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Entre o pedestal e o botequim: seria Vinicius de Moraes nosso Castro Alves contemporâneo?

Entre o pedestal e o botequim: seria Vinicius de Moraes nosso Castro Alves contemporâneo?

Meu pai tem alma de poeta. Declamador, daqueles que sabem poesia de cor, que recitam com aquela voz pausada e grave de quem sabe exatamente onde a emoção vai pegar. Quando criança, achava o máximo, me sentia em um sarau particular quando ele recitava poesias no lugar das tradicionais histórias de dormir. À medida que fui crescendo e me tornando aquela típica leitora de prosa, que prefere a frase longa à linha curta, virei um problema doméstico. Ele nunca desistiu; até hoje manda poemas pelo WhatsApp com uma regularidade que só pode ser descrita como missão evangelizadora. O diagnóstico dele é falha de caráter. Concordo, porém, sem qualquer intenção de me corrigir.

Foi numa conversa há poucos dias que ele me contou sobre um trabalho que fez durante a Faculdade de Letras, décadas atrás: um paralelo entre Castro Alves e Augusto dos Anjos. Dois poetas que viveram pouco, sofreram muito e morreram novos. Enquanto Augusto dobrava tudo para dentro (a dor virava verme, carbono e amoníaco), Castro Alves explodia para fora. O mesmo século, o mesmo sofrimento, temperamentos radicalmente opostos. Um sussurrava para o abismo; o outro gritava para a plateia, de preto, cabeleira ao vento, com uma voz que desorganizava saraus inteiros.

Guardei essa imagem e, algumas horas depois, ela voltou com um desdobramento que meu pai não havia previsto. Porque, se Augusto dos Anjos é o avesso de Castro Alves, existe no tempo um espelho, com nome, nove casamentos e uma garrafa de uísque na mesa.

Castro Alves era o que hoje chamaríamos, sem cerimônia, de um fenômeno. Bonito demais, e isso não é um detalhe, porque a beleza física era parte ativa da lenda, registrada por seus contemporâneos com aquela admiração ligeiramente constrangida de quem não sabe se está diante de um poeta ou ator. Carismático, voz possante, um senso de presença que reorganizava a atenção de qualquer ambiente.

Mas o que me interessa não é apenas o carisma, e sim a consciência do personagem. Castro Alves se vestia de preto para declamar e não era descuido, era direção de cena. Declamava de memória, sabia onde pausar o ritmo para arrancar o encantamento da plateia. Era quase um ator de si mesmo, num Brasil que mal tinha imprensa cultural estruturada, e já era, na época, uma celebridade. Um de seus biógrafos registra, com certa ironia, que as plateias estavam frequentemente mais encantadas com a beleza física e a oratória do que com o conteúdo dos versos, o que significava, imagino eu, que o poeta incendiava salões escravocratas com poemas abolicionistas e a elite aplaudia de pé sem processar uma linha. A causa entrava pela porta dos fundos, embrulhada em metáforas e boa aparência.

Na vida pessoal, a mesma intensidade: Eugênia, Idalina, Leonídia, a cantora italiana que não correspondeu: amores em série, cada um com nome e poema dedicado, vividos com aquela urgência de quem, consciente ou não, sabe que o tempo é curto. Morreu aos 24 anos, um livro publicado, um pé amputado sem anestesia, um poema épico inacabado. Uma lenda intacta e sem arranhões, congelada no auge como só a morte prematura sabe fazer.

Eis o problema, ou a fortuna, dependendo do ponto de vista: ele parou cedo demais para acumular defeitos visíveis. A chama apagou antes de virar brasa.

Aqui, preciso fazer uma distinção que parece óbvia, mas não é. Existem poetas que escrevem sobre sentimentos, e existem poetas que encenam os sentimentos da própria vida. Transformam a existência em narrativa e fazem da biografia matéria estética tão ou mais interessante que a obra escrita. Castro Alves pertencia ao segundo grupo. Vinicius de Moraes, também.

Não estou falando de poesia; os projetos são diferentes, as épocas não se comparam e qualquer professor de literatura me olharia torto se eu tentasse aproximar o condoreirismo da bossa nova. Estou falando do tipo humano, do arquétipo, do molde. Aquele homem que transforma escândalo em charme, que vive em público sem pedir desculpa, que faz da própria existência espetáculo e, ainda assim (ou por isso mesmo), é adorado.

Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes começou a vida como militante católico cheio de freios morais, e terminou boêmio convicto, devoto do candomblé, hippie nas areias de Itapuã, expulso da diplomacia pelo AI-5 por comportamento inadequado (decreto que ele disse que mandaria emoldurar se tivesse em mãos, já que ser chamado de “vagabundo” pela ditadura militar era, a seu ver, o maior elogio possível). Há uma coerência torta e perfeita nessa trajetória: o homem foi se tornando mais ele mesmo a cada década, sem moderação e nenhuma desculpa.

No meio do caminho, nove casamentos. Não, não estou falando de Fábio Júnior. Nove casamentos, com nomes, histórias e poemas. A primeira durou onze anos, casaram-se por procuração enquanto ele estudava em Oxford, detalhe romanesco que a maioria das pessoas não teria coragem de inventar numa ficção por parecer exagerado. As seguintes foram chegando, algumas 40 anos mais novas, cada ruptura gerando versos, cada novo amor gerando mais versos. Era, segundo seu biógrafo José Castello, um “estrategista do coração”, alguém que buscava em cada relação não apenas uma mulher, mas uma transformação radical da própria existência. Romântico? Irresponsável? As duas coisas, com muito uísque.

