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Entre ruídos, memórias e corpos impossíveis, Procurando Kalu dança com outros mundos

Entre ruídos, memórias e corpos impossíveis, Procurando Kalu dança com outros mundos


Entre grunhidos de guitarras, sintetizadores e uma poética que recolhe fragmentos de lembranças pelo caminho, a banda cearense Procurando Kalu apresenta “Dançaremos Furta-Cor com Outros Mundos”, seu segundo trabalho de estúdio.


Lançado em maio, de forma independente, o trabalho reúne dez faixas que expandem o universo artístico construído pela banda cearense ao longo dos últimos anos, combinando música, performance e narrativas que atravessam corpo, território e memória.




Formado entre Sobral e Fortaleza, o grupo apresenta dez faixas que atravessam rock, pós-punk, música eletrônica, pop e experimentação sonora. O resultado é um trabalho que reafirma a identidade da banda dentro do art rock brasileiro e amplia as fronteiras de uma narrativa construída há mais de uma década.


“Quando a gente viu a definição de art rock, a gente se apegou a ela porque ela dá realmente essa possibilidade de interseccionar linguagens artísticas”, afirma Zeca Kalu, vocalista da banda.


“A gente sobe no palco nessa energia de explosão, de corpo, de poesia, de performance, de cena, de figurino. Então estamos misturando todas essas linguagens dentro de uma coisa.”


Art rock nascido do sertão

Embora dialogue com referências internacionais do rock experimental, a Procurando Kalu finca suas raízes num Ceará raiz. A banda surgiu em Sobral, cidade do norte do estado, distante dos grandes centros culturais, e carrega para a sua música elementos da cultura popular nordestina, do teatro de rua, das figuras míticas e das narrativas sertanejas.


“Trazer as narrativas do Ceará e do Nordeste para dentro da banda é fundamental para a gente”, diz Zeca. “A gente pode manusear esses conceitos nordestinos dentro do nosso próprio olhar, da nossa própria sonoridade.”


Essa relação entre território e invenção também é reconhecida por Fernando Catatau, líder da banda Cidadão Instigado e convidado especial na faixa “Quase Vidro”.


Para ele, um dos méritos da Procurando Kalu está justamente na capacidade de transformar sua origem em linguagem artística. “Essa galera traz Sobral e o Ceará bem marcados no som. Você se mostra muito real e isso naturalmente passa para as pessoas”, observa o músico.


Mais do que ocupar um lugar dentro da tradição da música cearense, a banda prefere habitar uma espécie de margem criativa. “Nós criamos nosso próprio lugar”, resume Zeca. “Negociamos menos fronteiras porque assumimos que nosso lugar é outro.”


O encontro com Buhr

Se o disco é atravessado por muitas vozes, uma delas ocupa papel decisivo em sua gestação: a de Buhr.


O encontro aconteceu em 2023, durante o Laboratório de Criação em Música da Escola Porto Iracema das Artes. O que começou como um processo de pesquisa logo se transformou em convivência artística intensa. Durante sete meses, banda e artista compartilharam ensaios, viagens, histórias, experimentações e composições.


“Foi muito mais uma colaboração artística do que qualquer outra coisa”, conta Zeca. “A gente entrava na sala, ficava tocando junto, saía para conversar, trocava ideias. Nunca teve uma relação professor-aluno.”


A parceria deixou marcas profundas no álbum. Buhr participa diretamente das faixas “Coração Diamante” e “Estilhaço”, mas sua presença ecoa também nos processos criativos, nos arranjos e na própria atmosfera do disco.


A convivência e identificação rendeu, inclusive, uma simbiose tão grande ao ponto de parte da banda ter gravado no disco de Buhr, “Feixe de Fogo”, e ter integrado, agora, a sua banda, em turnê do álbum.


Essa dimensão coletiva aparece em toda a construção sonora da obra. Diferentemente de processos fragmentados ou guiados por demos individuais, as canções nasceram do encontro simultâneo dos integrantes em estúdio. Letras foram alteradas durante gravações; arranjos surgiram de improvisos; ideias circulavam entre todos.


“Nunca fez sentido para a gente criar separado”, afirma Zeca. “Quando a gente se encontra, a energia sobe. É como fazer comida de domingo: a panela está fervendo e todo mundo está falando ao mesmo tempo.”



Kalu, o corpo impossível

O novo álbum também aprofunda a mitologia que acompanha a banda desde“Kalu Parado Frente ao Corpo”, lançado em 2022.


Quem é Kalu? Esta figura tornou-se uma espécie de entidade dramatúrgica que organiza as narrativas do grupo. Sem gênero definido, sem forma fixa e sem limites corporais, a figura funciona como guardiã das memórias e das histórias que atravessam as canções.


“Kalu é um espectro de nós mesmos”, explica Zeca. “É uma forma de unificar esse caos de pessoas criando ao mesmo tempo. É uma figura que vai catando os cacos da memória para que as histórias não sejam esquecidas.”


Interpretado pelo performer Felipe Castro, tanto na capa do álbum como nas apresentações ao vivo, Kalu é apresentado como um ser mutável, uma criatura que pode ganhar novos braços, chifres, cabeças ou qualquer outra forma necessária para contar uma história.


“Kalu é um corpo impossível”, define o vocalista. “Pode ser qualquer pessoa e qualquer coisa.”


Em “Dançaremos Furta-Cor com Outros Mundos”, a memória não aparece como arquivo estático, mas como matéria em movimento.


As canções avançam entre afetos, ruídos, imagens e personagens, costurando um percurso em que o sertão, a cultura popular, a experiência coletiva e a experimentação sonora convivem sem hierarquias.


É nesse trânsito permanente entre o passado e a criação de mundos que a Procurando Kalu encontra sua forma mais potente de contar histórias.

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