Uma noite de casamento, um ex-amante inconformado e uma campainha que insiste em tocar madrugada adentro.
É a partir dessa combinação que o compositor italiano Gaetano Donizetti (1797-1848) construiu “Il Campanello”, ópera cômica que desembarca pela primeira vez no Recife em uma montagem integralmente cantada em português.
O espetáculo ocupa o palco do Teatro de Santa Isabel de quinta (3) a domingo (6), com quatro apresentações, classificação livre e ingressos a preços populares.
Escrita no século XIX e conhecida também como “Il Campanello di Notte”, a obra se aproxima da tradição da ópera bufa ao misturar situações absurdas, romance e humor de costumes.
No centro da trama está Enrico, um jovem boêmio que ainda nutre sentimentos por Serafina, sua antiga namorada. O problema é que ela está prestes a se casar com Don Aníbal, farmacêutico mais velho e prestes a partir em uma longa viagem.
Na adaptação recifense, a barreira da língua é retirada. O maestro e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Sérgio Dias traduziu tanto as partes musicais quanto os recitativos – trechos falados que conectam os números cantados – e também assume a direção musical e a regência.
A decisão abre espaço para uma relação mais direta entre público e obra, além de permitir que o humor seja recriado a partir de referências brasileiras.
A encenação incorpora ainda ingredientes da cultura pernambucana. O figurino dialoga com o universo carnavalesco, enquanto o cenário da celebração matrimonial inclui o tradicional bolo de noiva pernambucano, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado.
Expressões contemporâneas também entram na adaptação. Para completar, o espetáculo terá legendas, reforçando a compreensão do texto por parte da plateia.
A trama se inicia durante a festa de casamento de Don Aníbal, interpretado alternadamente por Anderson Rodrigues e Matheus Alvarenga, com Serafina, vivida por Anita Ramalho e Virginia Cavalcanti, também em revezamento. Os convidados da cerimônia formam o coro.
Entre os personagens que movimentam a ação estão Madame Rosa, papel de Monica Muniz, sogra interessada na prosperidade financeira do futuro genro, e Espiridião, interpretado por Eudes Naziazeno, empregado que transita entre a lealdade e a confusão.
É quando a noite avança que Enrico, vivido por Luiz Kleber Queiroz e Calebe Faria, começa sua operação. Ainda apaixonado por Serafina – e sabendo que o sentimento é correspondido –, ele precisa encontrar uma maneira de impedir que o casal tenha sua noite de núpcias.
A oportunidade surge porque Don Aníbal deverá viajar no dia seguinte para acompanhar a leitura do testamento de uma tia morta, permanecendo fora durante um mês.
A estratégia do rapaz é simples na aparência e cada vez mais delirante na execução: recorrer a diferentes identidades e aparecer repetidamente à porta da farmácia, acionando a campainha durante a madrugada.
Ele inventa situações que exigem a atenção do farmacêutico, aproveitando uma legislação que obriga profissionais da área a prestar socorro a pessoas doentes. Assim, Don Aníbal é sucessivamente arrancado de seus planos matrimoniais.
“Il Campanello” nasceu a partir da peça francesa “La Sonnette de Nuit”, de Leon Levy Brunswick e Mathieu Barthélemy, e preserva características do teatro popular italiano.
Na montagem pernambucana, essa herança aparece especialmente na construção dos tipos e no diálogo com a commedia dell’arte, enquanto a encenação procura evitar uma reprodução histórica literal.
A concepção visual é assinada por Marcondes Lima, diretor cênico e de arte. Ele optou por uma abordagem que privilegia a atmosfera e a imaginação em vez de reconstruir realisticamente os ambientes da narrativa.
“Escolhi ir na direção de um cenário mais impressionista, que busca capturar uma atmosfera poética: mais a sugestão da realidade e menos a imitação do mundo real com precisão fotográfica. Então aboli paredes, mas mantive as portas e outros elementos que possam sugerir as entradas e saída para outros ambientes”, conta Marcondes Lima, diretor cênico e de arte.
A produção reúne cerca de 80 artistas em cena e vem sendo preparada desde maio. Orquestra, coro e elenco de solistas passaram inicialmente por ensaios específicos, dedicados às exigências musicais e teatrais de cada núcleo.
A etapa seguinte foi marcada pela integração desses grupos, responsável por transformar os trabalhos individuais em uma única engrenagem cênica.
Para Maria Aída Barroso, cravista e professora da UFPE responsável pela preparação do coro, a tradução é também uma ferramenta dramatúrgica.
Ao trazer a obra para o português, a equipe pôde substituir construções linguísticas italianas que perderiam o efeito cômico quando traduzidas literalmente por referências capazes de produzir identificação imediata.
“Nossa montagem tem a vantagem de ser em português, o que dá ao público acesso completo ao texto e à compreensão da história. Essa escolha traz para o texto elementos abrasileirados e regionais, principalmente na substituição de expressões da língua italiana – que não fariam sentido na tradução. Essas adaptações ajudam a manter o humor da história e criam uma cumplicidade deliciosa com a plateia”, conta a cravista e professora da UFPE Maria Aída Barroso, à frente da preparação do coro.
A aproximação com o público está entre as principais apostas da montagem. Para o diretor artístico Matheus Soares, que divide a produção geral com Yasmin Menezes, levar uma obra tradicional ao palco sem transformar a experiência em algo distante é uma das maneiras de ampliar o acesso à ópera.
“Muita gente acha que ópera é algo da elite. Algumas obras clássicas, de fato, por serem em outras línguas, dificultam a compreensão. A falta de investimentos também interfere, pois diminui a quantidade de produções e provoca um distanciamento do público. Mas nosso espetáculo é acessível, engraçado e com uma temática do cotidiano que dialoga com todas as idades”, argumenta o diretor artístico, Matheus Soares.
Com incentivo do Funcultura, da Fundarpe, da Secretaria de Cultura e do Governo de Pernambuco, “Il Campanello” propõe, assim, uma leitura brasileira — e particularmente pernambucana — de um clássico do repertório operístico.
Entre portas que se abrem e fecham, identidades inventadas e uma campainha incansável, a montagem transforma a confusão amorosa de Donizetti em uma comédia musical pensada para falar diretamente ao público recifense.
SERVIÇO
Ópera “Il Campanello”, de Gaetano Donizetti
Quando: Quinta (3) a sábado (5), às 20h; e domingo (6), às 17h
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife-PE
Ingressos: a partir de R$ 20, à venda no Guichê Web
Informações:@25producoes
