Eduardo Dussek está amando. Aos 72 anos, convivendo com o Parkinson há 12, o cantor compositor relevou que vive um grande amor, mas se apressa em dizer que “não é monogâmico”. Em entrevista ao videocast ‘ Conversa vai, conversa vem’, no ar nos canais do GLOBO no Youtube e no Spotify, o artista brinca sobre sua sexualidade, lembra os anos 1970, regados à sexo drogas e rock and roll, e esbanja bom humor ao falar sobre as dificuldades e aprendizados que acumula lidando com o Parkinson. Leia etrecho:
Você morou naquela famosa República da Álvaro Ramos, em Botafogo no Rio, com Luiz Fernando Guimarães, a turma do Asdrúbal Trouxe o Trombone… Foi muita loucura aquela época? Como era a sua relação com drogas…
Foram muitas doideiras, consequentes e algumas inconsequentes. Usei bastante, mas não a ponto de me destruir ou perder a noção da minha atitude. Tudo era “quer uma carreirinha?” Comecei a ficar nervoso com aquilo. Fiz algumas vezes, gostei, mas não aconselho pra ninguém. Escolhi o trabalho, que me dá essa função que a droga tem de me extrair da realidade. O quadro me dá isso. Me dá muito mais sem gastar dinheiro, sem extrair a minha saúde.
Uma vez, você disse “aqui em casa só tem closet”, quando te perguntaram quando sairia do armário. Achava chato a chato quererem saber sua orientação sexual?
Essa nitidez da sociedade eu derrubo muito, não gosto. Todo mundo pegava todo mundo. Quando vou transar com alguém, não fico perguntando o sexo da pessoa, que falta de educação! É invasão de privacidade.
Sua obra sempre foi marcada pela vanguarda, irreverência e pelo acolhimento à diversidade. Como enxerga a relação da sua música com o movimento LGBTQIA+ ao longo das décadas? Propunha liberdade estética não só nas letras como no visual…
Nos anos 1970 veio uma onda de androgenia, David Bowie, Ney Matogrosso, meus ídolos da época eram doubles de atitude. Caetano, Gilberto Gil, que é um feiticeiro, uma feiticeira também. Pessoas com poder de fazer o que querem. Eu andava de batom preto, de saia. Usei muito antes de dizerem que saia para homem é bom. Sempre gostei de irreverência para quebrar tabus.
Amou quem você quis? Conseguiu ser livre sexualmente e amorosamente?
Agora estou conseguindo. Antes achava que era o dono das pessoas, que todos tinham que fazer o que eu queria. Isso é burrice. Pode provocar uma coisa que faça as pessoas prestarem atenção naquilo, mas não para você ser aprovado.
Está amando?
Estou. Tem 15 anos. Mas ninguém ocupa ninguém, o mercado está aberto, não é monogâmico. Não porque obriguei ou me obrigaram, é que é mais rico assim. E a gente está sempre querendo ficar junto. A gente vai ficar com outras pessoas… Eu não traio também. Não moramos juntos porque dá muito problema. Começa a ver a toalha que está no chão…
Se acredita que o Parkinson é um passaporte para o crescimento, um conselheiro e um fato de evolução, o que aprendeu com ele?
O Parkinson me diz o seguinte: “Não pense que só existe você no mundo”.Tire esse ego do centro e assuma a sua religiosidade através do universo. Não vem com velinha, macumbinha… Adoro uma batida de macumba, baixo até o santo. Mas o que deve ser é a sua ligação com o universo. Ele que te manda inspiração e saúde. Deus não é uma pessoa lá sentada numa cadeirinha, julgando. Deus é tudo, porque tudo tem átomo e célula.
