Para os cineastas emergentes que este ano concorrem ao Oscar de melhor curta-metragem, sua indicação é uma conquista pessoal, mas também um sinal de abertura da indústria.
“A categoria de curta-metragem mostra uma diversidade particular em seus gêneros”, disse à AFP Julia Aks, indicada ao lado de Steve Pinder por sua sátira menstrual “Jane Austen’s Period Drama”.
“E acho que isso me enche de esperança, porque a Academia, que é o pináculo e o termômetro da indústria, está se abrindo cada vez mais.”
A jovem cineasta não imaginava que sua obra, uma comédia de época que aborda a menstruação e cuja protagonista se chama Estrogenia, aterrissaria na maior premiação de Hollywood.
“É muito encorajador que o tipo de coisas que queremos fazer também esteja sendo reconhecido”, afirmou.
A categoria de curtas-metragens é vista como uma porta de entrada para novos talentos que buscam se destacar na competitiva indústria audiovisual, e já contribuiu para lançar carreiras no passado.
Foi o caso de Martin McDonagh, roteirista e diretor dos premiados filmes “Três Anúncios para um Crime” (2017) e “Os Banshees de Inisherin” (2022).
“Honra incrível”
“É uma honra incrível”, comentou Pinder. “A Academia é formada por pessoas que admiramos e com quem queremos trabalhar no futuro”, acrescentou em conversa com a AFP.
Para Sam Davis, que entrou na competição ao lado de Jack Piatt com o curta “Os Cantores”, trata-se de “um momento irreal”.
E ele acredita que a indicação valida sua aposta em elaborar suas angústias pessoais por meio do cinema.
“Os Cantores” acompanha um grupo de homens solitários que, em certa noite em um bar, começam espontaneamente uma competição de canto.
“Eu queria contar uma história sobre a conexão e o poder da vulnerabilidade, especialmente hoje em dia, quando todo mundo está em seus celulares e estamos mais desconectados”, disse Davis à AFP.
O jovem diretor, que tem entre seus ídolos Paul Thomas Anderson, afirmou que o isolamento que afeta os homens de sua geração era algo que ele queria evocar na tela.
“Você nunca sabe quem está ao seu lado na loja ou no bar”, comentou. “Talvez faça um amigo se puxar conversa.”
“Transformações”
A mesma temática guiou o trabalho do estreante Lee Knight, diretor de “A Friend of Dorothy”, estrelado pela atriz britânica Miriam Margolyes.
A obra de 20 minutos, que também tem Stephen Fry no elenco, retrata a amizade improvável entre uma senhora idosa e seu jovem vizinho, e propõe uma reflexão sobre a importância de se conectar com outro ser humano para além de gerações e origens.
“Eles se encontram em um momento em que precisam um do outro, e estão sozinhos cada um à sua maneira”, explicou Knight à AFP.
Para esses talentos que buscam seu espaço em Hollywood, a indicação confirma que, por mais competitiva que seja a indústria, quem insiste persevera.
“Trata-se de enviar uma mensagem a outros cineastas, atores, contadores de histórias. É um clichê, mas você realmente não pode desistir”, declarou Knight, que tentou a sorte por anos como ator antes de sua primeira aventura atrás das câmeras.
“Houve momentos em que fechei o computador e disse: não consigo.”
Meyer Levinson-Blount, indicado ao lado de Oron Caspi por “Butcher’s Stain”, concorda.
“Você nunca sabe o que vai acontecer, ou quando vai acontecer”, disse Levinson-Blount à AFP.
“Butcher’s Stain” conta a história de um homem árabe-israelense que trabalha em um supermercado de Tel Aviv e é acusado de remover cartazes de pessoas sequestradas.
O otimismo é a chave para entrar nessa indústria, defende Caspi.
“Contar histórias é uma das artes mais antigas, e acho que muitas das transformações em relação à tecnologia e às mudanças na situação em que nos encontramos… é assim que obtemos nossas histórias”, disse.
“Sinto que estamos entrando em uma era muito interessante para a contação de histórias.”
A cerimônia de entrega dos prêmios da 98ª edição do Oscar será realizada em 15 de março em Hollywood.

