Quando pensou “A Estrada”, Lô Borges já sabia exatamente onde queria chegar. Gravado em 2025 e lançado agora, em junho de 2026, o álbum reúne dez canções inéditas compostas com o irmão Márcio Borges – com exceção de “Chegada”, assinada apenas por Lô.
Concebido para marcar os 80 anos de Márcio, o álbum se torna a obra final de um percurso artístico que se caracterizou pelo vigor criativo.
A obra estava concluída e aprovada pelo próprio Lô antes de sua morte repentina, em novembro de 2025.
“A Estrada”, que teve produção dividida entre Lô e os músicos Henrique Matheus (guitarras, gravação e mixagem) e Thiago Corrêa (baixo e teclados), também contou com o baterista Robinson Matos e com o percussionista carioca Marcos Suzano como músico convidado.
Uma história contada em canções
O título do álbum não é mero cenário. Estradas, travessias, desvios e chegadas são imagens recorrentes em letras que observam tanto deslocamentos concretos quanto jornadas interiores.
Canções como “Travessia do deserto”, “18 rodas”, “Sem saída” e “Um velho sentado na beira da estrada” ajudam a construir a narrativa organizada na sequência imaginada pelos irmãos.
Para Thiago Corrêa, o álbum funciona como uma obra conceitual. “‘A Estrada’ é um disco conceitual, com uma narrativa amarrada pela instrumentação e pela costura da história contada pelas letras do Marcinho”, explica.
Segundo ele, a ordem das faixas foi definida para contar uma história que tem como pano de fundo os cerca de 60 anos de parceria entre os dois.
Essa unidade também passa pelo som. O violão de Lô, gravado integralmente em afinação aberta em ré, serve como fio condutor de uma viagem que começa mais intimista e vai ganhando novas camadas ao longo do percurso.
O método de Lô
Nos últimos anos, o compositor viveu uma fase especialmente fértil. “A Estrada” é o oitavo álbum de inéditas lançado em oito anos consecutivos, resultado de uma rotina criativa que impressionava os parceiros de estúdio. “Lô estava super produtivo e feliz com a dinâmica que desenvolvemos”, recorda Henrique Matheus.
O processo era direto: Lô chegava com melodia, harmonia, voz e instrumento já registrados. Depois, entregava o material para que os músicos construíssem os arranjos ao redor das canções.
A ideia inicial era criar um álbum centrado em violão e percussão, de atmosfera mais serena. No decorrer das gravações, porém, Lô decidiu ampliar o horizonte sonoro e incorporar a banda ao projeto.
Com essa intensa produção criativa, Lô deixou um bom punhado de canções que podem vir a se tornar mais três álbuns.
“Vamos fazer uma avaliação detalhada do material que o Lô deixou registrado […] As músicas serão produzidas com os músicos com quem ele trabalhava há bastante tempo, e a ideia é ver se cada um será lançado anualmente, a partir de 2027.”
Última parada
O percurso de “A Estrada” termina em “Chegada”, uma moda de viola conduzida ao lado de Tavinho Moura, que toca viola e canta junto a Lô. Distinta do restante do repertório, a faixa encerra o disco com um sotaque caipira e uma sensação de repouso conquistado.
Em outro momento do álbum, na canção “Última parada”, o compositor canta: “Finalmente eu cheguei/ Onde quero estar/ Completei o prometido/ Cumpri a missão/ E vou em paz ”. Os versos, escritos antes de qualquer despedida definitiva, ganha hoje uma ressonância inevitável.
“A Estrada” não se apresenta como um adeus melancólico. É, antes, um mapa afetivo desenhado por dois irmãos que passaram a vida transformando memórias, paisagens e sonhos em canções.
