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Drama inspirador estrelado e dirigido por Michael B. Jordan está na Netflix

Drama inspirador estrelado e dirigido por Michael B. Jordan está na Netflix

“Creed III” chegou aos cinemas em 2023 carregando uma responsabilidade considerável. Além de continuar a história iniciada em “Creed” e desenvolvida em “Creed II”, o longa marca a estreia de Michael B. Jordan na direção. A produção acompanha um momento decisivo da vida de Adonis Creed, personagem interpretado pelo próprio Jordan, que já alcançou tudo aquilo que buscava dentro do boxe. Campeão respeitado, empresário bem-sucedido e pai de família, ele parece viver a fase mais tranquila de sua vida. Essa estabilidade, porém, começa a ruir quando uma figura importante de seu passado retorna inesperadamente.

A história se passa anos depois das conquistas esportivas de Adonis. Agora aposentado dos ringues, ele dedica seu tempo à academia Delphi e à formação de novos talentos. Em casa, compartilha uma vida feliz com Bianca Taylor, interpretada por Tessa Thompson, e com a filha Amara. O ex-lutador construiu uma existência confortável e admirada. O problema surge quando Damian Anderson, vivido por Jonathan Majors, reaparece após cumprir uma longa pena de prisão.

Damian não é um desconhecido. Durante a adolescência, ele era considerado uma promessa muito maior do que Adonis. Os dois cresceram juntos, treinavam juntos e sonhavam em conquistar o mundo do boxe. Um episódio traumático mudou completamente seus destinos. Enquanto Adonis seguiu em frente e alcançou fama internacional, Damian passou quase duas décadas atrás das grades vendo sua juventude desaparecer.

Quando reencontra o antigo amigo, Adonis sente culpa. Existe uma sensação permanente de dívida entre eles. Damian surge amigável, educado e aparentemente disposto apenas a recuperar o tempo perdido. Ele pede ajuda para voltar a lutar profissionalmente. Adonis acredita que oferecer essa oportunidade é a forma mais justa de reparar erros do passado.

A princípio, a proposta parece razoável. Damian continua fisicamente impressionante, demonstra enorme talento e carrega uma disciplina construída durante anos de isolamento. O problema é que o mundo do boxe não funciona apenas com mérito. Há empresários, patrocinadores, contratos e interesses financeiros envolvidos. Inserir alguém desconhecido nesse universo exige muito mais do que boa vontade.

Jonathan Majors transforma Damian em uma presença impossível de ignorar. O personagem fala pouco sobre seus sentimentos mais profundos, mas basta observá-lo para perceber o peso que carrega. Seu olhar transmite anos de frustração acumulada. Enquanto Adonis exibe a segurança de quem conquistou reconhecimento, Damian se comporta como alguém que acredita ter sido esquecido pelo mundo.

Essa diferença de perspectivas alimenta a tensão do filme. Adonis enxerga uma segunda chance. Damian enxerga uma compensação por tudo aquilo que perdeu. Embora estejam falando sobre o mesmo assunto, os dois parecem participar de conversas completamente diferentes. Cada encontro entre eles revela novas camadas de ressentimento, admiração e rivalidade.

O roteiro acerta ao não transformar Damian em um simples vilão. Suas atitudes nem sempre são fáceis de defender, mas suas frustrações são compreensíveis. Ele observa antigos colegas desfrutando do sucesso enquanto tenta reconstruir uma vida interrompida ainda na juventude. Essa condição faz com que muitas de suas escolhas pareçam nascer de uma ferida que nunca cicatrizou.

Enquanto isso, Bianca assume um papel importante dentro da narrativa. Tessa Thompson entrega uma personagem madura, capaz de perceber mudanças que Adonis prefere ignorar. Ela funciona como uma espécie de consciência do protagonista. Quando todos ao redor parecem fascinados pela possibilidade de redenção de Damian, Bianca é uma das poucas pessoas que observa os riscos envolvidos naquela aproximação.

A relação entre Adonis e sua filha Amara também ganha espaço significativo. A menina, interpretada por Mila Davis-Kent, compartilha com o pai a paixão pelo boxe e reforça a ideia de legado que atravessa toda a franquia. Essas cenas familiares oferecem respiros importantes entre os momentos mais tensos da história e ajudam a lembrar o quanto Adonis tem a perder.

Michael B. Jordan demonstra segurança surpreendente na direção. Seu trabalho busca aproximar o espectador dos personagens antes mesmo de pensar nos combates. As lutas continuam importantes, mas servem principalmente para revelar sentimentos que os protagonistas não conseguem expressar em palavras. Em diversos momentos, os golpes parecem carregar lembranças, arrependimentos e disputas que começaram muito antes de qualquer sino tocar.

As sequências de treinamento mantêm a energia tradicional da franquia, mas o diretor procura novas formas de apresentar os confrontos. Há escolhas estilísticas inspiradas em animações e videogames de luta, algo que adiciona personalidade própria ao filme sem romper com a identidade construída nos capítulos anteriores.

Boa parte da força de “Creed III” está justamente na maneira como transforma uma rivalidade esportiva em um acerto de contas emocional. O boxe funciona como palco para questões muito mais profundas. Cada personagem acredita possuir razões legítimas para agir da forma que age. Essa ambiguidade impede soluções fáceis e torna a disputa mais interessante.

Michael B. Jordan entrega uma atuação sólida como Adonis, mas quem domina grande parte da narrativa é Jonathan Majors. Sua presença cria uma tensão permanente. Mesmo durante cenas aparentemente tranquilas, existe a sensação de que algo importante está prestes a acontecer. O ator constrói um personagem imprevisível, ferido e ambicioso na mesma medida.

“Creed III” talvez não alcance o impacto emocional do primeiro filme da franquia, mas compensa essa diferença com personagens mais complexos e conflitos pessoais bem desenvolvidos. O longa compreende que as lutas mais difíceis nem sempre acontecem dentro do ringue. Algumas começam muitos anos antes, permanecem silenciosas durante décadas e reaparecem quando os envolvidos acreditam ter deixado tudo para trás. Ao colocar frente a frente dois homens marcados pelo mesmo passado, o filme constrói um drama esportivo envolvente, sustentado por atuações fortes e por uma história que consegue equilibrar ação, emoção e humanidade sem perder o foco em seus personagens.



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