Porque o uísque é parte do mito também. Vinicius disse, com toda a seriedade, que “se o cachorro é o melhor amigo do homem, então o uísque é o cachorro engarrafado”. Essa sempre foi minha frase preferida do Poetinha. No final da vida, diabético, os médicos mandaram trocar o malte pelo vinho branco, recomendação que ele obedeceu de má vontade. Reza a lenda que Vinicius chegou a fugir do hospital, algumas vezes, para encontrar os amigos nos bares do Rio. Suspeito que a lenda ainda tenha suavizado a verdade.

Quando começou a fazer shows com Toquinho, Vinicius fez algo raríssimo para um poeta consagrado: transformou-se em cantor de bar itinerante, levou a poesia para dentro do botequim, sentou-se diante da garrafa no palco como quem diz que não há separação entre a vida e a obra, entre o homem e o verso. O palco era o centro, assim como havia sido para Castro Alves décadas antes, em saraus do Império.

O arquétipo sobreviveu, só que adaptado ao século. Castro Alves viveu no último momento histórico em que o poeta ainda poderia ser tribuno moral, herói romântico nacional. Era o século 19, e o poeta ainda cabia nesse papel, ainda tinha essa grandeza social disponível para ocupar. Vinicius chegou quando esse espaço havia fechado. O século 20 não tinha mais lugar para o poeta-tribuno, mas tinha para outra coisa: o boêmio carismático, o letrista popular, a figura adorada de bar e palco. Vinicius ocupou exatamente esse lugar (o que restou para esse tipo de personalidade em outro tempo).

Se este texto fosse um ensaio acadêmico, cabia, agora, o seguinte subtítulo: “uma teoria sobre mitos — levada a sério pela metade”. Existe uma ideia, que aparece em várias tradições de estudo da mitologia e que vou usar aqui de forma levemente “gauche na vida” (porque é meu ensaio e eu posso) de que o herói mítico precisa de uma jornada completa para se tornar lenda. Não basta a façanha; precisa da queda, da contradição, do excesso, da humanidade crua aparecendo nas bordas da grandeza. É o que torna um herói real no imaginário coletivo: não a perfeição, mas a mistura desconcertante de sublime e ridículo que faz a gente reconhecer ali algo verdadeiro sobre a condição humana.

Castro Alves teve a façanha. Teve a causa, a beleza, o talento, a tragédia, porém, não teve tempo de ter a queda visível, o excesso documentado. A morte prematura o preservou numa pureza que a vida, se continuasse, certamente teria complicado. Ele é o herói no auge: congelado antes do capítulo que começaria a errar de formas interessantes.

Vinicius teve a jornada inteira. O jovem cheio de certezas religiosas que virou boêmio sem religião, mas com candomblé (talvez pela estética dos ritos). O diplomata expulso pela ditadura por viver demais. O homem que se casou nove vezes não por fracasso, mas por excesso de crença no amor. Teve a façanha e a queda e a redenção cômica e a velhice com garrafa na mão.

Por isso Castro Alves é monumento, solene, de bronze, estudado na escola com aquela reverência dedicada aos que não podem mais decepcionar alguém. Já Vinicius é compadre. Todo mundo que leu algum de seus versos sente que o conhece de verdade, que sabe como ele era e que teria gostado dele numa mesa de bar. Ninguém brinda para Castro Alves numa sexta à noite; para Vinicius, sim. Com uísque, de preferência.

É a diferença entre a chama apagada no auge e a brasa que foi até o fim. Dois destinos possíveis para o mesmo molde, e nenhum melhor que o outro, apenas maneiras diferentes de virar eterno. Castro Alves é lembrado pela obra. Vinicius, pela obra e pela vida. Mito em dose dupla (vou me segurar, este texto já está etílico o suficiente).

Quando penso nisso tudo, sinto uma vontade de correr e contar esses pensamentos soltos a meu pai agora mesmo. Ele ficaria feliz, não pela qualidade da teoria, que é bastante duvidosa, mas porque a conversa com ele, de poucos dias atrás, foi o ponto de partida. Ele abriu a porta e eu atravessei e fui um pouco mais longe. É exatamente o que acontece quando você passa anos mandando poesia para uma filha que prefere prosa: eventualmente, alguma coisa pega. Não a poesia em si, essa falha continua intacta, mas a forma de olhar para os poetas. O interesse pelo tipo humano que eles encenam, pela vida que levam além dos versos. O que me leva à pergunta que não sai da minha cabeça desde nossa conversa: se Castro Alves tivesse vivido mais, teria virado Vinicius? Teria saído do pedestal e virado gente? Teria trocado a eternidade solene pela eternidade afetiva, com defeitos inclusos, uísque na mão e um decreto emoldurado na parede?

Não sei. E suspeito que seja melhor assim. Parte do que faz Castro Alves ser Castro Alves é justamente essa suspensão: a lenda que não precisou se provar por décadas, que ficou ali, ardente e intacta, como uma promessa que a história não cobrou. E Vinicius, bem, foi cobrado. E pagou; com juros, versos e amores mal resolvidos.

Os dois são eternos, de jeitos completamente diferentes. E a única certeza que tenho é que meu pai, quando ler isso, vai me encaminhar, pela milionésima vez, o vídeo do Paulo Autran declamando “Navio negreiro”. Provavelmente na esperança de que, dessa vez, eu escute com atenção. Ele nunca desiste. Eu nunca converto. E está tudo bem assim, não é mesmo, pai?

Para Carlos José de Castro,

meu pai.

Que me contou histórias antes de dormir, que me deixava correr em livrarias quando criança e escolher o que quisesse, que colocou “Dom Casmurro” nas mãos de uma menina de dez anos sem nenhum aviso do que aquilo faria com ela.

Se hoje escrevo, a culpa é sua.



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