suaviza demais os impasses que apresenta.
A direção de Burman prefere a fluidez, às vezes até o conforto. O filme se aproxima de uma comédia dramática adulta, com traços de romance e humor de comportamento. Não há interesse em transformar Santiago num herói da lealdade, nem num homem esmagado por uma tragédia íntima. Ele é mais comum e, por isso, mais reconhecível. Tem hesitações, vaidades discretas, certa ingenuidade e uma melancolia que aparece sem pedir licença. Guillermo Francella entende bem esse registro. Sua atuação evita tanto o excesso cômico quanto a gravidade impostada. Santiago pode ser engraçado sem virar caricatura; pode sofrer sem reivindicar grandeza. É nele que o filme encontra boa parte de sua humanidade.
Inés Estévez também impede que Laura seja reduzida a uma função de roteiro. Ela poderia ser apenas a esposa abandonada, a parceira da busca, o possível interesse amoroso. A atriz, no entanto, dá à personagem uma presença mais instável e, por isso, mais viva. Laura não parece simplesmente à espera de uma resposta. Ela observa, calcula, aproxima-se, recua, protege-se. Essa ambiguidade é essencial, porque a relação com Santiago só funciona quando conserva algo de impróprio. Os dois são unidos pela falta de Eugenio, mas também pela possibilidade, quase vergonhosa, de imaginar uma vida sem ele. O filme percebe essa tensão, embora nem sempre aceite levá-la até um ponto mais áspero.
Mais afeto
A delicadeza de “O Mistério da Felicidade” é sua qualidade mais evidente e seu problema mais persistente. O filme tem charme porque não pesa a mão. Acompanha adultos em crise sem transformar cada gesto em confissão definitiva. Permite que o humor apareça nos embaraços, nos deslocamentos, na maneira como pessoas maduras também se comportam de modo confuso diante do desejo. Há uma leveza agradável nessa condução, e ela ajuda o ritmo. O longa não parece inflado por ambições que não tem. Seu território é doméstico, afetivo, quase cotidiano.
Mas essa mesma leveza reduz o alcance da obra. O desaparecimento de Eugenio cria uma situação moralmente espinhosa: o melhor amigo e a esposa do homem ausente passam a dividir uma intimidade que nasce da procura por ele. Isso poderia render uma comédia dramática mais amarga, menos conciliadora, mais disposta a encarar a mistura de lealdade e traição que atravessa a história. Burman prefere amortecer os choques. A culpa aparece, mas não machuca muito. O desejo surge, mas raramente desorganiza tudo. A amizade é abalada, mas o abalo logo encontra uma forma aceitável de acomodação.
Essa contenção não elimina o interesse do longa, mas impede que ele permaneça com mais força depois da sessão. “O Mistério da Felicidade” funciona melhor quando sugere que a vida de Santiago estava excessivamente ligada à de Eugenio. A empresa, os hábitos e a cumplicidade entre os dois formavam um sistema fechado. Sem o amigo, Santiago descobre não só uma perda, mas uma pergunta incômoda sobre si mesmo: havia autonomia por trás daquela parceria? Laura enfrenta dilema semelhante. Sem o marido, precisa distinguir espera de paralisia, fidelidade de costume, luto de sobrevivência. O filme toca nessas questões com inteligência suficiente para fugir da banalidade, embora não avance o bastante para transformá-las em conflito duradouro.
Há ainda um dado curioso na maneira como o longa trata a felicidade. O título poderia empurrar a história para uma conclusão edificante, como se houvesse uma fórmula simples para recomeçar. Felizmente, “O Mistério da Felicidade” evita essa armadilha mais óbvia. Ainda assim, aproxima-se de uma conciliação confortável. A felicidade aparece menos como descoberta luminosa do que como rearranjo possível depois de uma ruptura. A ideia é boa. O roteiro, porém, tende a organizar esse rearranjo com excesso de simpatia, como se as escolhas dos personagens pudessem ser absorvidas sem grandes danos.
Mesmo com essas reservas, o filme tem consistência. É bem conduzido, mantém ritmo agradável e se apoia em intérpretes capazes de dar espessura a situações simples. Burman demonstra habilidade para observar relações adultas sem reduzi-las a frases prontas. Seu olhar é generoso, e essa generosidade permite que Santiago e Laura sejam falhos sem se tornarem antipáticos. O risco é que a mesma generosidade proteja demais os personagens. Em alguns momentos, falta ao filme deixar o desconforto permanecer mais tempo em cena.
“O Mistério da Felicidade” não entrega um grande mistério, nem uma leitura especialmente aguda sobre amor ou amizade. O que oferece é mais modesto: uma comédia dramática de boa fluência, sustentada por atuações precisas e por uma premissa afetivamente fértil. Seu melhor achado está em tratar a ausência como força ativa, capaz de revelar dependências, desejos e pequenas covardias. Seu maior limite está em preferir o aconchego quando a história pedia um pouco mais de risco. Ainda assim, dentro da escala que escolhe, é um filme simpático, adulto e honesto em sua delicadeza.
